A espantosa realidade das coisas

“A espantosa realidade das coisas é a minha descoberta de todos os dias”
No magazine semanal de Fernando Alves, o sociólogo Paulo Pedroso observa a superfície e o fundo dos grandes temas da sociedade global. A investigadora Rita Figueiras promove a literacia da comunicação política. E a repórter Teresa Dias Mendes regista sinais fortes dos dias que passam.
Aos domingos, depois das 13h00

Quem pode fazer perguntas em Downing Street? E de quem é o twitter dos jornalistas?

Kobe Bryant, o ala armador dos Lakers que se tornara uma lenda do basquetebol norte-americano, tinha morrido poucas horas antes. A notícia do seu desaparecimento brutal ganhara as manchetes, em todo o mundo. Mas, ao arrepio do sentimento de consternação geral, uma jornalista do Washington Post decidiu lembrar, nas suas redes sociais, um alegado caso de violação em que o grande herói desportivo desaparecido estivera implicado. No seu perfil no Twitter, a jornalista Felicia Sonmez estabeleceu um link para uma notícia publicada em 2016, por um outro jornal, na qual era revelado um acordo extrajudicial que evitara, a troco de 25 milhões de dólares, a ida de Bryant a tribunal. A jornalista recebeu, de imediato, um rol de ameaças e de insultos e, ao que noticiou o New York Times, terá sido fortemente repreendida pelo director do seu jornal para quem "o uso desastrado do Twitter" teria "ferido a instituição".

O jornalista Fernando Alves pergunta a Rita Figueiras, comentadora residente do magazine A Espantosa Realidade das Coisas, de quem é o Twitter do jornalista. É só dele ou é também do jornal onde trabalha? Para a professora de Comunicação Política e Ciências da Comunicação da Universidade Católica de Lisboa esta é "uma questão de difícil resolução ou de resposta directa, imediata e simples". "As redes sociais", lembra Rita Figueiras, "vieram colocar em causa o que é público e o que é privado. Obviamente estamos perante um espaço público, acedido por muitas pessoas, mesmo quando está circunscrito. Ainda que só os amigos possam aceder, há sempre alguém que possa partilhar com terceiros e, de partilha em partilha, mais público se torna. Estamos face a espaços públicos que muitas pessoas sentem como privados. É aí que, muitas vezes, as pessoas se expressam a partir do seu telemóvel, um dispositivo da vida quotidiana que usam em casa ou entre amigos e isso leva a que, com frequência, esqueçam que podem estar a ser lidas noutros espaços e até noutro tempo. Por outro lado, é uma situação nova. Muitos jornais estimulam a presença dos jornalistas em várias redes de modo a dar maior visibilidade à marca e, por isso, consideram que esses jornalistas estão sempre a representar os jornais em que trabalham. Mas também é legítimo que os jornalistas entendam que aquele é um espaço individual de expressão que não deve ser confundido com a linha editorial do jornal".

Mas, por alguma razão, lembra o editor do magazine de domingo, muitos órgãos de comunicação definiram códigos de conduta. O New York Times pede explicitamente aos seus jornalistas que "resistam a editorializar no Twitter". Ao fazê-lo, estará a cercear a liberdade de expressão e de opinião?

"Se for claro para todos os jornalistas que, quando estão a utilizar essas redes, o fazem em nome do jornal, estes defrontam-se com a opção de o fazer ou não. Mas é claro que as pessoas têm o direito a expressarem livremente as suas opiniões", observa Rita Figueiras.

A professora de Comunicação Política da Católica comenta também as recentes mudanças operadas nas conferências de imprensa em Downing Street. Vários jornalistas que habitualmente cobrem a actividade política do gabinete de Boris Johnson foram há dias convidados a sair da sala onde iria decorrer uma conferência de imprensa do primeiro-ministro. Vários outros, como o da BBC e o do Guardian, saíram da sala em solidariedade com os colegas. "Boris Johnson já replica o modelo de Trump. Mas este é mais um episódio de uma escalada de tensão entre o chefe de governo e os media", observa Rita Figueiras. "Há vários outros exemplos reveladores do sentido que a estratégia de comunicação do primeiro-ministro inglês está a tomar. Primeiro, foi a mudança da localização dos briefings diários do parlamento para Downing Street. Tal mudança permite controlar o acesso dos jornalistas. Depois foi o cenário escolhido para a primeira entrevista enquanto primeiro-ministro. Em vez de ir a um programa televisivo especializado em informação, Boris Johnson foi a um programa da manhã, com uma abordagem muito mais suave e uma audiência muito menos politizada, reforçando a cada vez maior aproximação dos políticos aos programas de entretenimento".

O outro comentador residente do magazine de domingo, o sociólogo e professor do ISCTE Paulo Pedroso, repescou o significado das críticas feitas por Greta Thunberg aos políticos mundiais, em Davos, pelos resultados insuficientes da sua acção com vista à diminuição das emissões de dióxido de carbono. Trata-se de pura retórica ambientalista da "profeta da desgraça", como lhe chamou Trump, ou estamos face a acusações fundamentadas e certeiras? "São a verdade", responde Paulo Pedroso. "Pelos dados disponibilizados, a verdade é que o mundo está a falar das alterações climáticas e da emergência climática mas, do ponto de vista dos efeitos, o percurso visando conter o aquecimento global não está a ser feito. Todos os dados disponíveis apontam para que, neste momento, ainda não tenhamos invertido o caminho para o desastre no planeta. A expressão de Trump é típica de alguém que é o maior adversário desta percepção de que o planeta está em risco. Hoje, de facto, a presidência norte-americana é um grande obstáculo a que possamos fazer alguma coisa. Mas há muito que pode ser feito. A Europa, a China e o Japão podem fazer mais. Em Portugal temos planos que são dos mais exigentes e ambiciosos mas estamos numa fase muito inicial. A Greta é um ícone e está no seu momento mediático. Mobiliza a juventude e esse é um dado que devemos ter em conta. Mas, independentemente de o seu papel como ícone poder levar a que haja expressões extremamente simplificadas como esta, a verdade é que esta expressão ultra-simplificada é a síntese da verdade do sítio onde estamos. Estamos a falar e não estamos a ter efeitos. Estamos ainda numa fase em que a percepção da emergência climática é um programa político que começa a ser adoptado. Na União Europeia fala-se agora do Pacto Verde, mas trata-se de um plano que a União Europeia está a adoptar agora. Se quisermos ser optimistas, há a expectativa de que, daqui a cinco anos, poderemos estar numa situação diferente. Espero que isso aconteça mas, de facto, desde o Acordo de Paris até hoje, os objectivos que foram definidos ficaram sistematicamente por atingir".

E entretanto não adormeceremos à sombra da acácia perdida. O adjectivo "perdido" é, neste caso, muito preciso. Ele não remete para um certo verso da Sonata do Amor Perdido, de Vinicius (em que o poeta descreve o corpo da amada "sobre a húmida relva de esmeralda junto às acácias amarelas") mas para a expedição etnobotânica "Em Busca da Acácia Perdida", levada a cabo em Dezembro por dois investigadores, Manuel Miranda Fernandes e Raul Pereira, no âmbito de um trabalho sobre a introdução da acácia em Portugal e na bacia do Mediterrâneo. Eles viajaram até ao Egipto, a pátria das acácias. A repórter Teresa Dias Mendes foi visitá-los ao herbário

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