A espantosa realidade das coisas

“A espantosa realidade das coisas é a minha descoberta de todos os dias”
No magazine semanal de Fernando Alves, o sociólogo Paulo Pedroso observa a superfície e o fundo dos grandes temas da sociedade global. A investigadora Rita Figueiras promove a literacia da comunicação política. E a repórter Teresa Dias Mendes regista sinais fortes dos dias que passam.
Aos domingos, depois das 13h00

O inferno de Dante, o gabinete do ódio e a Santinha Aparecida

Dante Mantovani, o novo presidente da Funarte - a Fundação Nacional das Artes, no Brasil - deixou esta semana uma pérola no Youtube: "O rock leva ao aborto e ao satanismo". Para o homem a quem o governo de Bolsonaro incumbiu de promover as artes no país, " o rock activa a droga e a droga activa a indústria do aborto. Esta, por sua vez, alimenta uma coisa muito mais pesada que é o satanismo". Para Mantovani, John Lennon fez um pacto com o diabo e "agentes comunistas infiltrados na CIA foram responsáveis pela distribuição de LSD a jovens, durante o festival de Woodstock".

Nesse Agosto de 1969, o sociólogo Paulo Pedroso, um dos comentadores residentes deste magazine, teria 4 anos. Ele viu, anos depois, as imagens de Ravi Shankar tocando à chuva no primeiro de três dias em que tantos nomes grandes do rock subiram ao palco, entre eles Jimi Hendrix ou Joan Baez, grávida de seis meses. Lennon esteve ausente, tal como Zappa ou Bob Dylan. "Vi vezes sem conta as imagens do festival, lembro-me da longa performance do Jimmi Hendrix que vi muitas vezes ao longo da vida", sublinha o professor do ISCTE que, a pedido do editor do magazine, sugere um tema dos brasileiros Legião Urbana para ilustrar esta espantosa realidade das coisas. E, com ironia, alvitra que foi o aborto que levou ao rock no Brasil e não o contrário, admitindo que o presidente da Funarte está a ser confundido pelos media, esses "inimigos do povo": "Uma das primeiras bandas de punk-rock brasileiras chamava-se Aborto Eléctrico. O Renato Russo, que foi o fundador dessa banda, viria a gravar, já na Legião Urbana, uma canção que tinha tocado com os Aborto Eléctrico que diz tudo o que a declaração de Mantovani merece. Logo no título, 'Que país é esse?'".

O magazine regista, de seguida, o que se passa no Gabinete do Ódio, assim chamado pela deputada federal brasileira Joice Hasselmann. A deputada fora até à recente crise instalada no PSL, apoiante de Bolsonaro. Mas esta semana esteve longas horas denunciando, na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, a existência de um gabinete de distribuição de notícias falsas em pleno palácio do Planalto. Os mentores desse gabinete seriam os dois filhos do presidente brasileiro, um deles também deputado. Trata-se, nas palavras de Joice Hasselman, de "uma organização criminosa que funciona de maneira coordenada".

Para Paulo Pedroso trata-se do "exemplo típico da denúncia de uma campanha negra, nos moldes tecnológicos actuais. Não há, infelizmente, surpresa. Esta uma marca da política brasileira actual. Tudo aquilo que sabemos que se passa nos bastidores aparece à luz do dia". Mas, de facto, "o uso das redes sociais para lançar mentiras e para fazer campanha política é uma nova realidade das nossas democracias, é uma ameaça às nossas democracias, um dado com o qual temos de trabalhar".

O jornalista Fernando Alves pergunta, entretanto, à professora de Ciência Política e de Ciências da Comunicação da Universidade Católica de Lisboa, Rita Figueiras, se estamos condenados ao espectáculo da política levado a estes limites. "Estamos", responde a comentadora residente do magazine dos domingos. "E temos a possibilidade de acompanhar os trabalhos de uma comissão parlamentar deste tipo como quem acompanha um jogo de futebol, cheio de emoções e de crispação entre as partes em que o que mais interessa é atacar e diminuir o outro lado em vez de ter uma discussão edificante e construtiva. Podíamos ver aqui uma certa analogia ou continuidade entre as fake news e a estratégia de propaganda do início do século XX, também em governos democráticos que tinham, precisamente, como objectivo inundar os media da altura (principalmente através da rádio e da imprensa), publicando notícias falsas. Claro que há uma diferente escala, pela dimensão do fenómeno e rapidez na difusão mas o objectivo é o mesmo: inundar as pessoas com informação ao ponto de as deixar completamente perdidas, sem possibilidade de distinguirem a verdade do seu contrário".

A conversa recua no tempo a um outro 8 de Dezembro e à discussão sobre o que para alguns, não poucos, teve os contornos de uma "conspiração católica" associada à bandeira das 12 estrelas hoje adoptada na Europa.

A emissão termina com uma reportagem de Fernando Alves em Lalim, perto de Tarouca. O repórter visitou a aldeia onde D. Pedro Afonso, o poeta e trovador filho bastardo de D. Dinis, teve o seu paço. Ali terá composto o famoso Livro de Cantigas, reunindo a produção dos primeiros trovadores portugueses. Mas o repórter foi a Lalim para ver de perto o caixão que guarda, na capelinha anexa à igreja de Santa Maria Maior, os restos mortais da chamada Santinha Aparecida. O padre Agostinho foi o cicerone dessa visita breve para não perturbar a santinha, vestida de noiva, no seu sono tão composto.

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