"Não estamos em condições de avançar para nova fase de desconfinamento"

O epidemiologista Manuel Carmo Gomes alerta que não é sensato avançar já para uma nova fase de desconfinamento, que é necessário controlar o Rt para evitar de novo um pico de milhares de casos, numa altura em que a tendência de aumento já se confirma.

Olhando para os números, o professor e epidemiologista Manuel Carmo Gomes responde, no Fórum TSF, com um "não" redondo à possibilidade de uma nova fase de desconfinamento já na segunda-feira, 19 de abril. "Cada vez que desconfinamos, aumenta a mobilidade, o número de contactos e contágios", começa por dizer.

O especialista garante que os efeitos da reabertura das creches em março fizeram-se sentir logo no início de abril, com um aumento da incidência nas camadas etárias mais jovens. Já da reabertura dos níveis de ensino subsequentes, a 5 de abril, ainda não são conhecidas as consequências, mas Manuel Carmo Gomes deixa um aviso: "A incidência vai aumentar nestes grupos etários, e já é uma população ativa." Este impacto, avisa o especialista, será visto por volta de 20 de abril ou até depois.

O Rt está a aumentar desde meados de fevereiro, e esse aumento é feito a um ritmo de 0,01 por dia. Manuel Carmo Gomes apresenta os números que o deixam em alerta: no início de abril, havia 60 casos acumulados por cem mil habitantes a 14 dias; a 13 de abril, já eram 70 por cem mil, consequência do aumento do índice de transmissibilidade. Por isso, o epidemiologista não hesita em dizer que há possibilidades de vir a "duplicar o número de casos num mês". Aliás, como o Rt está a aumentar, todos os dias o aumento da incidência será maior.

"Não vale a pena ter equívocos, nem ilusões"

Manuel Carmo Gomes lembra: "Vivemos isto em setembro e outubro do ano passado, após o verão." O que se seguiu foi um pico de cinco mil e seis mil casos a meados de novembro. "Já vimos este filme", lamenta o especialista, que receia que o país caminhe para um limiar muito acima da linha vermelha.

Em relação a este momento de abril de 2021, apenas assinala duas diferenças: uma agravante - "a nova variante britânica, com uma transmissibilidade e carga viral mais alta" - e uma agravante - a vacinação, cuja cobertura já atinge mais de 90% dos idosos acima dos 80 anos. Ainda assim, uma vasta quantidade de pessoas, pertencentes à população ativa e motores da economia, tem ainda pouca cobertura de imunização.

Uma quarta vaga à espreita

"Com este ritmo de vacinação, não vamos conseguir evitar uma quarta vaga com este desconfinamento. Não podemos continuar neste ritmo de desconfinamento." O professor considera "extremamente precipitado" um passo de alívio de restrições já a 19 de abril. É preciso, de acordo com o especialista, "pausar e controlar a subida do Rt, senão vamos ter um pico de milhares de casos por dia", o que dará "uma imagem muito má do país" no que concerne à epidemia.

O epidemiologista deixa estes avisos para que não "cheguemos a junho e julho com aparência de epidemia muito descontrolada", e porque se impõe, de momento, avaliar as consequências dos passos dados a 5 de abril. Manuel Carmo Gomes defende que se deve "aprender com as lições do passado", admitindo que as decisões são ponderadas entre a epidemiologia, a sociologia e a economia.

Mas não há, por parte do professor, dúvidas de que uma quarta vaga pode acontecer. "Sem dúvida, não tenho dúvidas sobre isso", diz, invocando a "situação muito parecida" com a que foi vivida nos meses que se seguiram ao verão. Já o impacto hospitalar não será provavelmente o mesmo, mas o especialista fundamenta que na Covid-19 "não são só mau os óbitos e hospitalizações".

"Temos evidência de que uma parte fica com sequelas, cardiopatias, problemas dos rins, e não percebemos quanto estas sequelas duram. A Covid-19 não é só um problema de matar e de enviar pessoas para o hospital. Ainda não percebemos a extensão no tempo destas sequelas, ainda estamos muito longe de perceber isso."

Como os "hospitais vão sempre atras da incidência da doença", Manuel Carmo Gomes defende que os impactos em meio hospitalar "controlam-se a montante da epidemia", e que "estarmos à vontade em termos hospitalares não significa que a situação não se degrade". Os problemas de sobrelotação dos hospitais não foram registados logo em novembro, mas chegaram e depois subiram também os óbitos.

"Com o panorama nacional de aumento do Rt, temos de tomar uma medida nacional"

Manuel Carmo Gomes discorda da intenção de Marcelo Rebelo de Sousa sobre a possibilidade de confinamentos locais, já que, "de um modo geral, o Rt está acima de 1 em todo o país".

O que o epidemiologista defende é a iniciativa de adiar pelo menos uma semana um novo passo de alívio das medidas restritivas, para compreender as consequências da Páscoa e de 5 de abril.

No Reino Unido, exemplifica, no calendário de desconfinamento, "sensatamente estabeleceram períodos de cinco semanas de intervalo entre cada fase para detetarem os efeitos de cada passo". Já em Portugal, a realidade é outra. "De cada vez que damos um passo, é um passo de gigante", comenta.

"O gradualismo também permite aumentar a cobertura vacinal, mas não é o que está a acontecer nem o que se está a perspetivar."

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