A espantosa realidade das coisas

“A espantosa realidade das coisas é a minha descoberta de todos os dias”
No magazine semanal de Fernando Alves, o sociólogo Paulo Pedroso observa a superfície e o fundo dos grandes temas da sociedade global. A investigadora Rita Figueiras promove a literacia da comunicação política. E a repórter Teresa Dias Mendes regista sinais fortes dos dias que passam.
Aos domingos, depois das 13h00

Sudão do Sul: cinco vice-ministros, quatro ventiladores

São números muito actualizados, apurados pelas Nações Unidas: mais de dois milhões de sudaneses do sul vivem fora do país. É a maior população refugiada de África. Mas no interior do próprio território do Sudão do Sul há um número semelhante de deslocados. Mais de 80% desses deslocados são mulheres e crianças.

Há dias, o New York Times traçava um quadro angustiante quanto ao modo como, quer o Sudão do Sul quer outros países africanos, estão à mercê da pandemia que se aproxima. O Sudão do Sul, um país com 11 milhões de habitantes, tem mais vice-presidentes do que ventiladores. Na verdade tem cinco vice-presidentes e quatro ventiladores. A República Centro Africana tem 3 ventiladores. Na Libéria há seis máquinas em funcionamento. Uma delas, conta o NYT, está do lado de lá do portão da embaixada dos Estados Unidos. Há dez países de África que não dispõem de um só ventilador.

O jornalista Fernando Alves perguntou ao sociólogo e professor do ISCTE, Paulo Pedroso, se num quadro deste tipo grande parte da população africana não estará afinal arriscando-se a fazer o papel de cobaia, quando as coisas se descontrolarem? "Estará completamente desprotegida", respondeu o comentador residente do magazine dos domingos. "Esses números são chocantes mas não são novos. E esta vulnerabilidade já existia com a gripe e, muito mais, com a tuberculose, com a malária. Os países de África como, de um modo geral, os países desenvolvidos, têm um problema sério a que o mundo não deu a atenção devida, o de falta de sistemas de saúde pública. Isso deriva, por um lado, da pobreza dos países e , por outro, da falta de prioridade da ajuda ao desenvolvimento para o reforço desses sistemas. Não se olhou para a saúde como um elemento básico da sobrevivência desses países. Se a pandemia é uma ameaça a nível global, ela é uma tragédia nos países mais pobres em que entrar, não só em África".

Paulo Pedroso comenta quadros igualmente sintomáticos da extrema vulnerabilidade dos países mais pobres de África. Fala da água potável e do sabão que escasseiam em muitos lugares de África. Há dois anos, as Nações Unidas comprovaram que 97% das casas da Libéria não têm água limpa nem sabão. E é de coisas tão simples, tão básicas, que África precisa neste momento.

E comenta ainda o alerta das Nações Unidas para a possibilidade de a pobreza extrema vir a atingir 62 milhões de crianças em todo o mundo. Elas seriam, desse modo, as grandes vítimas da pandemia devido ao impacto de longa duração provocado pela crise nos países mais pobres. Estamos a falar apenas das crianças lançadas para a pobreza extrema devido à Covid-19, já que um documento da Unicef já o ano passado contabilizava 386 milhões de crianças em pobreza extrema no mundo. Ora isto pode contrariar os relativos progressos que estavam a ser obtidos nos últimos três anos nesta frente que vai das zonas de guerra aos campos de refugiados.

Por fim, reflecte sobre o facto de, em Portugal, mais de um milhão de trabalhadores terem entrado em lay-off, respondendo à pergunta "que percentagens destes trabalhadores terão o seu posto de trabalho de volta quando puderem retirar as máscaras"?

Com máscara ou sem ela, o marketing político não parece ter sido afectado pela pandemia. Essa é convicção de João Miras, um ítalo-brasileiro, estratega de marketing político, com 40 anos de profissão em vários países. Especializou-se em planeamento estratégico de comunicação para governos e autarquias, no Brasil.

Ele escreveu há dias no "ABC da Comunicação" um artigo no qual explica que, ao contrário do jornalismo televisivo e radiofónico, que tiveram de se precipitar numa convergência digital por causa do medo do vírus, isso já acontecia nas campanhas eleitorais brasileiras quando o vírus se instalou. O editor do magazine perguntou à professora de Comunicação Política e Ciências da Comunicação da Universidade Católica de Lisboa, Rita Figueiras, comentadora residente da Espantosa Realidade das Coisas, se estamos em presença de uma tendência geral de novas técnicas de produção da mensagem política através dos meios digitais. Rita Figueiras recorda que essa estratégia tem vindo a ser reforçada. "Foi a primeira campanha de Barack Obama para as eleições presidenciais de 2008 que deu o sinal de partida para essa estratégia que, logo a seguir ao grande boom do Youtube e do Facebook, articula as redes sociais, fazendo com que se percebesse que as redes sociais têm uma potencialidade muito grande de, a par de outro tipo de estratégias de comunicação política no terreno, ampliar a eficácia das mensagens e a visibilidade dos candidatos".

Rita Figueiras reflecte também sobre os objectivos das conferências de imprensa diárias de Donald Trump.

E sobre a cultura da vigilância que (agora, a pretexto da Covid-19) parece fazer o seu caminho, velozmente, um pouco por todo o lado.

Com máscara ou sem ela, muitas vezes sem ela, as mulheres da limpeza passam o esfregão e a vassoura sobre o chão talvez infecto. Elas limpam o que sujamos. Curvam-se para limpar o que sujamos. Muitas vezes passamos por elas e nem as vemos.

Rosa, por exemplo, leva mais de 50 anos nisto. Está reformada mas a reforma não chega para uma vida limpa. Por isso continua confinada às casas de banho e às alcatifas e ao pó das mesas que tantas vezes utilizamos desconsiderando as regras mínimas de civismo. Não é o melhor perfume, aquele que a persegue desde há meio século, era quase menina. Disso trata a breve conversa que o jornalista Fernando Alves teve com ela.

E o magazine termina à janela de Duarte Belo, arquitecto, escritor, fotógrafo, andarilho. O que o interessa é a paisagem e o povoamento. Há anos que percorre o país, muitas vezes longe do asfalto, registando a passagem do vento sobre a terra. "Nestes dias de confinamento, o que vês da tua varanda ou da tua janela?", pergunta-lhe o editor de A Espantosa Realidade das Coisas.

Duarte Belo, cuja memória retém milhão e meio de imagens que foi guardando e arquivando, muitas delas utilizadas em livros, outras mostradas em exposições um pouco por todo o país, vai legendando algumas trazidas no vento da conversa. Uma árvore, um areal, uma casa em ruínas, um cavalo a correr na serra de Arga, o mar banhado de luz visto dos Capelinhos, os lugares que ele há-de visitar, com a máquina e a mochila, quando este nevoeiro levantar.

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