A espantosa realidade das coisas

“A espantosa realidade das coisas é a minha descoberta de todos os dias”
No magazine semanal de Fernando Alves, o sociólogo Paulo Pedroso observa a superfície e o fundo dos grandes temas da sociedade global. A investigadora Rita Figueiras promove a literacia da comunicação política. E a repórter Teresa Dias Mendes regista sinais fortes dos dias que passam.
Aos domingos, depois das 13h00

Podem os media ser um cancro para a democracia?

Esta pergunta está inscrita numa petição apresentada pelo antigo primeiro-ministro australiano Kevin Rudd ao parlamento do seu país para que seja instaurado um inquérito ao governo sobre o que é considerado um "abuso de monopólio dos media, nomeadamente dos media controlados por Murdoch".

O sociólogo Paulo Pedroso, professor do ISCTE e comentador residente do magazine A Espantosa Realidade das Coisas, subscreve a inquietação de Kevin Rudd, considerando que os media "são o sangue da democracia" mas, tal como "o sangue envenenado", podem causar grandes problemas, "podem provocar, mesmo, a morte da democracia". "Há duas ou três circunstâncias complexas", lembra Paulo Pedroso: "A primeira relaciona-se com o abuso de posição monopolista. É a situação a que se refere a petição do Kevin Rudd e será o que acontece com Murdoch na Austrália, neste momento. A verdade é que existe, há muitas décadas, legislação anti-monopólio; é uma das matérias para as quais muitas democracias começaram a preparar-se, mas a situação de domínio absoluto dos media por um grupo é, em si mesma, já, uma situação de risco que é agravada quando convive com má regulação ou com regulação pouco eficaz".

Não querendo estabelecer um paralelismo com o que se passa em Portugal, Paulo Pedroso observa que, também aqui, "sofremos alguns problemas de regulação. Porque a auto-regulação não funciona, a regulação pela ERC é, sendo simpático, tímida e os tribunais estão sempre no fio da navalha, com a preocupação de não limitarem a liberdade de imprensa. Isto cria um défice de regulação que torna os media irresponsáveis. Ora, juntar ao abuso de posição a irresponsabilidade ( e, no caso australiano, algo que também acontece muito nos Estados Unidos, o parcialismo) dá a Kevin Rudd motivos para protestar pela permanente estratégia anti-Labour do grupo de Murdoch". O sociólogo lembra ainda algo de que não se fala tanto e que permitiria dar o exemplo da Rússia ou da Turquia: o cenário em que "os media são apropriados pelo poder para se transformarem em seus megafones e em instrumentos de restrição da democracia".

Rita Figueiras, a professora de Ciências da Comunicação e de Comunicação Política da Universidade Católica de Lisboa sublinha o facto de Murdoch ter, com muita frequência, problemas com os governos da Austrália, mas também com os governos ingleses. "Ele é proprietário dos grandes jornais tablóides, importantes quer do ponto de vista económico quer do ponto de vista político. O escândalo que envolveu o News of the World devido à relação dos jornalistas com a polícia, a política e as celebridades, obriga-nos a uma séria reflexão sobre o papel dos media nas sociedades democráticas. O Murdoch, de algum modo, actualiza o papel de William Hearst, o magnata que inspirou Citizen Kane, de Orson Welles. Hearst era, também, tal como Murdoch, alguém que obtinha poder para ter mais poder. É claro que estamos em presença de uma estratégica económica e financeira mas, também, de uma estratégia programática, política. A Fox News será o exemplo máximo da combinação dessas estratégias, visando a obtenção de um poder sem responsabilidade capaz de subalternizar o poder político que o deveria regular".

O programa, que cumpre um ano de emissão, foi gravado no dia em que a repórter Teresa Dias Mendes foi conhecer Zazu, o novo pinguim do Oceanário de Lisboa. Nesse dia foi, também, divulgado um alerta da Organização Meteorológica Mundial sublinhando que, mesmo em tempo de covid 19, não devemos distrair-nos da ameaça crescente das mudanças climáticas para a vida humana, os ecossistemas e as economias e sociedades nos próximos séculos. Um pinguim-de-magalhães, primo afastado de Zazu, encontrado morto numa praia do litoral de São Paulo, tinha no estômago uma máscara hospitalar. Zazu não corre semelhante risco, mesmo se as máscaras dos tratadores e dos visitantes lhe vão sendo, de algum modo, familiares.

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