A espantosa realidade das coisas

“A espantosa realidade das coisas é a minha descoberta de todos os dias”
No magazine semanal de Fernando Alves, o sociólogo Paulo Pedroso observa a superfície e o fundo dos grandes temas da sociedade global. A investigadora Rita Figueiras promove a literacia da comunicação política. E a repórter Teresa Dias Mendes regista sinais fortes dos dias que passam.
Aos domingos, depois das 13h00

Quem degradou as palavras? A sociedade? A política? Os media? Enfrentamos uma infodemia?

Ao falar há dias do que considerou o vírus do consumismo, o Papa desafiou-nos a "renunciar às palavras inúteis". Na verdade, como acaba de lembrar, na ARCO, em Madrid, o artista conceptual catalão Antoni Muntadas, "a sociedade degradou as palavras". Muntadas fala, por isso, em "infodemia".

A palavra, esta palavra que nos alerta para a epidemia informativa, pode ser, ela também rapidamente contaminada. O designado "secretário de vigilância do ministério da Saúde" do Brasil acaba de usar precisamente esta palavra, "infodemia", sem máscara de protecção. O ângulo de alerta do responsável político do sector, lá no Brasil, é o de que "vivemos a epidemia em tempo real" enquanto as informações se tornam "perecíveis".

Mas voltemos ao ângulo de Muntadas. O artista conceptual que tem vindo a trabalhar intensamente a relação entre a imagem e a palavra, falou da acupunctura que se estabelece entre ambas, num processo em que a palavra se vai transformando em imagem.

Ele diz que "a sociedade degradou as palavras com a ajuda da política e dos media". Este é o primeiro tema posto abordado pela comentadora residente do magazine dos domingos. Rita Figueiras, professora de Ciências da Comunicação e de Comunicação Política da Universidade Católica de Lisboa, responde à pergunta sugerida pelas declarações de Muntadas: Há uma infodemia em curso? "Há, seguramente" responde a investigadora. "Se pensarmos na quantidade imensa de meios ao dispor, com as redes sociais e os media tradicionais, constatamos que o fluxo de informação é cada vez mais intenso, com maior quantidade de informação e ciclos noticiosos cada vez mais curtos. Há múltiplas formas de acesso ao consumo de informação e múltiplos conteúdos informativos, num processo cada vez menos controlável. Sabemos como é que uma história pode começar, mas não podemos saber já como é que ela termina. Isto gera uma enorme saturação e, muitas vezes, uma verdadeira intoxicação, com a percepção de que quanto mais se sabe mais se gera incerteza".

Rita Figueiras sublinha que, " esta lógica mediática acolhe o sound bite, uma só palavra faz a síntese de uma ideia. Isso é evidente neste jogo de palavras de que se socorre Antoni Muntadas".

E como responderemos ao catalão quando ele pergunta:"Quem degradou as palavras? A sociedade? A política? Os media?". "Todos", atalha Rita Figueiras. "Hoje em dia, vemos uma polarização das palavras. O politicamente correcto contra o politicamente incorrecto. Assistimos a uma crescente utilização de palavras belicistas".

Face à epidemia real, ao novo coronavírus que já provocou o internamento hospitalar de algumas pessoas infectadas em Portugal, assistimos esta semana, ao que pareceu uma leve picardia entre Belém e São Bento.

Paulo Pedroso, o sociólogo e professor do ISCTE que é, também comentador residente do magazine dos domingos, foi desafiado a comentar aquele "por mim já lá estava", com que respondeu aos jornalistas sobre a programação de uma eventual visita aos doentes hospitalizados. O modo como o Presidente considerou que o protagonismo deveria ser dado ao governo permite detectar o afloramento de tal picardia?

"Foi uma picardia com sorrisos. O que me parece que aconteceu é, claramente, que houve uma vontade de protagonismo do Presidente a que, por qualquer motivo que não conhecemos, o Governo terá criado alguma dificuldade e tal foi gerido do modo a que nos temos habituado com outros afloramentos desse tipo entre o Presidente e o primeiro-ministro. Entre este Presidente e este primeiro-ministro as palavras são sempre doces e o veneno, quando existe, está muitas vezes atrás dos sorrisos".

"E claro", atalha a professora de Ciências da Comunicação e Comunicação Política da Católica, "os media nunca perdem o primeiro round de qualquer luta deste tipo. Talvez tenham encontrado neste episódio essa mesma oportunidade. Independentemente do grau de animosidade que possa existir, neste momento".

Os comentadores residentes comentam ainda a reportagem da Deutsche Welle sobre a corrida às prateleiras dos supermercados desde o início da propagação do novo coronavírus e o apelo lançado pela Associação Alemã de Jornalistas a que os media não alimentem o medo.

A Espantosa Realidade das Coisas colhe ainda um verso do padre e poeta nicaraguense Ernesto Cardenal que acaba de falecer. Ele escolheu ficar do lado dos pobres, afastando-se dos antigos companheiros sandinistas apanhados pela degeneração e pelo nepotismo. "Somos poeira de estrelas", escreveu Cardenal, no Cântico Cósmico. Na emissão deste domingo reflecte-se sobre a importância da fidelidade aos valores, num tempo em que eles parecem valer pouco.

E Paulo Pedroso analisa o mais recente relatório da Caritas que denuncia "barreiras e obstáculos consideráveis" enfrentados pelos grupos mais vulneráveis da sociedade portuguesa no acesso aos direitos sociais.

Assim, fome a fome, pão a pão, deciframos a espantosa realidade das coisas, poucos dias depois da abertura em Lisboa de um restaurante que tem uma receita eficaz para a promoção do envelhecimento activo. Todos os que trabalham no restaurante Mão Cheia, de portas abertas na Fundação Arpad Szenes- Vieira da Silva, à praça das Amoreiras em Lisboa, têm mais de 65 anos. Há na equipa portugueses e imigrantes de várias nacionalidades. A repórter Teresa Dias Mendes foi provar as receitas de cozinheiros de mão cheia.

Um modo de fazer apurado no tempo e nas andanças do mundo. Mulheres e homens antigos, vindos de lugares tão diversos, talvez nos façam qualquer dia um nacatamal, o prato típico da Nicarágua que Ernesto Cardenal pedira há tempos quando saiu do hospital onde tinha estado internado duas semanas. O nacatamal é feito com milho, carne, legumes e arroz cozido embalados em folhas de bananeira. Era por certo o prato preferido do padre poeta que escolheu o lado dos pobres e nos lembrou que "somos poeira de estrelas".

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