Viver a pandemia antes da pandemia. "Bem-vindos ao meu mundo, o mundo da perturbação obsessiva compulsiva"

Eva Monte - pseudónimo da autora de "Na Loucura da Dúvida" - defende que já vivia como se houvesse uma pandemia antes mesmo de a crise sanitária se instalar. São décadas de sofrimento devido à perturbação obsessiva compulsiva que conta numa entrevista à TSF.

Na Bíblia, Eva perdeu o acesso ao paraíso quando sucumbiu à obsessão por uma maçã. Esta história, mais recente, é também sobre a perda do estado de paz mental e prova como a obsessão pode fazer ruir o jardim do Éden. Eva Monte, nome fictício, era adolescente quando começou a associar obsessões a compulsões. "Lembro-me de aos 13 anos ter começado com os pensamentos mágicos e de superstição. Acreditava que, se eu pensasse em alguma coisa má, essa coisa má ia acontecer." Depois, os passeios com o namorado à Serra da Estrela, um chá com erva-cidreira colhida no quintal da casa de uma amiga e até o dia do casamento tornaram-se momentos ensombrados pela presença da dúvida de que algo poderia correr terrivelmente mal. "Há partes da minha vida que me foram roubadas, porque nunca nenhum momento era pleno", rememora.

"Recordo-me de ter pensamentos obsessivos desde a minha infância: um medo excessivo de que pessoas de quem eu gostava morressem e outros medos que hoje, em adulta, vejo que não eram normais e que ficavam a rolar na minha mente", conta, em declarações à TSF. Aos 18 anos tomou o primeiro ansiolítico e pensou: "É possível uma pessoa sentir-se calma?" Já não lhe parecia uma sensação familiar, porque vivia em conflito entre dois mundos: a realidade e a doença.

A perturbação obsessiva compulsiva ou POC, como Eva Monte a descreve, é "a tortura perfeita, porque é a tortura vinda de dentro", em que as obsessões são a dor e as compulsões o alívio.

"Pensava que o meu primo ia ser atropelado, e sentia dentro de mim a ansiedade a crescer por ter esse pensamento, um pensamento que quase toda a gente tem por vezes, mas na doença atribuímos um significado a um pensamento que devíamos pôr de lado por ser inútil e sem lógica." Como reconhece a paciente de 45 anos, as dúvidas são pensamentos que o ser humano rejeita, com alguma rapidez e várias vezes por dia, mas a que Eva Monte não conseguia fazer face.

Foi, desde sempre, "uma criança muito preocupada", embora a pressão fosse exclusividade sua. "Tudo me preocupava muito. Tinha muito receio de falhar. Não é que daí adviessem grandes consequências, não posso dizer que me ralhavam muito, era algo mais interno, era autoimposto."

"A doença agigantava esses pensamentos e dava-lhes um significado que eles não têm. Essa obsessão levava-me a fazer algo para me acalmar: a tal compulsão." Depois, perdia o controlo: lembra-se de fabricar o "pensamento mágico" de que poderia ser "o veículo" para que algo terrível acontecesse, e de incorporar comportamentos com o intuito de acalmar o estado mental. "Começou por ser bater na madeira, [dizer] 'que o diabo seja cego, surdo e mudo', mas tinha de o fazer quatro vezes", aponta.

As compulsões empolaram as obsessões, num ciclo vicioso: "Por fazer a compulsão, cada vez mais as obsessões se tornavam insuficientes. Já não bastava fazer quatro vezes, já tinha de fazer quatro vezes quatro." Fazia-o às escondidas, porque sabia que as práticas "não tinham lógica". Não tinha ainda a noção de que tinha a doença, mas sabia já que se tratava de "algo de desajustado".

Os traços obsessivos são muito comuns na população, mas refutar o erro desses raciocínios mentais é uma capacidade também generalizada. "Às vezes as pessoas pensam 'vou cair escadas abaixo', mas não dão importância a esse pensamento, racionalizam e abandonam-no. O obsessivo não abandona, continua ali, e continua, e continua."

"Se eu não der uma resposta devida ao erro, o erro permanece, e o medo do erro permanece. Eu não escrevia a preto. Escrever a preto, para mim, implicava que alguém de quem eu gostava ia morrer." Se escrevesse a caneta de tinta preta, Eva Monte ficava "muito ansiosa", perdia dias a pensar no que poderia acontecer e a culpar-se pelas consequências que traria às pessoas mais próximas. Eva Monte chama-lhe "pensamento mágico".

Acima de tudo, eram rituais. Antes de fazer exames, conta, a paciente natural do Porto tinha de ir à missa rezar, tinha de colocar um colar e tinha de ouvir as mesmas palavras que a mãe sempre lhe dizia. Mas fazia-o sem que alguém reparasse."Se o relógio sinalizasse o mesmo número em horas e minutos, eu tinha de ficar parada a olhar, porque, se eu não o fizesse, algo de mal iria acontecer", recorda.

"Eu estava atenta às notícias para garantir que um avião não tinha caído por minha culpa." A dúvida também se prendia com situações mais concretas do quotidiano. Um dia, Eva Monte dá-se conta de que são precisas 30 vezes para se certificar de que a porta está fechada. "Vem a dúvida. A dúvida patológica é a base da perturbação obsessiva compulsiva."

