A espantosa realidade das coisas

“A espantosa realidade das coisas é a minha descoberta de todos os dias”
No magazine semanal de Fernando Alves, o sociólogo Paulo Pedroso observa a superfície e o fundo dos grandes temas da sociedade global. A investigadora Rita Figueiras promove a literacia da comunicação política. E a repórter Teresa Dias Mendes regista sinais fortes dos dias que passam.
Aos domingos, depois das 13h00

A espantosa realidade das coisas

O crocodilo do Nilo pode medir até quatro metros e viver 100 anos

Gambozinos editoriais numa Europa mais vulnerável ao autoritarismo

Quando lhes foi pedida uma legenda para o mais mediático gambozino destes dias, um hipotético crocodilo do Nilo pressentido nas águas espanholas do Douro, os dois comentadores residentes do magazine dos domingos não se furtaram. Rita Figueiras, a professora de Ciências da Comunicação e Comunicação Política da Universidade Católica de Lisboa, vê aqui sinais de que "o jornalismo está a desconfinar, também". Paulo Pedroso, o sociólogo e professor do ISCTE, vê esta notícia como uma "espécie de fábula". Paulo Pedroso concorda com Rita Figueiras: "Voltarmos a ter estas notícias a fazer capas de jornais é sinal de que estamos cansados de tudo aquilo por que passámos". E isso leva o sociólogo a pensar que, "também nos outros domínios de actividade, quem acha que a covid esmagou toda a realidade está na altura de começar a rever o seu quadro".

Vivemos numa ditadura do presente?

Vivemos numa ditadura do presente?

Esta emissão foi gravada a uma quinta-feira e não a uma quarta, como nas semanas anteriores. Um certo sexto sentido editorial poderia levar-nos a considerar o quão vantajosa é esta margem mais curta para a ultrapassagem da análise aqui produzida pela realidade a trote. Nada que nos apoquente. De qualquer modo, perguntei aos dois comentadores residentes deste magazine (a professora de Ciências da Comunicação e Comunicação Política da Universidade Católica de Lisboa, Rita Figueiras, e o sociólogo e professor do ICTE, Paulo Pedroso) se se reconhecem nesta passagem de uma entrevista de Javier Cercas, o autor de Soldados de Salamina, ao jornal Expresso, em meados de Abril: "Um dos aspectos decisivos do nosso tempo é que vivemos numa ditadura do presente, em grande parte gerada pelos meios de comunicação. O que não é de hoje, desta manhã, já é passado. O que se passou há três semanas é pré-história. Isto cria uma visão totalmente falsificada da realidade, porque na realidade o passado - sobretudo aquele de que há memória e testemunhas - é uma dimensão activa do presente, sem a qual o presente está mutilado".

Timothy Snyder

O retrocesso da democracia confirma o padrão de que fala Timothy Snyder?

Os comentadores residentes do magazine dos domingos, a professora de Ciências da Comunicação e Comunicação Política da Universidade Católica de Lisboa, Rita Figueiras, e o sociólogo e professor do ISCTE, Paulo Pedroso, analisam hoje passagens mais relevantes de duas entrevistas do historiador norte-americano Timothy Snyder, o autor de "Sobre a Tirania : 20 lições do século XX para o Presente". Nesse livro, Snyder alertava para os perigos trazidos ao jornalismo e à sociedade pela entrada de Donald Trump no reino das fake news. Snyder confirma, na conversa com Juan Cruz, do "El Pais", que com a pandemia o livro voltou a ser muito procurado.

Farol Duque de Bragança, também conhecido por Farol da Berlenga

Ernesto Candeias, faroleiro das Berlengas: " Nós já cumprimos o isolamento há muito tempo"

Há pouco mais de cem anos, em plena pneumónica, o escritor Raul Brandão deslocou-se às Berlengas, recolhendo notas para o livro "Os Pescadores". O episódio é assim descrito: "Atrevo-me a falar a um velho musaranho (...) que está metido no farol, de costas para o mar, fingindo que não me vê". "Que beleza", diz-lhe o escritor. Ele resmunga: "Que beleza, isto? O vento e o mar. Sempre o vento e o mar. O vento que, no inverno, não me deixa chegar à porta. E o mar, todo o dia, toda a noite a bramir (...) Eu não sou um faroleiro, sou um náufrago". O homem queixa-se de que não pode "ter uma couve ou uma abóbora". Os coelhos comem tudo. Contudo, os coelhos apanham-se à mão. Mas ele queixa-se: "Aqui não se sabe de nada, aqui não chega nada, nunca. Nem a pneumónica aqui a chegou".