Vai nascer em Paredes de Coura uma fábrica de vacinas

Não são rápidas, nem baratas mas podem dar milhões. Coura vai ter fábrica de vacinas num projeto ibérico. Costa diz que o investimento "coloca Portugal na linha da frente da resposta a crises sanitárias".

A empresa Zendal Portugal está a construir uma fábrica para produzir vacinas no Parque Empresarial de Formariz, no concelho de Paredes de Coura, distrito de Viana do Castelo, num investimento de quinze milhões de euros. Trata-se de uma unidade de produção industrial de vacinas que deverá iniciar atividade no final deste ano, empregando inicialmente trinta pessoas, metade das quais licenciados e que, apurou a TSF junto da autarquia, já estarão a ser recrutadas. Será também criada uma rede de fornecedores locais de embalagens, frascos e outros materiais que poderá representar, para o concelho, mais algumas dezenas de postos de trabalho indiretos.

Para o autarca Vitor Paulo Pereira, "a decisão da Zendal de instalação desta importante fábrica de vacinas no concelho é uma grande notícia para Paredes de Coura, mas também para Portugal. Esta decisão não acontece por acaso ou milagre. É o resultado de dois anos de trabalho árduo na captação deste investimento, suportado nas relações de confiança com o CEO da Zendal, Andrés Fernández".

Coura puxa dos galões de polo exportador

À TSF, o presidente da Câmara Municipal, Vitor Paulo Pereira, destaca ainda a constante preocupação em "não falhar um prazo e a velocidade institucional". Na verdade, em 2013 Coura exportava 7 milhões de euros, valor que foi multiplicado por mais de sete vezes num par de anos (50 milhões em 2015) e que, hoje em dia, já duplicou. Pereira está convicto de que, em meados da presente década, o concelho que dirige estará "no top 20 dos concelhos mais exportadores da zona norte".

O investimento da Zendal em Paredes de Coura acaba por contribuir para compensar uma lacuna no país. Segundo fontes ligadas ao processo, Portugal "tem um forte deficit comercial em medicamentos, um baixo nível de investimento em I&D empresarial e uma baixa capacidade de atração de investimentos estruturantes estrangeiros" neste domínio.

O primeiro-ministro afirma que "este investimento da Zendal coloca Portugal na linha da frente dos esforços de resposta a crises sanitárias, como a que atualmente enfrentamos, da COVID-19, garantindo o envolvimento nacional nas cadeias valor do setor da saúde". Um projeto que, na opinião de António Costa, "reconhece as competências e as capacidades portuguesas numa área de alta intensidade tecnológica e com forte pendor exportador". Já para o autarca socialista minhoto, trata-se de "uma vitória para Paredes de Coura e uma grande conquista para a Euro-região".

Em 2006, durante o primeiro governo Sócrates, fracassou a a primeira tentativa de implantar em Portugal uma fábrica de vacinas. No caso da Medinfar, a unidade fabril esteve projetada para Condeixa, no distrito de Coimbra. Na altura, além da gripe sazonal, a grande preocupação era a gripe das aves. Há, pois, uma enorme expectativa no concelho minhoto em relação a este investimento da farmacêutica galega, apesar da complexidade e tempo que pode levar até uma vacina "Made in Coura" ver a luz do dia. Na verdade, "entre pesquisa, desenvolvimento, fabrico e estudos clínicos, uma nova vacina pode levar 10 anos ou mais", sendo mais de dois terços do tempo estimado "dedicado ao controlo de qualidade". Até porque nem todos os ensaios clínicos chegam à meta da aprovação final para comercialização, sendo a taxa de sucesso da ordem de um em cada cinco. E, além disso, são muito poucos os laboratórios produtores: a OMS revela que 80% das vacinas são produzidas por cinco laboratórios.

Custos dispendiosos, validade curta (em média, três anos), concorrência entre países para tentarem garantir as doses necessárias para as suas populações, como se verifica no atual contexto pandémico, fazem deste um negócio de risco. Mas, por outro lado, é um mercado em franca expansão: "segundo a ONU, estima-se que possa chegar aos 100 biliões em 2028".

No laboratório de Pontevedra, a Zendal já trabalha na produção de 500 milhões de doses da Novavax, vacina da farmacêutica norte-americana à qual estão ligado a Bill e Melinda Gates. A empresa espanhola destaca-se atualmente pela vacina produzida contra a tuberculose, a MTVBAC, concebida pela Universidade de Saragoça e que a Biofabri desenvolve em O Porriño (Pontevedra), já em fase de teste em macacos e que poderá ser vir a ser a alternativa mais eficaz para tratar uma doença que, a cada ano, causa quase milhão e meio de mortes no mundo.

A empresa que se vai instalar em Formariz é, na verdade, um grupo que agrega seis empresas dedicadas à investigação, desenvolvimento, fabrico e comercialização de produtos no âmbito da saúde Humana e animal, dedicando mais de dez por cento a I&D e atuando em mais de 65 países.

Um pouco de história...

A enfermeira Isabel Zendal foi a única mulher na Expedição Filantrópica de Vacinas Reais (1803-1812), liderada pelo médico espanhol Francisco Xavier de Balmis, cujo papel foi fundamental na vacinação contra a varíola na América, China e Filipinas.

Em 30 de novembro de 1803, a primeira expedição internacional de saúde da história, conhecida como Royal Vaccine Philanthropic Expedition, partiu da Corunha. Maus de duas dezenas de crianças órfãs e o Dr. Balmis, médico pessoal do Rei Carlos IV, fizeram uma viagem pela América, China e Filipinas com o ambicioso objetivo de imunizar milhares de pessoas contra a temida doença. A enfermeira espanhola Isabel Zendal era a única mulher a bordo e tornou-se a espinha dorsal da expedição. Sabe-se que, na altura, inocularam mais de meio milhão de pessoas.

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