A espantosa realidade das coisas

“A espantosa realidade das coisas é a minha descoberta de todos os dias”
No magazine semanal de Fernando Alves, o sociólogo Paulo Pedroso observa a superfície e o fundo dos grandes temas da sociedade global. A investigadora Rita Figueiras promove a literacia da comunicação política. E a repórter Teresa Dias Mendes regista sinais fortes dos dias que passam.
Aos domingos, depois das 13h00

Marco Lisi: "Goste-se ou não, as democracias terão de lidar com o populismo"

Nesta edição da Espantosa Realidade das Coisas, convidámos o cientista político Marco Lisi, professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, a reflectir em conjunto com os comentadores residentes ( o sociólogo Paulo Pedroso, professor do ISCTE, e Rita Figueiras, professora de Ciências da Comunicação e Comunicação Política da Universidade Católica de Lisboa) sobre aquele que é um dos temas da sua investigação, a emergência do populismo, também em Portugal.

Marco Lisi, doutor em Ciência Política pela Universidade de Florença, coordenou com Enrico Borgetho, um estudo segundo o qual não existiriam condições para que o populismo desse frutos em Portugal. O editor do magazine dos domingos começou por lhe perguntar se , essa continua a ser a sua convicção. Marco Lisi lembrou que esse estudo foi, sobretudo, sobre o impacto da crise: "Fizemos uma análise sobre os manifestos eleitorais dos partidos e vimos que neles não havia sinais preocupantes desse tipo, embora os partidos da esquerda radical revelassem, nas eleições de 2011, apontamentos desse tipo com maior incidência do que noutros actos eleitorais. O que quer dizer que há, claramente, oscilações e que não houve um impacto forte da crise na retórica dos partidos, através de um discurso populista. Mas há outros factores que podem intervir e fazer despertar esse tipo de discurso".

Mas isso quer dizer que o populismo é ainda um fenómeno residual entre nós? "Eu creio que o populismo, e não falo só do caso português mas de outras democracias mais avançadas, é um fenómeno destinado a durar, é a consequência de um conjunto de factores de mudanças estruturais da sociedade, a nível da comunicação, da personalização da política, por exemplo", responde Marco Lisi. "As próprias democracias terão de lidar, no bem e no mal, goste-se disso ou não, com o fenómeno do populismo", acredita o cientista político.

A comentadora Rita Figueiras lembrou que, "as democracias, tal como as ditaduras, não são regimes eternos. Sofrem transformações. A democracia precisa, por isso, de ser cultivada, não apenas do ponto de vista institucional mas também pelas práticas políticas e pela forma como os próprios media actuam". Já Paulo Pedroso começou por considerar que "devemos olhar para Portugal no contexto global e para o populismo no quadro geral. Porque somos muitas vezes tentados a associar o fenómeno ao populismo de direita e, como sublinhou o Marco Lisi, podemos encontrar nos programas de partidos à esquerda algumas notas populistas. Comecemos por definir o que entendemos por populismo. Trata-se de uma mobilização anti-sistema político e anti-sistema económico, uma mobilização que pretende contrariar o poder excessivo das elites e acaba por se constituir como um apelo a uma nova autoridade do povo. Ora é nesse apelo à nova autoridade que as correntes populistas se cindem. É por isso que alguns vêem populismo em Bernie Sanders e não apenas em Trump. Ou no Podemos e não apenas no Vox. O modo como é feito esse apelo à nova autoridade é que varia, nos diferentes quadros populistas"

O programa aborda o modo como vários dirigentes populistas se posicionaram no quadro da pandemia, manifestando o mesmo desprezo face às recomendações iniciais dos especialistas. E tratou ainda na relação do populismo com as redes sociais e com os media convencionais.

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