Foi assim que a doença foi descrita por Le D" Legrand du Saulle - psiquiatra francês - pela primeira vez, em 1875: "a loucura da dúvida". É por isso que o tratamento para o distúrbio, conhecido como OCD nos Estados Unidos da América, passa por arriscar não o fazer, mas "dá muito medo não fazer". O tratamento é uma forma de suplantar o medo. Eva Monte descreve-o como "deixar-se cair nas Cataratas do Niágara e esperar que nada aconteça", porque significa "não ligar à obsessão, esperar calmamente que ela se vá embora". Há ainda uma variedade de obsessões ligadas à sexualidade e ao sagrado.

"A minha parte sã sabe que nada disto tem lógica, por isso vivo a vida em luta." O verdadeiro combate só se iniciou há oito anos. Em 2012, Eva Monte entrou numa depressão profunda, devido a um cansaço cumulativo por viver anos com a perturbação obsessiva e numa "luta" para esconder rituais de contaminação e verificação. Emagreceu muito porque pouco comia, e caiu na "exaustão". Teve de ser medicada e submeteu-se à eletroconvulsoterapia. "A depressão foi muito profunda e eu recordo-me de muito pouco. Também não me lembro de coisas que aconteceram com os meus filhos. Sei que fizemos uma viagem e eu tenho-a na memória como um álbum de fotografias." Antes de poder tratar a perturbação, tinha de livrar-se da depressão, conta. "A POC implica fazer sacrifícios e percorrer um caminho de aprendizagem sobre o que é a doença."

A estimulação cerebral profunda surgiu como um recurso final. O método já era conhecido e aplicado em doentes com Parkinson, mas ainda não era utilizado em larga escala para doentes com perturbação obsessiva compulsiva. "Eu iria ser o segundo caso de operação em Portugal para a POC. O meu receio era quase nenhum, porque eu quase não estava mais cá." Mas foi a "salvação" para Eva Monte. Quando melhorou da depressão, começou a ter forças para combater a ansiedade que o tratamento da POC - um "bailado harmonioso" - desencadeava. "Todos têm de dançar ao mesmo tempo: a medicação, no meu caso, também o aparelho [de estimulação cerebral profunda], e a psicoterapia", desvela.

"A pandemia obrigou-me a voltar para uma vida que era a que eu tinha às escondidas"

Os sintomas de contaminação apareceram pouco tempo antes da gravidez, com a primeira filha. Trata-se de uma obsessão com a limpeza e com as ameaças de germes que, acredita, podem esconder-se em qualquer lugar.

Mas Eva Monte salienta que a limpeza é uma ideia feita sobre as pessoas com POC. A ideia de pessoas com casas limpas ao mínimo pormenor pode ser uma falácia, explica. "O obsessivo pode ter um canto da casa de banho impecavelmente limpo e desinfetado e o resto da casa todo desarrumado, porque a sua obsessão é aquele canto da casa de banho, e é ali que não pode haver um único micróbio." Com a pandemia, a paciente diz sentir-se "mais saudável do que os saudáveis".

"Bem-vindos ao meu mundo, porque este é o mundo do doente com POC. É assim que um doente com POC vê o mundo." Eva Monte sempre viu o mundo como "um lugar ameaçador, em que a sujidade está em toda a parte": no puxador da porta, na torneira ou no carro. "Nós vemos o mundo como vocês todos o veem agora: a contaminação está em qualquer lado, os medos estão em todo o lado. Há bactérias, há ameaças. Às vezes, não são necessariamente reais ou as mais prováveis."

Apesar de ter percorrido o caminho do tratamento, a paciente não esconde que "a pandemia foi um desafio e, provavelmente - só as estatísticas depois o dirão -, muitas POC podem ter nascido neste ambiente de pandemia".

"A pandemia obrigou-me a voltar para uma vida que era a que eu tinha às escondidas. Cheguei a um ponto em que sair de casa era incomportável." Por isso, Eva Monte acredita que serão "tempos terríveis" para quem ainda não enfrentou o tratamento, mas não deixa de transmitir uma mensagem de esperança, compilada no livro "Na Loucura da Dúvida", chancela da editora Cordel D'Prata.

Na obra, a autora reúne pensamentos de uma altura em que escrevia textos, os "textos que explicam a doença", também de forma obsessiva. A escrita surgiu como uma terapia, reconhece. Das memórias, saltam à vista imagens esbatidas dos dias em que não comandou a vida que vivia, e em que tudo fez para esconder a doença dos filhos.

Eva Monte, que acredita que as perturbações aumentaram durante a pandemia, pede que os obsessivos compulsivos se assumam como tal, sem medo de serem julgados, e que iniciem a terapia. Estima-se que uma em cada 50 pessoas tenha POC. A prevalência estimada da doença está compreendida entre os 2 e os 3%, mas, para a paciente, falta levantar o véu à realidade. "Acredito que é muito mais, porque eu vivi até aos 38 anos sem contar para as estatísticas, num sofrimento enorme. Para um psiquiatra é muito fácil diagnosticar uma POC, conte o doente os sintomas. O problema é que os pacientes vão às consultas pedir ajuda por uma depressão ou cansaço."

O tratamento de Eva Monte passou por técnicas como a de adiar o pensamento, o desfoque da atenção e outras, que lhe proporcionaram "momentos de paz" que não se lembrava de ter.

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