Ucranianos e russos unidos por "contos com sotaque"
Guerra na Ucrânia

Ucranianos e russos unidos por "contos com sotaque"

Depois de terem frequentado um curso de Português - Língua de Acolhimento, dinamizado pela Escola Profissional Vasconcelos Lebre (EPVL), da Mealhada, um grupo de migrantes ucranianos e russos vai ler histórias, recitar poesia e ler contos ucranianos em português, na biblioteca local, no próximo sábado.

A língua portuguesa e a iniciativa "Contos com sotaque" é uma forma de unir os migrantes de dois países em guerra.

Tatiana chegou a Portugal há três anos. Veio com o marido e, pela mão, trouxeram também os dois filhos. Ironia, ou não, calhou a Tatiana na iniciativa "Contos com sotaque" contar a história do lobo mau. Também ela deixou para trás a Rússia com medo do lobo mau, Vladimir Putin.

Sentiam o cerco a apertar-se, não tinham um bom pressentimento e, por isso, decidiu deixar para trás o emprego como administrativa numa fábrica de helicópteros para abraçar a incerteza em Portugal. Já trabalha. Esteve na restauração, agora está num gabinete de estética. Porquê Portugal? "Portugal é um país muito calminho".

A inscrição no curso de Português aconteceu por uma razão que explica de forma muito simples e objetiva: "se queremos ficar aqui temos de saber a língua, para encontrar trabalho. Nós gostamos muito de Portugal". Não querem voltar à Rússia. "A meteorologia é bem melhor do que na Rússia".

Ao longo dos meses de curso foi mais fácil criar boas relações de amizade do que aprender português, o que acabou também por acontecer. "O nosso grupo é composto por boas pessoas e a professora Joana Rocha era maravilhosa, ficámos muito amigos", conta.

Ainda assim, aprender a língua do país que as acolhe não se compara com a dureza de estar longe da família. Contudo, a gramática é difícil, pois "em russo é muito diferente e é quase ao contrário" quando se formulam as frases. "Para nós é muito difícil", acrescenta Tatiana.

"Portugal acolheu-me, mas é preciso aprender a língua para comunicar e trabalhar"

Ao lado, com sorriso cúmplice de amigas, Tatiana tem Kseniia, ucraniana refugiada na Mealhada há cinco meses, natural da região do Donbass, da cidade de Kramatorsk, embora os últimos oito anos de vida tenham sido passados em Kharkiv, onde estudou. Foi geógrafa, ginasta acrobata no circo e agora é fotógrafa e procura um emprego em terras lusas.

"Portugal acolheu-me, dá-me paz de espírito, mas em qualquer país é preciso aprender a língua para comunicar e trabalhar", sabe Kseniia, que tentará ficar por cá e procurar trabalho. Mas, neste momento, há ainda outra prioridade em mãos: "tenho a minha família na Ucrânia e o meu coração ainda está lá", reflete.

Até que consiga um trabalho como fotógrafa, que na Ucrânia fazia para revistas e desfiles de moda, vai apoiando o namorado português nas vinhas e, atualmente, nas vindimas. "Gosto muito da natureza e das pessoas, que são muito diferentes dos ucranianos, que somos de personalidade mais forte, mais dura. Aqui as pessoas são mais calmas e mais lindas".

As linhas que escrevemos são excertos recentes de duas histórias de vida, de duas amigas, uma russa e outra ucraniana, que Portugal uniu. As histórias nos "contos com sotaque", na Biblioteca Municipal da Mealhada, serão outras.

Contudo, quer estas mais duras, da vida real, quer as do próximo sábado, contam-se agora em português aprendido num curso que começou em maio, coordenado por Vera Neto, do Centro Qualifica da EPVL. "O objetivo foi cumprido, que as pessoas que chegaram ao concelho e aos municípios limítrofes fossem integradas na comunidade", diz. Vera Neto acrescenta que, além do curso de Português, a parte social também foi muito importante. Aliás, o curso terminou com um encontro de degustação de pratos típicos portugueses, ucranianos e russos.

Tendo em conta o sucesso do primeiro curso, a segunda edição arranca já no próximo mês de outubro.

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