A espantosa realidade das coisas

“A espantosa realidade das coisas é a minha descoberta de todos os dias”
No magazine semanal de Fernando Alves, o sociólogo Paulo Pedroso observa a superfície e o fundo dos grandes temas da sociedade global. A investigadora Rita Figueiras promove a literacia da comunicação política. E a repórter Teresa Dias Mendes regista sinais fortes dos dias que passam.
Aos domingos, depois das 13h00

Ainda há quem acredite que a Terra é plana

Faz hoje duas semanas, quatro centenas de pessoas oriundas de vários pontos do Brasil, participaram numa reunião de youtubers terraplanistas, no Teatro da Liberdade em São Paulo. Foi a primeira Convenção Nacional da Terra Plana.

O que une estas pessoas? A convicção de que a Terra não é redonda.

Qual a principal fonte de informação de que se socorrem? O YouTube.

O jornal "A Folha de São Paulo" reproduz a tese de um desses youtubers: "A Terra é plana. Existe uma manipulação mediática para esconder a verdade. A gravidade, por exemplo, é uma palavra mágica usada para induzir as pessoas", diz ele, fazendo tábua rasa sobre os eclipses da lua ou os fusos horários.

No início do magazine "A espantosa realidade das coisas", o jornalista Fernando Alves confrontou Rita Figueiras, professora de Comunicação Política e de Ciências da Comunicação da Universidade Católica de Lisboa com esta notícia e quis saber se ela reforça o aviso, feito por Walter Robinson, veterano editor do "Boston Globe", durante uma conferência, precisamente na Universidade Católica. Nessa conferência afirmou que "é preciso salvar o jornalismo de investigação para proteger a democracia".

A investigadora responde que sim e lembra que "o facto de não haver controlo no acesso ao espaço público permite que cada qual diga o que muito bem entende. Isso alimenta, organiza e reforça determinadas visões do mundo, independentemente da sua veracidade. As pessoas entendem o YouTube e media sociais semelhantes como um meio de comunicação, um espaço de verdade. Se lá está é porque tem legitimidade para estar, é porque tem um fundo de verdade. E o jornalismo, que atravessa uma crise não apenas económica mas de reputação e de confiança, está a ser posto em causa. Ora o jornalismo de investigação sempre foi algo que distinguiu o jornalismo de qualquer outra área social de produção de conhecimento. O jornalismo de investigação sempre foi muito importante porque permitia descobrir certos casos que, de outra forma, nunca seriam conhecidos, casos considerados relevantes. Sublinhava também diferenças dentro do próprio jornalismo, contrariando uma cada vez maior agenda única dos diferentes meios de comunicação. Mas, é claro, o jornalismo de investigação pede tempo, pede recursos financeiros e pede recursos humanos".

Afinal, o que Robinson nos veio dizer, sem falar dos terraplanistas, foi que se seguirmos este caminho não tarda teremos de provar, de novo, que a Terra é redonda

O sociólogo Paulo Pedroso, outro dos comentadores residentes do magazine dos domingos, analisa o recente anúncio, pela França, de quotas anuais para imigrantes e de alterações à política de asilo e à sua articulação com o serviço público de saúde. Para o professor do ISCTE, "a França tem hoje uma política securitária face à imigração, com alguns aspectos chocantes". Paulo Pedroso lembra aos mais esquecidos o modo como foi tratado, há uns anos, o caso do acampamento de Calais, cujas consequências sociais foram significativas. "Houve crianças que desapareceram, seres humanos provavelmente desaparecidos", sublinha. E acrescenta que a "abordagem securitária francesa é um mau exemplo para o mundo, do ponto de vista do tratamento da imigração. Mas há nesta notícia algo extremamente preocupante. Já não estamos a falar só de política securitária, mas da negação de um direito humano fundamental. Dizer que um refugiado precisa de esperar três meses para ter acesso à saúde pública é, do meu ponto de vista, uma prova de desumanidade.

Nesta emissão, a repórter Teresa Dias Mendes folheia o livro "Guerra na Pele", de João Cabral Pinto. O livro reúne muitas tatuagens da guerra colonial. O autor explica que a obra, feita exclusivamente a expensas suas, poderia ter tido outro fôlego, outra pele, assim tivesse feito estremecer algumas carapaças mais resistentes.

"Procurei muita gente, nenhuma me deu apoio. O atavio e a higiene do militar são, pelos vistos, incompatíveis com uma situação informal, não reconhecida pelas Forças Armadas", explica o autor.

O livro ocupou João Cabral Pinto durante vários anos. No seu plano original teria 400 páginas "mas foi expurgado de considerações militares e políticas e acabou por ser, vá lá, um catálogo de tatuagens, com entrevistas-tipo e o resultado estatístico da observação".

O autor entrevistou 233 homens e fotografou um total de 350 tatuagens.

"Foi o trabalho da minha vida", explica João, 51 anos, licenciado em gestão de empresas, desempregado desde Junho. Ele diz: "Sou novo de mais para me reformar e velho para encontrar trabalho".

O magazine termina com uma prova de azeite, feita por dois investigadores do Instituto Politécnico de Bragança. Há, sobre a mesa, seis azeites, produzidos com variedades da Terra Fria transmontana.

A prova é conduzida por Nuno Rodrigues, um jovem licenciado em Engenharia Alimentar e doutorando em Engenharia de Bio-Sistemas, e José Alberto Pereira, professor da Escola Agrária do IPB que, há mais de vinte anos, investiga na área da olivicultura e para quem a região transmontana é a mais importante, a nível nacional, na produção de azeitona de mesa e a segunda na produção de azeite. Ele formou, há dois anos, o primeiro painel de provadores de azeitona de mesa existente em Portugal. Mas, desta vez, os dois investigadores (que, recentemente, ganharam em Los Angeles uma medalha de prata com um azeite produzido em parceria com o IPB) tornam mais rico um prato de bacalhau, num restaurante familiar em Lisboa.

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