A espantosa realidade das coisas

“A espantosa realidade das coisas é a minha descoberta de todos os dias”
No magazine semanal de Fernando Alves, o sociólogo Paulo Pedroso observa a superfície e o fundo dos grandes temas da sociedade global. A investigadora Rita Figueiras promove a literacia da comunicação política. E a repórter Teresa Dias Mendes regista sinais fortes dos dias que passam.
Aos domingos, depois das 13h00

Alojamento estudantil: quem está a praxar quem?

Esta semana, Alexandre Poço, deputado do PSD e líder da JSD, passou a noite acampado junto ao Ministério da Ciência e do Ensino Superior exigindo mais camas para os estudantes universitários. A JSD exigiu ao ministro que esclareça onde estão as prometidas 2500 camas. "Com 42 por cento dos alunos deslocados das suas áreas de residência e face aos custos de alojamento incomportáveis para muitas famílias", escreveu a JSD ao ministro Manuel Heitor, "a ausência de resposta ao nível das residências pode comprometer a frequência do ensino superior para muitos estudantes, aumenta o risco de abandono escolar e prejudica gravemente a igualdade de oportunidades".

Isto levou o editor do magazine dos domingos a perguntar a Paulo Pedroso, sociólogo e professor do ISCTE, um dos comentadores residentes do programa: "Quem está a praxar quem, nesta história?".

"É a realidade que está a praxar todos os envolvidos", respondeu o sociólogo. "Em Portugal, durante décadas, não se deu a devida atenção às residências. Em primeiro lugar, porque se deixou de investir. Muitas delas foram, aliás, ficando ultrapassadas. Em segundo lugar, porque se restringiu a resposta aos domínios da Acção Social, aos estudantes mais pobres entre os pobres. Isto conjugou-se com uma evolução do arrendamento urbano que tornou, na maior parte das cidades, o arrendamento praticamente proibitivo para os estudantes. Não havia uma política de arrendamento para estudantes que cobrisse todos, dos mais desfavorecidos às classes médias. O que o ministro Manuel Heitor fez - e que me parece muito bem - foi inverter a situação, deixar de fechar os olhos. Mas há um problema: não estava nada montado para transformar a nova política em realidade. E onde é que estão, hoje, as 2500 camas? Estão nas intenções do governo".

Entretanto, Rita Figueiras, a professora de Ciências da Comunicação e Comunicação Política da Universidade Católica de Lisboa e comentadora residente d'A Espantosa Realidade das Coisas, analisa as entrelinhas de um artigo do Expresso antevendo um curioso cenário para as presidenciais: "Campanha mínima, debates máximos". O editor do magazine perguntou a Rita Figueiras se estamos face ao adivinhado impacto da pandemia na campanha ou se se trata de outro vírus.

"O que se passa é que há uma polarização assimétrica com candidatos que não respeitam as regras instituídas para os debates, alterando as dinâmicas do que deveriam ser os próprios debates". Rita Figueiras interroga-se sobre "quem poderá beneficiar mais com estes debates". E ensaia uma resposta: "Em primeiro lugar, beneficia quem pode decidir como é que eles irão decorrer. O que sugere o Expresso é que a maior fatia de decisão estará com o Presidente da República. Ele sabe que pode beneficiar bastante com o modelo de debates a dois. Outro beneficiário será aquele que minar esta estrutura de debate. E basta um para minar. São precisos dois para que haja debate mas basta que um o queira destruir para que os debates escapem às regras de civilidade a que estávamos habituados". Rita Figueiras lembra o caso do recente debate entre Trump e Biden: "Alguém que radicaliza o debate lança o adversário para o outro extremo e quase que o obriga também a uma atitude semelhante".

O programa passa ainda em revista o apelo do PR à "ética republicana" contra a corrupção, à luz da muito exigida transparência dom processo dos anunciados fundos europeus; a não renovação do mandato do presidente do Tribunal de Contas; o apelo do FMI para que os governos mantenham os investimentos públicos em tempos de crise e estudos agora divulgados sobre a desinformação quanto ao voto por correspondência e quanto à covid-19. O dado mais perturbador revelado por esses estudos revela que, neste caso, a maior fonte de propagação da mentira organizada não jorra das redes sociais.

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