"Você é de cor?" As portas que se fecham quando "Luena" tenta arrendar um quarto em Lisboa
discriminação

"Você é de cor?" As portas que se fecham quando "Luena" tenta arrendar um quarto em Lisboa

Na hora de encontrar um lugar para dormir, não só a pouca oferta ou os preços elevados podem dificultar a vida a um estudante. Não ser português também parece ser um entrave para alguns senhorios.

Estar em Portugal é toda uma nova aventura na vida de Luena, nome fictício que assume para contar a sua história. Um país novo, uma nova universidade e a oportunidade de subir mais uns degraus na sua formação académica. Em Angola, já vivia sozinha há uns anos, mas esta jovem sabia que vir para Lisboa para tirar um mestrado implicaria temporariamente recuar na independência que conquistou.

Por isso, quando chegou à capital do país já sabia que procurar um apartamento não era opção. Contudo, não estava à espera que à dificuldade de recomeçar do zero, se juntasse mais uma: a de encontrar um quarto. "Ter de partilhar casa é uma coisa estranha para mim. Preciso de me adaptar. Mas não pensei que até para partilhar casa fosse tão complicado, uma coisa do outro mundo", desabafa Luena.

E a dificuldade vai além dos preços ou da pouca oferta. Na maior parte dos contactos que fez, a jovem angolana considera que o facto de ser angolana lhe fechou as portas. Numa das vezes, a conversa com uma senhoria ficou-se pelo telefone. "A conversa fluiu muito bem. Fui perguntando os preços, se as despesas estavam incluídas e ela lá ia respondendo", explica. Mas à medida que os minutos iam passando, a abertura do outro lado da linha estava a mudar. "Penso que durante a conversa ela terá notado que o meu sotaque era diferente", continua. Até que surge a pergunta: "Você é de cor?".

Luena não percebeu imediatamente o que estava implícito naquela questão. Demorou alguns segundos a entender o que queriam dizer aquelas palavras. Depois surge a contra pergunta: "A senhora quer saber se eu sou negra?". A resposta foi afirmativa. A partir daí, surgiram um conjunto de desculpas, com a senhoria a ressalvar que as perguntas tinham apenas o objetivo de saber "com quem estava a falar", e que não eram "para levar a mal". Luena explicou a sua história, e subitamente o perfil desta jovem já não mais se enquadrava no que a senhoria estava à procura. "Estamos só a arrendar para estudantes de licenciatura", explicaram do outro lado. A explicação não bastou a Luena.

A procura continuou, mas sem sucesso. No caso de um outro quarto, a estudante conseguiu marcar visita. Neste caso, a porta abriu-se, mas com frieza. "O preço não era assim tão mau. Quando a senhora abriu a porta eu vi a deceção dela. Não estava à espera de alguém como eu. Eu vi a frieza com que me tratou e mostrou o quarto", confessa Luena.

Mas a discriminação que esta angolana diz sentir na procura de um quarto, também se fez sentir em sentido contrário. "Pensam que por ser angolana e vir para Portugal, que tenho muito dinheiro para gastar." Perante um anúncio em que o preço estava demasiado elevado, Luena quis negociar. Perguntaram-lhe de onde era. Ao fundo, ouviu-se uma outra voz a exclamar: "Ah, mas é angolana e por isso tem muito dinheiro. Ela pode pagar isso e muito mais." A estudante recorda que queria baixar o valor que estava a ser proposto em 50 ou 100 euros.

"Neste momento sou uma nómada total", brinca Luena. As aulas começaram na semana passada, e a angolana ainda não conseguiu encontrar um quarto. Tem estado dividida entre a casa de uma prima e a casa de uns amigos, localizada em Santarém, ou seja, a quase 90 quilómetros da universidade onde estuda, que fica no centro da capital. Ainda que não queira criar grandes expetativas, Luena acredita que não vai ficar nesta situação para sempre. "Vou continuar a procurar", garante. Já lá vai um mês.

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