A espantosa realidade das coisas

“A espantosa realidade das coisas é a minha descoberta de todos os dias”
No magazine semanal de Fernando Alves, o sociólogo Paulo Pedroso observa a superfície e o fundo dos grandes temas da sociedade global. A investigadora Rita Figueiras promove a literacia da comunicação política. E a repórter Teresa Dias Mendes regista sinais fortes dos dias que passam.
Aos domingos, depois das 13h00

Gambozinos editoriais numa Europa mais vulnerável ao autoritarismo

Quando lhes foi pedida uma legenda para o mais mediático gambozino destes dias, um hipotético crocodilo do Nilo pressentido nas águas espanholas do Douro, os dois comentadores residentes do magazine dos domingos não se furtaram. Rita Figueiras, a professora de Ciências da Comunicação e Comunicação Política da Universidade Católica de Lisboa, vê aqui sinais de que "o jornalismo está a desconfinar, também". Paulo Pedroso, o sociólogo e professor do ISCTE, vê esta notícia como uma "espécie de fábula". Paulo Pedroso concorda com Rita Figueiras: "Voltarmos a ter estas notícias a fazer capas de jornais é sinal de que estamos cansados de tudo aquilo por que passámos". E isso leva o sociólogo a pensar que, "também nos outros domínios de actividade, quem acha que a covid esmagou toda a realidade está na altura de começar a rever o seu quadro".

Paulo Pedroso e Rita Figueiras analisam nesta emissão o barómetro da Pitagóricas realizado há dias para o JN, segundo o qual a maioria dos portugueses concorda com o uso do telemóvel para vigiar a covid-19. Os inquiridos do norte e centro estão entre os mais disponíveis para o recurso à vigilância electrónica. Rita Figueiras não ficou surpreendida, na medida em que "este é um vírus invisível e a percepção das pessoas é a de que a aplicação permite identificar os perigos em mobilidade".

Mas a professora da Católica chama a atenção para a "ilusão do controlo" associada à adesão voluntária e à convicção de que alguma autonomia dos indivíduos é garantida. Rita Figueiras contrapõe que valeria a pena começarmos por pensar na eficácia desta aplicação. "O que vemos aqui é mais um passo na ideia da quantificação da vida humana e a entrada em mais áreas como a Google e a Apple que rapidamente disponibilizaram os seus serviços, primeiro com o desenvolvimento de uma aplicação e depois incorporando a possibilidade de rastreamento no seu sistema operativo; aos poucos, utilizando o medo das pessoas, para rapidamente ganhar mais território. O que significa que este rastreamento faz parte da transformação tecnológica da sociedade e que quanto mais ela avança mais o rastreamento está associado a possibilidades de vigilância e extracção de dados. Por isso, os cidadãos devem ser cautelosos e terem uma atitude prospectiva, pensando em que portas se podem abrir", alerta Rita Figueiras.

Interrogado sobre se os 61% de concordância registados pelo barómetro da Pitagórica revelam mais do que uma entorse das prioridades, quando somos chamados a optar entre liberdade e segurança, Paulo Pedroso responde. "O que eu acho que está a acontecer é que a Europa está a ficar vulnerável ao autoritarismo. O George Orwell imaginou um controle sobre as nossas vidas que nos era imposto. Nós estamos aparentemente disponíveis para criarmos, nós próprios, esse controle sobre as nossas vidas. São surpreendentes os números que se atingem em Portugal quando se sabe que Singapura avançou nesta direcção e apenas 20% dos seus habitantes aderiram à aplicação."

Mas o sociólogo acrescenta que "a comunicação sobre a possibilidade de esta aplicação vir a estar disponível é muito contraditória: nós temos, hoje, a União Europeia a querer dar-nos muitas garantias de que a privacidade será respeitada, temos em Portugal o próprio governo a dar a garantia de que não há nenhum dos abusos de que a Rita falou. Neste momento, não temos a percepção de que uma aplicação deste género seja um controle sobre as nossas vidas. Muita gente está convencida de que a tecnologia permite anonimizar, proteger a individualidade e combater este medo difuso. E há um argumento que é racional: se eu puder saber que estive perto de uma pessoa infectada (de um modo que não viole nenhum princípio) por que é que hei-de prescindir disso? Muitas pessoas estão expostas ao risco porque não podem ficar em casa. Obviamente, nunca farei o download desta aplicação, mas para mim é fácil gerir este medo com o tele-trabalho. Mas para o trabalhador da construção civil, que eu vejo da janela, é mais do que admissível esse receio".

Quanto ao mais, no dia em que foi gravada esta emissão, prevalecia a ordem de Bolsonaro: "Acabaram-se as notícias no Jornal Nacional". O Brasil deixara de divulgar o total de casos e de mortes da covid, ao mesmo tempo que o site do Ministério da Saúde com estatísticas diárias desaparecera da internet.

O caso foi abordado pelos comentadores residentes do magazine que se ocuparam ainda do despedimento de uma série de jornalistas pela Microsoft. Em várias plataformas de notícias dos EUA e do Reino Unido a edição é agora garantida pela Inteligência Artificial

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de