A espantosa realidade das coisas

“A espantosa realidade das coisas é a minha descoberta de todos os dias”
No magazine semanal de Fernando Alves, o sociólogo Paulo Pedroso observa a superfície e o fundo dos grandes temas da sociedade global. A investigadora Rita Figueiras promove a literacia da comunicação política. E a repórter Teresa Dias Mendes regista sinais fortes dos dias que passam.
Aos domingos, depois das 13h00

A democracia e o jornalismo têm de ser uma conversa

Os dois comentadores residentes do magazine "A espantosa realidade das coisas" analisam, nesta emissão, as recentes declarações de Jeff Jarvis à TV3 espanhola. O escritor e professor de jornalismo, autor do livro "O fim dos meios de comunicação de massas", considera que o jornalismo terá perdido, há muito, o combate com outras plataformas por não ter escutado as vozes que já existiam mas que não tinham tido eco nas notícias. Para Jeff Jarvis, "é preciso que a democracia e o jornalismo sejam uma conversa".

O famoso analista dos media nos Estados Unidos defende que é preciso deixar para trás o que ele define como "a era em que pensávamos que éramos uma indústria cheia de fábricas que elaboravam um produto chamado conteúdos".

Entretanto, tomando como pretexto a sugestão feita pela economista Maria João Marques, no Público, de que os assessores do primeiro-ministro António Costa deveriam limitar-lhe, nas próximas semanas, o contacto com microfones de jornalistas, o editor do magazine dos domingos perguntou aos comentadores residentes, Paulo Pedroso e Rita Figueiras, se a comunicação produzida pelos principais responsáveis políticos e pelas autoridades de saúde em Portugal foi, nestes dias mais atribulados, certeira, ponderada, razoável.

A professora de Ciências da Comunicação e Comunicação Política da Universidade Católica de Lisboa refere a existência de duas fases, "uma primeira, durante o confinamento, em que houve uma comunicação articulada, favorecida por não haver contraditório nem dissensão, quer na política quer nos media, e uma segunda fase em que houve a tentativa de demonstrar que tudo estava a ser resolvido, entravamos numa fase de efectivo desconfinamento, vimos o primeiro ministro às compras e o presidente da República nos restaurantes e na praia, numa estratégia em que ambos produziram um discurso que, depois, não teve sustentação na prática. Houve um desfasamento entre a estratégia de comunicação e o que efectivamente se verificou".

Para o sociólogo e professor do ISCTE, "há duas questões: uma diz-nos que, em geral, é mais difícil gerir os momentos em que as tensões aliviam do que os momentos de maior tensão e maior medo. O que nós vivemos foi, de repente, uma arrancada para um alívio da tensão, para um desconfinamento, pretendendo dar sinais de que as coisas estavam a melhorar, gerando energias contraditórias, e em que me parece claro que o famoso optimismo do nosso primeiro ministro acabou por se virar contra ele, nomeadamente na cerimónia de anúncio da decisão da UEFA ( e isso terá impacto duradouro na sua carreira política). Quer por aquilo que ele disse, descontraído, quer pela própria concepção da cerimónia e por aquilo que no imaginário de muitos portugueses significa pôr o futebol como prioridade". Mas, para Paulo Pedroso, " há outra questão que está a baralhar os dados e a complicar a comunicação, quer do governo, quer das autoridades de saúde. Trata-se da mudança do grupo de pessoas mais expostas à covid. A covid está a descer na escala social. E por isso a comunicação também está a mudar de registo: deixamos de ter medo de sermos nós para passarmos a ter medo de que sejam os outros e estamos, pela primeira vez, a ver os outros como perigosos. Isso preocupa-me".

Paulo Pedroso e Rita Figueiras ensaiam ainda respostas às perguntas do presidente da agência Magnum no jornal Público: "Já não há guerras, negócios obscuros? O que está a acontecer na Tchetchénia, por exemplo, alguém sabe?". Afinal, que "buraco negro" informativo é este, causado pela pandemia?

A realidade terá migrado, como é sugerido pelo veterano repórter fotográfico, para a esfera virtual, "para um lugar imaterial, quase intangível", dificultando a missão dos fotógrafos?

Tem pouco mais de uma semana ( e não obteve até agora grande eco mediático) uma Carta Aberta aos Poderes Políticos sobre a pobreza em Portugal, cujo primeiro subscritor é o padre Jardim Moreira, presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza. A carta considera que " a pobreza é, indubitavelmente, o principal problema do país" e sublinha a necessidade de que "as entidades sobre as quais recai a responsabilidade de enfrentar o problema não tenham dúvidas em defini-lo como tal: a prioridade das prioridades". O editor do magazine destaca uma passagem da carta e pede, sobre ela, o comentário de Paulo Pedroso: "A pobreza não mata apenas os pobres. A prazo ela matará também a democracia".

Longe das cidades que se deitam mais tarde, os velhos acordam com os galos e não é que lhes sobre dia. Chegam-lhes, pela janela electrónica, os estranhos nomes do medo e do desatino. Em Chãos, uma freguesia de Ferreira do Zêzere, a repórter Teresa Dias Mendes assistiu à reabertura do mercado de domingo. Já não era sem tempo. Os poucos que permanecem na terra firme de Chãos parecem muitos quando se juntam, aos domingos, no mercado da aldeia.

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