A espantosa realidade das coisas

“A espantosa realidade das coisas é a minha descoberta de todos os dias”
No magazine semanal de Fernando Alves, o sociólogo Paulo Pedroso observa a superfície e o fundo dos grandes temas da sociedade global. A investigadora Rita Figueiras promove a literacia da comunicação política. E a repórter Teresa Dias Mendes regista sinais fortes dos dias que passam.
Aos domingos, depois das 13h00

A poluição em Cabul mata oito vezes mais do que a guerra

Um estudo recentemente realizado por investigadores de uma universidade do Canadá revela que a poluição em Cabul mata 8 vezes mais do que a guerra. No ano de 2017 foram registadas, na capital afegã, mais de 26 mil mortes causadas pela poluição. No mesmo período, as Nações Unidas registaram a morte de 3483 civis na guerra do Afeganistão.

Apesar da ausência de estatísticas oficiais, não há dúvidas quanto ao facto de que Cabul é hoje uma cidade mais poluída do que Nova Deli ou Pequim. As vítimas da poluição são, na sua maioria, pessoas envenenadas nas suas próprias habitações, dentro das quais queimam tudo o que possam para se aquecerem durante o inverno, quando as temperaturas descem muito abaixo de zero. A guerra, claro, ajudou e muito, ao destruir todas as infraestruturas urbanas (da electricidade à distribuição de água ou aos transportes públicos). "Há três ou quatro décadas", lembrou um dirigente da Agência Nacional Afegã de Protecção Ambiental, "as pessoas queriam ir a Cabul para esperar o ar puro da cidade".

O jornalista Fernando Alves, editor do magazine "A espantosa realidade das coisas", perguntou aos dois comentadores residentes Paulo Pedroso e Rita Figueiras se se lembram de ter lido esta notícia na primeira página de um jornal. Ambos responderam que não. A professora de Ciências da Comunicação da Universidade Católica de Lisboa considerou que isso se pode explicar pela lógica de funcionamento do jornalismo, "muito mais centrada em eventos do que em estruturas. Digamos que estas mortes vão acontecendo, vão sendo invisíveis. Tal como nós temos uma percepção de que há muito mais pessoas a morrerem na sequência de ataques terroristas do que devido a acidentes de trabalho. E há muito menos pessoas a morrerem em ataques terroristas. Mas, nesses casos, trata-se de eventos que irrompem na agenda e que têm uma capacidade de espectacularização e dramaticidade do que qualquer outra situação menos susceptível de produzir imagens fortes".

Paulo Pedroso também não viu esta notícia em qualquer primeira página. O sociólogo e professor do ISCTE recordou uma experiência por ele próprio vivida este ano. "Numa viagem pela Ásia, em trabalho para o Banco Mundial, estive em Pequim e na capital da Mongólia. E na capital da Mongólia passei por uma situação muito parecida com esta. Uma das coisas que o Banco Mundial faz é fornecer purificadores de ar para escolas, de modo a que as crianças possam respirar ar puro na cidade. Este tipo de poluição resultante da queima dos mais variados materiais e objectos para poder sobreviver ao inverno, em cidades sobrepovoadas (no caso da Mongólia, devido ao fim da pastorícia tradicional) é algo inimaginável para um ocidental. A imagem de crianças respirando o ar passado por um purificador é algo que não esquecerei".

Ficamos a saber que não há estatísticas oficiais em Cabul. Isso nos leva a abordar o apelo recente de Pedro Pires, antigo presidente de Cabo Verde, para que sejam adoptadas políticas públicas para a existência de um sistema de estatísticas em África. Essa deveria ser, no entender de Pedro Pires "uma prioridade". Paulo Pedroso considera que, sem tal ferramenta a governação está diminuída no continente africano: "Pedro Pires comentava um relatório da Fundação Mo Ibrahim que tem dados absolutamente aterradores sobre a falta de informação em África. Esse relatório sobre a governança em África diz-nos que metade dos indicadores para a Agenda 2063, que é a agenda de desenvolvimento da União Africana, não são quantificáveis. E diz-nos que hoje, mesmo com modelação estatística e com previsão feita por organismos internacionais, só seis dos dezassete objectivos do desenvolvimento sustentável são quantificáveis para África". O sociólogo sublinha que não é possível resolver devidamente problemas que não sabemos quantificar. O relatório da Fundação Bo Ibrahim vem sublinhar , por exemplo, que não há dados fiáveis sobre natalidade ou mortalidade na maior parte dos países africanos.

Os dois comentadores residentes abordam ainda a possibilidade de uma nova calendarização dos debates no Parlamento. E Rita Figueiras fala de duas séries televisivas que têm tido grande sucesso. Uma sobre o fundador da Fox News e da estratégia que levou Trump ao poder; outra, "Years and Years", sobre o quotidiano de uma família cujos elementos vivem fisicamente afastados, embora mantendo contactos diários através das redes sociais. A série interroga-nos sobre que futuro estamos a construir.

O magazine visita, também, o Estúdio 8, um atelier de danças sociais criado pelos bailarinos João Fanha e Raquel Santos. A repórter Teresa Dias Mendes foi assistir a uma aula e deixou-se levar pelo ritmo de uma ideia que supõe toque e inclusão. E quis saber mais sobre as danças que aproximam. As tantas maneiras de pedir e dar um pezinho de salsa.

"Sei que fico muito mais feliz e as dores passam", disse à repórter um dos alunos do atelier. E o bailarino e coreógrafo João Fanha explicou que uma das coisas que a dança dá, com aquele "improviso constante", é uma melhor percepção de que "o erro é importante para crescer".

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