A espantosa realidade das coisas

“A espantosa realidade das coisas é a minha descoberta de todos os dias”
No magazine semanal de Fernando Alves, o sociólogo Paulo Pedroso observa a superfície e o fundo dos grandes temas da sociedade global. A investigadora Rita Figueiras promove a literacia da comunicação política. E a repórter Teresa Dias Mendes regista sinais fortes dos dias que passam.
Aos domingos, depois das 13h00

Ninguém fixa o olhar em ninguém, em São Paulo

É uma constatação de Raquel Brust, fotógrafa brasileira, dinamizadora do projecto "Giganto": "A cidade não foi pensada para as pessoas".

A artista utiliza a arquitectura da cidade de São Paulo como suporte para as suas fotografias hiperdimensionadas. Ela fotografa e expõe rostos de pessoas comuns em grande formato, procurando, tal como é explicado pela própria Raquel Brust, "captar a potência dos olhares e revelar a essência de cada retratado". Isto acontece numa cidade onde "ninguém fixa o olhar em ninguém".

"Não adianta virar a cara, não há como escapar a painéis desta dimensão", assegura a fotógrafa formada em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Interpelada pelo jornalista Fernando Alves, a professora Rita Figueiras, comentadora residente do magazine A Espantosa Realidade das Coisas, observa que "o espaço urbano foi pensado para acumular pessoas. E para muitas dessas pessoas chegadas à cidade, vindas de lugares onde tinham as suas redes de relação, o anonimato imperou. E esse anonimato faz com que as pessoas se tornem, de algum modo, invisíveis. Por vezes parece que as cidades não são já espaços de humanidade, onde o contacto seja privilegiado.". Para a professora de Ciências da Comunicação da Universidade Católica de Lisboa "é interessante verificar que estas imagens de São Paulo trazem visibilidade, para o espaço público, de determinado tipo de pessoas que os media e as redes sociais tendem a ignorar". Rita Figueiras sublinha que "dar visibilidade a esta diversidade é um reconhecimento da existência destas pessoas, particularmente interessante no contexto brasileiro onde, de facto, o discurso da exclusão retira do reconhecimento público muitos dos que aqui estão representados".

Rita Figueiras aborda ainda as questões levantadas pela investigadora Joana Gonçalves de Sá, numa entrevista ao suplemento Weekend do Jorna de Negócios. A investigadora, doutorada em biologia molecular, recebeu recentemente 1,5 milhão de euros de financiamento europeu para estudar o fenómeno das fake news de um ponto de vista epidemiológico. Na entrevista, Joana Gonçalves de Sá cita um estudo do MIT para sustentar que as fake news " se sobrepõem às notícias em tudo. Espalham-se mais rapidamente, chegam a mais pessoas, mantêm-se na rede durante mais tempo e têm um tempo de vida muito mais longo nas redes sociais". Estes dados configuram mais do que uma tendência? Rita Figueiras considera que este é um estudo muito importante mas sublinha que as fake news já vêm de longe, fazem parte da comunicação humana. "As fake news como estratégia de comunicação política sempre existiram, o jornalismo acolhe com frequência, mais ou menos conscientemente, fake news, mas a importância das redes sociais neste fenómeno decorre da capacidade de propagação". Mas essa propagação é comparável a uma epidemia, a tecnologia apanha-nos do mesmo modo que um surto de gripe? "Aqui é que as metáforas podem induzir em erro", responde Rita Figueiras. "A ideia do vírus que se propaga a si mesmo no ar e nos apanha sem que tenhamos qualquer espécie de controlo ou possibilidade de evitar o contágio é que justificaria uma reflexão mais ponderada. As fake news são, na maior parte dos casos, disseminadas por pessoas que poderiam não as disseminar. As pessoas partilham conteúdos que consideram relevantes para si próprias, que consideram relevantes para aqueles a quem enviam esses mesmos conteúdos ou até porque consideram que isso lhes pode dar um determinado tipo de estatuto. Podemos ver as fake news como um sintoma das características da sociedade contemporânea. Há decisões que são tomadas, as pessoas não são apanhadas numa corrente, elas pertencem ou não a essa corrente por decisões que tomam, mais ou menos reflectidas. O que quero enfatizar é que há uma participação voluntária dos indivíduos"

