Uma brasileira e uma búlgara entram num bar. Sai startup que previne fogos a partir do espaço

Isabela Simão e Katia Stambolieva criaram uma startup que usa as imagens por satélite para analisar a humidade, a temperatura do solo e a densidade da vegetação para prevenir grandes incêndios. Já foram premiadas pela Agência Espacial Europeia e fazem parte da Casa do Impacto.

Isabella Simão é natural de São Paulo. Trabalhava na MTV no Brasil quando decidiu mudar de vida. Katia Stambolieva é uma cientista de dados búlgara e vive em Portugal há cinco anos. Conheceram-se em Lisboa e juntas desenvolveram a Nina Space, uma startup que quer prevenir grandes incêndios através de tecnologia espacial.

"Fui no Web Summit e comecei a ver essa coisa do empreendedorismo e da tecnologia e quando eu descobri que dava para usar a tecnologia para causar impacto, eu falei : é por aí que quero ir", refere Isabella Simão que aterrou em Lisboa em 2017, por altura da maior conferência da Europa em tecnologias.

A chegada a Portugal também coincidiu com os grandes incêndios que afetaram o país em 2017. "Não sou portuguesa, claro, mas foi muito duro para mim ver essas imagens, os carros encurralados, o cinza, tudo isso. E eu não sou da área florestal, não sou da área da tecnologia mas alguma coisa precisa ser feita."

Numa visita ao MAAT, o Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, a brasileira passou por uma das câmaras de sensores térmicos que mostrava as diferentes temperaturas do corpo humano e daí surgiu a ideia de usar algo parecido para a prevenção dos fogos florestais, associada à tecnologia espacial.

O conceito estava lá mas Isabella precisava de alguém com conhecimentos tecnológicos que pudesse ajudar a pôr em prática esta ideia. Foi nessa altura que conheceu Katia Stambolieva. "Encontrei esse génio da tecnologia. Cheguei com um bolinho e ela transformou isso num bolo super confeitado."

Katia Stambolieva estava em Lisboa há cinco anos. Antes esteve a trabalhar no Luxemburgo e também passou por Inglaterra e por Espanha para estudar inteligência artificial. Trabalhava em consultoria mas procurava um projeto com o qual se identificasse. "Eu queria fazer alguma coisa porque adoro a natureza, adoro acampar e adoro florestas. Venho de Sófia, a capital da Bulgária, mas temos uma grande montanha mesmo ao lado, estamos rodeados de florestas, por isso cresci na floresta. E quando há incêndios em florestas, isso magoa-me. Por isso, decidimos fazer alguma coisa em relação a isto."

Do espaço para Portugal

Do encontro entre as duas empreendedoras, nasceu a Nina Space. O objetivo da startup é ajudar no controlo das faixas de gestão de combustível com recurso aos grandes olhos que estão lá em cima no espaço - os satélites. "Imagine que se transforma num gigante e consegue ver Portugal como se fosse a palmas das duas mãos. Depois pode ir fazendo zoom in e zoom out e ir vendo os terrenos quase ao pormenor. Aí dá para ver o tipo de vegetação, a temperatura do solo e assim ver se está em risco ou não e onde deve ser feita a faixa de gestão de combustível", explica a especialista em inteligência artificial.

A tecnologia que desenvolveram usa as imagens por satélite para analisar a humidade, a temperatura do solo e a densidade da vegetação e, com esses dados, surge um algoritmo que permite perceber quais as áreas que estão em risco de incêndio, ou seja, as zonas em que autoridades devem atuar.

"Imagine que é novamente o gigante e os seus olhos são dois satélites. Tiram fotos de cinco em cinco dias e depois processa as imagens. O que podemos fazer é denunciar isto às autoridades - porque somos o tal gigante que vê do espaço - e as autoridades decidem o que fazer", acrescenta.

A startup Nina Space quer trabalhar diretamente com as autarquias. As empreendedoras contactaram várias câmaras municipais em todo o país para ajudarem a prevenir incêndios florestais. "A gente teve uma resposta positiva de uma parte delas", explica Isabella, referindo que a empresa está numa fase de contactos diretos com as várias autarquias para mostrarem o trabalho que fazem às entidades.

Premiadas pela ESA e pela Casa do Impacto

Em junho do ano passado, o projeto entrou para o programa de incubação da Agência Espacial Europeia, o que lhes valeu 50 mil euros para a melhor startup desenvolvida por mulheres.

Em fevereiro deste ano, a dupla entrou para a Casa do Impacto, um projeto de empreendedorismo e inovação da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

"Não é qualquer startup de impacto que pode trabalhar aqui. É um processo de seleção que identifica se a startup tem alinhamento com a casa", explica Isabella Simão, acrescentando que a entrada na Casa do Impacto permitiu à Nina Space consolidar-se enquanto startup de impacto social e ambiental.

A Casa do Impacto celebrou o primeiro aniversário em setembro. Nasceu para apoiar startups de impacto positivo na sociedade e viu nascer mais de 30 novos negócios com mais de 200 residentes. A incubadora e aceleradora pretende triplicar a capacidade de apoio a novas empresas, que trabalhem em áreas de ambiente, cidadania, igualdade de género, envelhecimento ativo, saúde mental.

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