A espantosa realidade das coisas

“A espantosa realidade das coisas é a minha descoberta de todos os dias”
No magazine semanal de Fernando Alves, o sociólogo Paulo Pedroso observa a superfície e o fundo dos grandes temas da sociedade global. A investigadora Rita Figueiras promove a literacia da comunicação política. E a repórter Teresa Dias Mendes regista sinais fortes dos dias que passam.
Aos domingos, depois das 13h00

O falso jornalismo é péssimo para a saúde

Há uns anos, Juan Cruz, um dos fundadores do El Pais, partilhou no blogue "miraloquetetengodicho" a definição de jornalista dada por Eugénio Scalfari, numa conversa com estudantes de jornalismo: " O jornalista é uma pessoa que conta a outras pessoas o que acontece com outras pessoas".

Há dias, o título de um artigo de Juan Cruz no jornal El Dia, publicado nas Canárias, dava um nó cego à vulnerabilidade do leitor, susceptível de contágio quando abdique do sentido crítico. O título afirmava sem rodeios que "o falso jornalismo é péssimo para a saúde".

Juan Cruz enuncia, num parágrafo breve, as regras basilares do ofício. Se as respeitarmos, a coisa vai, temos jornalismo. O jornalista veterano aborda aquilo que define como "uma nova natureza" colada à "definição ética do jornalismo": a opinião. E de novo se socorre da definição de Scalfari para separar as águas. Por alguma razão, como sublinha, na grande maioria dos jornais de todo o mundo é estabelecida uma separação inequívoca das duas disciplinas. Mas isso não impede que se tenham vindo a propagar, como um vírus, casos de jornalistas ou aparentados que se alcandoram a tribunas de opinião, "dando sentenças sobre factos que não dominam". Juan Cruz alerta para o facto de muitas dessas "excrescências do ofício" se espalharem por "variantes espúrias do jornalismo", as chamadas redes sociais. O que aí escorre são muitas vezes detritos que se confundem com o reflexo de um trabalho jornalístico. O perigo de contaminação é conhecido. Mas torna-se mais acentuado em momentos de batalha sanitária como este que vivemos.

O alerta de Juan Cruz surge depois de ele ter conversado com um grupo de médicos intensivistas que estão na primeira linha do combate à pandemia. Deles recebeu a convicção fundamentada de que um dos elementos mais prejudiciais para a saúde é hoje "o jornalismo do falso", aquilo a que chamamos, em inglês, fake news. O artigo de Juan Cruz é comentado pela professora de Ciências da Comunicação e Comunicação Política da Universidade Católica de Lisboa, Rita Figueiras, comentadora residente deste magazine.

Esta semana, David Corral (responsável pelo sector de inovação da televisão espanhola) escreveu um longo ensaio na plataforma Panorama Audiovisual.com sobre jornalismo tecnológico ou tecnologia para o jornalismo em tempos de pandemia. Ele começa por lembrar que o confinamento provocado pela pandemia fez disparar as audiências dos media convencionais e digitais mas sublinha que a pandemia acrescentou às funções essenciais dos media (informação, educação, entretenimento...) uma nova tarefa: a luta contra as fake news. O editor do magazine perguntou a Rita Figueiras se os media , já tão debilitados, estão preparados para responder a esta nova necessidade.

Entretanto, a pandemia obrigou também os media a uma urgente adequação tecnológica. A transformação digital que era um projecto de futuro na maioria das empresas passou a ser "uma necessidade estratégica de sobrevivência". Esta aceleração de etapas pode provocar uma turbulência para a qual muitas empresas não estavam preparadas?

O que lá vem, entretanto: a necessidade de acautelar o uso ético da tecnologia, promovendo a igualdade, contrariando a desinformação e as ciber-ameaças sob o chapéu da 5G que permitirá conectar milhões de dispositivos. O último relatório da Cisco calcula que, em 2023, haverá 29.300 milhões de dispositivos interconectados globalmente, numa média de três por pessoa. David Corral interroga-se sobre como se processará o consumo dos media e sobre como se estabelecerá a veracidade das notícias. Face às novas dinâmicas e à velocidade a que elas se manifestam, com audiências fragmentadas e o mercado saturado de plataformas e dispositivos, estaremos cada vez mais à mercê da tecnologia?

O sociólogo e professor do ISCTE Paulo Pedroso, também comentador residente do magazine dos domingos, ajuda-nos a ler um estudo da Universidade do Minnesota, que trabalha sobre três cenários para a covid 19. Num desses cenários, o pior pico ocorrerá no próximo inverno, noutro é definido um movimento continuado de picos e vales e o terceiro prevê o prazo mais largo com réplicas cada vez mais fracas. Todos trabalham com um horizonte temporal de 18 a 24 meses. Deveríamos começar a interrogar-nos sobre como será a escola pública a dois anos de distância? E o tele-trabalho? E uma economia abrindo e fechando intermitentemente poderá, apesar de tudo, ganhar novo fôlego?

Paulo Pedroso analisa ainda um estudo realizado por três economistas do FMI que permitiu aplicar o chamado índice de Gini à evolução das desigualdades em cinco pandemias do passado: é inequívoco que as pandemias agravam as desigualdades. Foi a partir dessa convicção que o FMI veio recomendar aos governos que encontrem medidas para uma partilha mais justa dos riscos e dos custos sociais da crise, visando por exemplo a manutenção dos postos de trabalho.

Foi entretanto conhecida uma petição assinada por cientistas internacionais exigindo dos governos um compromisso para a protecção de pelo menos 30% da terra e dos oceanos até 2030. Entre esses cientistas estão David Quammen e Enric Sala, dois investigadores da National Geographic para os quais "proteger e investir na natureza é a melhor e mais barata vacina que poderemos garantir para enfrentar futuras pandemias". O jornalista Fernando Alves interroga Paulo Pedroso sobre se faz sentido esta abordagem da pandemia num quadro mais vasto de discussão sobre a saúde do planeta.

E isso nos leva ao desempenho ambiental das cidades e à relação estreita entre a poluição do ar e o coronavírus. A BBC apresentou recentemente um dossier que vai nessa linha. Afinal a poluição do ar mata mais de quatro milhões de pessoas por ano em todo o mundo...

Cientistas norte-americanos concluíram que a poluição do ar provocou mais mortes por coronavírus do que aquelas que teriam ocorrido se o ar não estivesse poluído. Um micrograma de partículas poluídas por metro cúbico, concluiu uma equipa de cientistas de Harvard, correspondeu a um aumento de 15% nas mortes por covid 19. Outros estudos sobre qualidade do ar na região da Lombardia permitem concluir que o alto nível de poluição do ar no norte da Itália deve ser considerado um factor adicional do alto nível de letalidade registo na região. Não estamos em presença de uma qualquer teoria da conspiração. A partir do que fica cientificamente comprovado não há margem de recuo para a necessidade de limitar seriamente os níveis de poluição. Até para limitar os efeitos de uma segunda vaga de coronavírus....

Diz de si mesmo que, se fosse uma árvore, seria uma oliveira. Se fosse uma planta seria uma magnólia. Convidado pela jornalista Teresa Dias Mendes para o programa Um dia de Cada Vez, no dia internacional do fascínio das plantas, o economista e botânico António Bagão Félix aceitou esta segunda-feira o desafio suplementar que lhe foi colocado para que estabelecesse similitudes entre árvores e políticos. Já em tempos ele comparara Marcelo Rebelo de Sousa à Bela Sombra e António Costa à tipuana... Agora associa uma árvore, aliás duas, a Mário Centeno.

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