Paulo Pedroso, o sociólogo e professor do ISCTE que todos os domingos comenta o andamento dos dias no magazine A Espantosa Realidade das Coisas, comenta o anúncio feito recentemente pelo ministro Manuel Heitor de incentivos fiscais às empresas para apoio a um programa de qualificação de quadros no ensino superior. "Como ideia, vale muito", considera Paulo Pedroso. "De facto, um dos problemas que Portugal tem hoje é o da retenção de quadros. Nós temos de ter consciência de que o nosso saldo migratório de quadros é, provavelmente, extremamente negativo. Não temos esses dados mas esse é um problema a prazo. Incentivar as empresas a que recrutem quadros é importante, mesmo sabendo que os jovens estão a ser recrutados com salários baixos. Quanto vale o anúncio feito pelo ministro? Depende de quantos milhões de euros o governo está disposto a gastar neste projecto". Assim sendo, o que é que este anúncio acrescenta ao quadro de incentivos fiscais já existente? "Tanto quanto consigo perceber, o facto de poder ser usado para quadros de todas as áreas do ensino superior", responde Paulo Pedroso. O ministro considerou que a formação de adultos é cada vez mais crítica, num quadro de transformação digital acelerada. Isso coloca uma maior urgência na necessidade de qualificar a população empregada? Para o comentador residente do magazine dos domingos, essa urgência "é total". "Um dos mitos que mais mal fez a Portugal", sublinha Paulo Pedroso, "foi o mito do país de doutores e engenheiros. Nunca fomos um país de doutores e engenheiros, nem um país com excesso de qualificação. Chegámos atrasados à batalha da educação. Para participar no próximo desafio, Portugal vai precisar de um salto muito grande no ensino superior".

A repórter Teresa Dias Mendes folheia, entretanto, o livro "Comer como uma Rainha", em conversa com a autora, Guida Cândido, investigadora do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos , junto à porta férrea da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Publicado o ano passado pela Dom Quixote, o livro acaba de ser distinguido com o prémio internacional de Literatura Gastronómica, em cerimónia realizada no Grémio Literário. A autora, licenciada em História de Arte, concluiu em 2014 o mestrado em Alimentação - Fontes, Cultura e Sociedade, com uma dissertação que nos remete para o universo abordado neste livro, percorrendo o receituário real, do século XVI ao século XX. 5 séculos, 5 rainhas, 50 receitas. A investigadora fala da curiosidade que fomentou o trabalho académico: "O que é que as rainhas comiam, como é que comiam, com quem comiam? Daí à necessidade de fazer um percurso cronológico foi um passo, que me levou a pensar neste registo. A editora também pensou que poderia ser uma abordagem interessante e sedutora para o público". Guida Cândido confessa ter tido a sensação de que o mestrado fora criado para si, dado o interesse que tinha no tema. E isso a levou de regresso aos bancos da Faculdade, duas décadas volvidas. "Foi, de facto, uma mudança radical na minha vida. Esta linha de investigação veio a tomar conta de mim". A investigação começou a partir de um livro contabilístico de despesas encontrado no Arquivo da Torre do Tombo: "Trata-se de um manuscrito identificado como sendo da ucharia da corte de D. João III. Como é evidente, temos sempre de interrogar. Foi precisamente esse trabalho que se revelou absolutamente motivador, despertando ainda mais o meu interesse. Porque à medida que fui estudando a fonte apercebi-me de que ela não era da ucharia de D. João III mas da casa da mulher de D. João III, dona Catarina de Áustria.". Esta é apenas a primeira das cinco rainhas folheadas na conversa que dá um sabor particular ao magazine deste domingo.

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