A espantosa realidade das coisas

“A espantosa realidade das coisas é a minha descoberta de todos os dias”
No magazine semanal de Fernando Alves, o sociólogo Paulo Pedroso observa a superfície e o fundo dos grandes temas da sociedade global. A investigadora Rita Figueiras promove a literacia da comunicação política. E a repórter Teresa Dias Mendes regista sinais fortes dos dias que passam.
Aos domingos, depois das 13h00

A democracia é um fato à medida de África?

África tem tentado experimentar a democracia, quase sempre, da forma errada ou a democracia não é um fato à medida de África?

Já lá vão três décadas, muitos países africanos de partido único começavam a ser abalados pelos ventos democráticos; o então presidente francês Jacques Chirac declarou, sem meias palavras, que África não estava "madura para a democracia". Há dias, o economista guineense Carlos Lopes, antigo secretário-geral adjunto das Nações Unidas, que se encontrava em Bissau para apresentar os seus mais recentes livros, considerou um erro o modo como África tenta aplicar e consolidar o modelo democrático, quando deveria lutar pela "africanização da democracia". Carlos Lopes disse ainda: "A democracia não é consentânea com a nossa forma de agir e de pensar."

Paulo Pedroso, o sociólogo, professor do ISCTE e comentador residente do magazine A Espantosa Realidade das Coisas, foi confrontado com uma dúvida do editor Fernando Alves: quando o prestigiado economista guineense nos diz que há uma via africana para a democracia, deixa supor a possibilidade de uma democracia menos democrática ou está apenas a tentar afastar estereótipos que foram sendo criados em relação ao desenvolvimento africano? "Carlos Lopes é um grande intelectual africano que tem vindo a pensar a democracia em África há muitos anos", sublinha Paulo Pedroso. "O texto mais antigo dele, de que eu me lembro, é de 1996. E já defendia esta tese segundo a qual é necessário africanizar a democracia e não democratizar África. O que é que ele entende por 'africanizar a democracia'? No fundo, ele diz que há três questões colocadas pela democracia: nasceu na Europa, não em África e, como todos os processos que não nasceram dentro de casa, tem de se adaptar para poder servir em casa nova; África é um continente marcado por uma cultura comunitária e não individualista, enquanto a democracia nasceu muito ligada ao individualismo (por isso ele pergunta, muitas vezes, que alternativa democrática poderá existir, mais amiga da estrutura clânica, tribal, familística; e há uma terceira questão que decorre de a democracia ter nascido muito ligada ao capitalismo, a de saber que mecanismos pode África desenvolver que sejam alternativos a este capitalismo liberal."

Paulo Pedroso lembra, entretanto, que "a democracia é um processo longo que se constrói dentro das sociedades" e manifesta a convicção de que "um dos grandes problemas para a africanização da democracia passa pela pouca atenção que o mundo tem dado à consolidação das classes médias em África".

O sociólogo comenta ainda o fim do franco CFA e a perda de 40% ou mais da população de algumas zonas rurais do Alentejo, bem como do Centro e do Norte interiores. Trata-se de novos dados divulgados pela geógrafa Paula Santana, coordenadora do Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Coimbra. Esses dados revelam que, só no continente português, há 20 municípios com densidade inferior a 10 habitantes por quilómetro quadrado.

Uma das notícias comentada por Rita Figueiras, a professora de Ciência Política e Ciências da Comunicação da Universidade Católica de Lisboa que integra a equipa do magazine dos domingos, foi a do encerramento, no último dia de 2019, do Newseum, o museu da imprensa de Washington. Nos últimos dias do ano, um letreiro azul colocado na fachada anunciava: "We are on deadline." Não seria fácil inventar um anúncio mais "jornalístico" para o encerramento de um museu como este. A comentadora residente do magazine sublinha que este fecho "ilustra, em vários sentidos, a crise que o jornalismo atravessa, uma crise cívica e não apenas económica". Este era um museu com uma vocação "mais didáctica", de literacia para o jornalismo, "mostrava bem a relação entre o jornalismo e a tecnologia, ao longo dos tempos. E vale a pena lembrar que as transformações tecnológicas são hoje um dos factores que põem em causa o próprio jornalismo".

O acesso ao museu não era gratuito e esta não é, para Rita Figueiras, uma questão irrelevante: "Em Washington a generalidade dos museus tem acesso gratuito. Faz sentido interrogarmo-nos sobre o que significa, numa cidade onde todos os museus são gratuitos, haver um museu em que a entrada é paga. A mesma pergunta se pode colocar noutro plano: como é que fazemos com que as pessoas paguem as notícias quando elas estão, de modo gratuito, em todo o lado? O próprio museu padeceu do mal que afecta o jornalismo. Essa é uma questão muito pertinente, hoje em dia. É preciso valorizar o jornalismo e saber o que é que a sociedade pretende do jornalismo. Tal como se pergunta o que é que se pretende dos partidos políticos, devemos interrogar-nos sobre para que é que serve o jornalismo numa sociedade em que houve uma enorme transformação. E aquele museu enaltecia os jornalistas como funcionários da Humanidade. Que, ao menos não se banalize a função de precário da Humanidade."

Duas biólogas da Universidade de Aveiro, investigadoras do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar, regressaram recentemente dos lugares mais longínquos do Ártico. As duas biólogas integraram a expedição científica internacional em busca de Aurora, a montanha submarina rica em fontes hidrotermais. Isso as levou à chamada crista de Gakkel onde procuraram novas informações sobre criaturas marinhas exóticas e eventuais linhas de continuidade com populações de outras regiões marinhas do planeta. O jornalista Fernando Alves entrevistou uma dessas biólogas, Ana Hilário. Registou os resultados científicos da expedição e escutou descrições tocantes do manto branco de gelo a perder de vista.

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