A espantosa realidade das coisas

“A espantosa realidade das coisas é a minha descoberta de todos os dias”
No magazine semanal de Fernando Alves, o sociólogo Paulo Pedroso observa a superfície e o fundo dos grandes temas da sociedade global. A investigadora Rita Figueiras promove a literacia da comunicação política. E a repórter Teresa Dias Mendes regista sinais fortes dos dias que passam.
Aos domingos, depois das 13h00

A espantosa realidade das coisas

Farol Duque de Bragança, também conhecido por Farol da Berlenga

Ernesto Candeias, faroleiro das Berlengas: " Nós já cumprimos o isolamento há muito tempo"

Há pouco mais de cem anos, em plena pneumónica, o escritor Raul Brandão deslocou-se às Berlengas, recolhendo notas para o livro "Os Pescadores". O episódio é assim descrito: "Atrevo-me a falar a um velho musaranho (...) que está metido no farol, de costas para o mar, fingindo que não me vê". "Que beleza", diz-lhe o escritor. Ele resmunga: "Que beleza, isto? O vento e o mar. Sempre o vento e o mar. O vento que, no inverno, não me deixa chegar à porta. E o mar, todo o dia, toda a noite a bramir (...) Eu não sou um faroleiro, sou um náufrago". O homem queixa-se de que não pode "ter uma couve ou uma abóbora". Os coelhos comem tudo. Contudo, os coelhos apanham-se à mão. Mas ele queixa-se: "Aqui não se sabe de nada, aqui não chega nada, nunca. Nem a pneumónica aqui a chegou".

J-M. Nobre Correia

Por onde andam os jornalistas?

Na última segunda-feira, J-M. Nobre-Correia, professor emérito de Informação e Comunicação da Universidade Livre de Bruxelas, perguntou no jornal Público: "Por onde andam os jornalistas?". Para o autor de "Media, Informação e Democracia", "a triste verdade salta aos olhos: a grande maioria dos jornalistas deixou de ir para o terreno. Deixou de andar pelas ruas e estradas deste país, de frequentar as gentes deste povo, para ver e ouvir o que se passa, para saber o que lhes interessa ou os preocupa na vida quotidiana. Vive sobretudo com colegas, amigos e companheiros em restaurantes, cafés e bares que fazem parte da rotina diária (...) Diga-se em abono da verdade: muitos jornalistas saem cada vez menos das redacções. Até porque são poucos e dispõem de escasso tempo para a fabricação diária a contra-relógio dos jornais. Mas também porque a paparoca chega quotidianamente em grandes doses aos seus computadores: comunicados, grafismos, gravações de som ou de imagem. E neste fornecimento de peças prontas-a-publicar são, evidentemente, as instituições e empresas que têm maior capacidade de produção".

As claques, as redes sociais e o respeito pelas regras da democracia

As claques, as redes sociais e o respeito pelas regras da democracia

Duas perguntas marcam, este domingo, A Espantosa Realidade das Coisas . Uma trata de saber se as redes sociais podem ser ainda uma ferramenta da democracia ou se, como afirmou há dias, em entrevista à Lusa, o escritor colombiano Juan Gabriel Vasquéz, "os utilizadores das redes sociais são já, sem se darem conta, personagens de uma história mentirosa, de um relato mentiroso que se constrói todos os dias com os tweets e os posts do Facebook que nos tiraram a certeza do que é falso e verdadeiro".

Boris Johnson

Quem pode fazer perguntas em Downing Street? E de quem é o twitter dos jornalistas?

Kobe Bryant, o ala armador dos Lakers que se tornara uma lenda do basquetebol norte-americano, tinha morrido poucas horas antes. A notícia do seu desaparecimento brutal ganhara as manchetes, em todo o mundo. Mas, ao arrepio do sentimento de consternação geral, uma jornalista do Washington Post decidiu lembrar, nas suas redes sociais, um alegado caso de violação em que o grande herói desportivo desaparecido estivera implicado. No seu perfil no Twitter, a jornalista Felicia Sonmez estabeleceu um link para uma notícia publicada em 2016, por um outro jornal, na qual era revelado um acordo extrajudicial que evitara, a troco de 25 milhões de dólares, a ida de Bryant a tribunal. A jornalista recebeu, de imediato, um rol de ameaças e de insultos e, ao que noticiou o New York Times, terá sido fortemente repreendida pelo director do seu jornal para quem "o uso desastrado do Twitter" teria "ferido a instituição".