A espantosa realidade das coisas

“A espantosa realidade das coisas é a minha descoberta de todos os dias”
No magazine semanal de Fernando Alves, o sociólogo Paulo Pedroso observa a superfície e o fundo dos grandes temas da sociedade global. A investigadora Rita Figueiras promove a literacia da comunicação política. E a repórter Teresa Dias Mendes regista sinais fortes dos dias que passam.
Aos domingos, depois das 13h00

As claques, as redes sociais e o respeito pelas regras da democracia

Duas perguntas marcam, este domingo, A Espantosa Realidade das Coisas . Uma trata de saber se as redes sociais podem ser ainda uma ferramenta da democracia ou se, como afirmou há dias, em entrevista à Lusa, o escritor colombiano Juan Gabriel Vasquéz, "os utilizadores das redes sociais são já, sem se darem conta, personagens de uma história mentirosa, de um relato mentiroso que se constrói todos os dias com os tweets e os posts do Facebook que nos tiraram a certeza do que é falso e verdadeiro".

A outra pretende saber se é possível estabelecer uma regulamentação das claques que garanta o respeito pelas regras da democracia.

Para lá dos habituais comentadores residentes, Paulo Pedroso e Rita Figueiras, o magazine dos domingos contou esta semana com a presença do sociólogo Rui Pena Pires, do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do ISCTE. Sportinguista convicto, ele explicou num artigo publicado há dois anos no DN que deixou de pagar quotas quando, em 2005, as claques tiveram um papel de destaque no afastamento de José Peseiro e do presidente Dias da Cunha. Nesse artigo falava do "papel intimidatório das claques na vida do clube". Interrogado sobre se esse papel ganhou, entretanto, maior expressão, respondeu que , "em termos gerais, as coisas estão mais ou menos na mesma". "As claques", pensa Rui Pena Pires, "estão hoje, como há muitos anos, instaladas na vida dos clubes e têm tido, em geral, uma contribuição negativa para o espectáculo desportivo". O sociólogo aborda as diferenças existentes entre o que se passa com as claques na Europa e nos Estados Unidos: "Na Europa, há um cruzamento fatal entre o espectáculo desportivo e as identidades tribais competitivas. Fatal ao ponto de não ser possível ter, como nos Estados Unidos, claques que se limitam a coreografar um espectáculo de apoio ao que acontece em campo. As claques exprimem, sobretudo, a parte mais negativa desta identidade competitiva associada aos clubes. As únicas claques razoavelmente bem comportadas na Europa são as da Alemanha que, nos anos 90, foram encharcadas de assistentes sociais e tomadas de assalto, digamos assim, pela política social do Estado. No Reino Unido, a situação já não é tão horrível porque as claques foram corridas dos estádios. Há que diga que isso tornou as coisas piores porque deu lugar a combates de hooligans, em descampados, fora dos campos de futebol. Mas eu creio que foi um progresso: ao menos, quem quer ir para o inferno, deixou de levar outros com eles".

Mas a existência de claques potencia a cada vez mais frequente manifestação de expressões de ódio, de provocações racistas como aquelas a que assistimos recentemente em Portugal?

"O que torna o espectáculo desportivo atractivo", sublinha Rui Pena Pires, "é o facto de ele permitir que demos alguma liberdade às nossas emoções. Fazemos o contrário do que nos é permitido quando vamos à Gulbenkian assistir a um concerto de música clássica. A procura do futebol tem a ver com esse espaço de algum descontrolo emocional. Mas esse descontrolo tem de ter algum limite. E se pensarmos em factores que ajudam a conter-nos nesse limite ou a ultrapassar esse limite, as claques estão do lado dos factores que ajudam a ultrapassar esse limite. E quando se ultrapassa esse limite, quando deixamos de auto-controlar as emoções, tudo aquilo que reprimimos na base da vergonha vem cá para fora".

O magazine dos domingos cruza as opiniões de Paulo Pedroso, Rita Figueiras e o convidado Rui Pena Pires sobre os vários desafios que se colocam hoje às democracias. Tomando como ponto de partida declarações recentes do escritor colombiano Juan Gabriel Vasquéz ( de quem estão editados vários romances em português, entre eles "O Barulho das Coisas ao Cair" e "As Reputações") considerando que "as redes sociais são um instrumento de propagação da raiva e do medo". O escritor colombiano, em entrevista à agência Lusa, alertou para a forma como os populismos de direita estão a usar as redes sociais para chegar ao poder.

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