A espantosa realidade das coisas

“A espantosa realidade das coisas é a minha descoberta de todos os dias”
No magazine semanal de Fernando Alves, o sociólogo Paulo Pedroso observa a superfície e o fundo dos grandes temas da sociedade global. A investigadora Rita Figueiras promove a literacia da comunicação política. E a repórter Teresa Dias Mendes regista sinais fortes dos dias que passam.
Aos domingos, depois das 13h00

As renas de Banksy, as palavras do ano e o Museu dos Cristos, em Sousel

Os comentadores residentes do magazine A Espantosa Realidade das Coisas demoram-se, este domingo, diante das renas pintadas pelo artista plástico Banksy numa parede de Birmingham. Desta vez, as renas não puxam o trenó do Pai Natal, mas o banco onde dorme uma pessoa em situação de sem-abrigo.

Depois da criança migrante que, em Maio, surpreendeu Veneza com o seu colete salva-vidas, o artista decidiu envolver Ryan, um mendigo de Birmingham, na sua mais recente criação, chamando a atenção dos transeuntes para as situações mais extremas de pobreza urbana. Rita Figueiras, professora de Ciência Política e Ciências da Comunicação na Universidade Católica de Lisboa, sublinha a marca "subversiva" da intervenção de Banksy mas também a interacção da obra com o espaço físico e com as "pessoas que a observam e a divulgam, através das redes sociais". "Neste caso", lembra Rita Figueiras, " foi o próprio Banksy que a divulgou. "Através das fotografias ou da partilha on line, ele vai construindo e reconstruindo a obra. Nesta era da cultura da partilha e do trabalho colaborativo on line, um fotografa, outro divulga ou acrescenta um comentário e assim a obra se vai construindo. Por isso, é muito interessante ver a obra do Banksy dentro desta cultura digital, para lá da subversão do espírito de Natal, com um mendigo no lugar do Pai Natal. Toda a magia do Natal enquanto quadra da felicidade é, assim, desconstruída".

Já Paulo Pedroso, sociólogo e professor do ISCTE, considera que, " no contexto de outras imagens do Banksy ao longo dos anos, há aqui o sinal de que todos somos pessoas". Para o comentador residente do magazine editado por Fernando Alves, " a obra interessa, também, como combate contra a desumanização. Já a imagem da criança com o colete em Veneza vinha no mesmo sentido. Há aqui um sentido poético-político de defesa da dignidade humana e do direito ao sonho. Quando vinha para aqui, passei na rua Ferreira Borges e vi, pintada numa porta, uma frase que diz 'entre meninos de rua o último a adormecer apaga a lua' e creio que se trata de imagens da mesma estirpe. Elas pedem que não deixemos desumanizar ninguém nas nossas sociedades".

Os dois comentadores residentes do magazine dos domingos são convidados a escolher dois ou três momentos fortes do ano que termina. Rita Figueiras propôs três grandes temas que, de algum modo, estão inter-relacionados: o populismo e a sua relação com os media; a concentração da propriedade nos media e a romaria de políticos ao programa da Cristina.

Quanto ao populismo, Rita Figueiras sublinha o que considera "uma vaga transformadora, na liderança política, em muitos países", ainda em "processo de crescimento, em Portugal" e chama a atenção para alguma vitimização associada, como aconteceu recentemente com a polémica em redor do uso da palavra 'vergonha'. "Há um bullying político associado a estas lideranças", sublinha a professora da Católica.

Já Paulo Pedroso, destaca a degradação das instituições norte-americanas; a fragmentação partidária na Assembleia da República e o colapso nos serviços.

"Parece-me claro", nota o sociólogo e professor do ISCTE "que, desde a divulgação do relatório Mueller, em Março, até aos acontecimentos do processo de impeachment desta semana, verificou-se que momentos até aqui solenes e que no passado justificavam um debate sério e aprofundado na sociedade, se transformaram em espectáculos de segunda linha, porque as instituições perderam peso e se degradaram. Há aqui uma vertente americana do populismo de que falava a Rita". Para o comentador residente do magazine dos domingos, "do ponto de vista informativo, os Estados Unidos entraram num cenário de pós-verdade radical. Cada um escolheu o seu campo e nada do que aconteça nas instituições o fará mudar de campo".

O magazine A Espantosa Realidade das Coisas inclui ainda uma reportagem de Fernando Alves no Museu dos Cristos, na vila alentejana de Sousel. O museu esteve no papel quase três décadas e foi finalmente inaugurado em Abril deste ano, acolhendo no antigo centro cultural mais de 1400 peças. Elas fazem parte de um conjunto maior comprado em 1989 pelo município de Sousel aos herdeiros de Venceslau Lobo, um antiquário de Borba que também vendeu Cristos ao escritor José Régio.

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