A espantosa realidade das coisas

“A espantosa realidade das coisas é a minha descoberta de todos os dias”
No magazine semanal de Fernando Alves, o sociólogo Paulo Pedroso observa a superfície e o fundo dos grandes temas da sociedade global. A investigadora Rita Figueiras promove a literacia da comunicação política. E a repórter Teresa Dias Mendes regista sinais fortes dos dias que passam.
Aos domingos, depois das 13h00

A política, tal como a conhecemos, pode ter os dias contados?

Parte substancial do magazine "A Espantosa Realidade das Coisas" é dedicada, este domingo, a análise da entrevista recentemente concedida ao DN por Yuval Noah Harari, historiador e professor da Universidade Hebraica de Jerusalém. Livros como "Sapiens", "Homo Deus" e "21 lições para o século XXI" têm alertado para o que o futuro pode trazer a uma Humanidade mergulhada na incerteza.

O jornalista Fernando Alves confrontou o sociólogo e professor do ISCTE Paulo Pedroso, um dos comentadores residentes do magazine dos domingos na TSF, com uma das teses sustentadas pelo historiador israelita, a de que " a inteligência artificial é a chave para dominar o mundo no século XXI". Deveremos inquietar-nos? "Sim", responde o sociólogo, "porque a biotecnologia, por um lado, e a inteligência artificial, por outro, vão mudar o mundo em que vivemos. Nós temos hoje condições para que haja um algoritmo que saiba mais sobre cada um de nós do que nós próprios sabemos e temos também condições para que o uso da tecnologia permita, também, que alguns de nós possam vir a ser 'melhorados' face a outros. E isso cria dois grandes problemas: um problema de bases para a igualdade e outro de possível substituição total do homem pela máquina, nomeadamente no que diz respeito ao trabalho".

Paulo Pedroso considera que, embora Harari tenha formação como historiador, os pontos de vista do israelita decorrem de pressupostos filosóficos. "Eu olho para as suas teses não como uma previsão do que vai acontecer mas como um alerta para dois novos fenómenos a regular. Se não acautelarmos o que a biotecnologia e a inteligência artificial nos podem fazer, elas tomarão conta de nós. E, ao tomarem conta de nós, minam aquela que foi a grande construção da Humanidade no século XVIII, a democracia liberal e o projecto do Iluminismo. Tudo isso pode ser posto em causa em toda a linha, incluindo no que respeita às suas bases sociais"

A outra comentadora residente do magazine dos domingos, a professora de Ciência Política e Ciência da Comunicação da Universidade Católica de Lisboa, Rita Figueiras, começa por reflectir sobre a importância dos dados como estratégia de pressão de países com maior capacidade tecnológica para coligirem todo o tipo de informação sobre outros países, aquilo a que Harari chama "colonização digital". Isso permite a certos países fazer com que outros decidam de determinada maneira, usando para tal os dados que possuem sobre esses países. Essa intervenção pode incidir em sectores estratégicos como a água, os aeroportos ou a banca. A possibilidade de revelar ou manipular dados mais sensíveis ou de fechar alguns sistemas, usando dispositivos do ciberterrorismo, configura um dos modos de um país controlar outro. Vemos como a China instituiu um sistema legal de utilização de dados sobre os seus próprios cidadãos, numa clara estratégia de controlo que pode ser, também, utilizada entre nações"

Estamos a falar de um novo tipo de armamento, afinal? "Sim, um novo tipo de armamento", concorda Rita Figueiras. " Porque o valor de leitura dos dados disponíveis depende da conjugação feita entre eles".

Harari observa que muitas pessoas "ainda não entendem o que é a inteligência artificial e por que é que é perigosa. São enganadas por cenários de ficção científica que falam sobre um futuro em que robôs e computadores ganham consciência e se rebelam contra a humanidade". Será que nem a ficção científica nos pode ajudar a perceber e a enfrentar as novas grandes ameaças? "Desde os grandes desenvolvimentos no século XIX", sublinha Rita Figueiras, "a tecnologia tem sido muito mitificada em dois grandes pólos: a ideia utópica de que será pela tecnologia que poderemos ultrapassar os limites da condição humana ( adivinhando, até, o pensamento de outras pessoas) e uma outra linha que demoniza a tecnologia, considerando que ela produz a grande distopia no mundo, com os robôs controlando as pessoas e destruindo tudo o que o ser humano conseguiu construir"

Talvez os livros de Yuval Noah Harari surjam, numa das próximas terças-feiras na banca que a Biblioteca Municipal de Torres Novas costuma instalar no Mercado Municipal. Como registou a repórter Teresa Dias Mendes, não livros à venda nessa banca colocada a dois passos das bancas do peixe ou da fruta. Os livros não para vender, nem à posta nem ao quilo. São para trocar. Para trazer e levar. A repórter registou, no mercado de Torres Novas, o prazer e o espanto que os livros provocam e gravou poemas tão saborosos como tângeras ou clementinas.

A fala folheada diante dos livros, da estranheza ou do fascínio que eles provocam, revela-nos também a espantosa realidade das coisas.

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