A espantosa realidade das coisas

“A espantosa realidade das coisas é a minha descoberta de todos os dias”
No magazine semanal de Fernando Alves, o sociólogo Paulo Pedroso observa a superfície e o fundo dos grandes temas da sociedade global. A investigadora Rita Figueiras promove a literacia da comunicação política. E a repórter Teresa Dias Mendes regista sinais fortes dos dias que passam.
Aos domingos, depois das 13h00

Trump e a meia entrevista à CBS: o homem que detesta a mediação

Tudo azedou quando a entrevistadora do programa "60 Minutos" da CBS perguntou a Trump se ele avaliava o modo como os seus tuítes nas redes sociais poderiam estar a afastar as pessoas. Há uma frase muito esclarecedora na reacção intempestiva de Trump: "Eu não estaria aqui se não tivesse redes sociais. A imprensa é falsa. Se eu não tivesse redes sociais não teria um meio para me fazer escutar". É a espantosa irrealidade das coisas.

O homem para quem não há limites parece contrariado pelas sondagens e pelas perguntas que considera hostis. Por isso, o editor do magazine dos domingos propôs aos comentadores-residentes (o sociólogo e professor do ISCTE Paulo Pedroso e a professora de ciências da comunicação e de comunicação política da Univ Católica de Lisboa Rita Figueiras) a leitura de um gesto inesperado de Trump: depois de ter travado uma discussão acesa com a jornalista que o entrevistava, o presidente dos EUA abandonou a gravação. O que é que este gesto nos diz sobre a sageza política do homem mais poderoso do mundo?

"Trump quebrou o que estava estabelecido como a regra do jogo", observa Rita Figueiras. "Ambas as partes, jornalistas e políticos vinham aceitando essas regras, segundo as quais o jornalista é o questionador, com o direito de fazer as perguntas, e o político disponibiliza-se para prestar contas, não escamoteando o dever da resposta. Com mais ou menos contestação ou polémica, ambas as partes aceitavam estas regras. Trump não as aceita e, mais do que isso, ao decidir quando é que a entrevista termina e ao partilhar, ele próprio, as imagens do programa, desclassifica o que deveria ser um momento de alguma seriedade".

Para o sociólogo Paulo Pedroso esta é uma das marcas da presidência de Trump: "a recusa da mediação". O que aqui se evidencia "é o lado transgressor de Trump em relação às regras, e até aqui mais ou menos consensuais, sobre o modo como os políticos chegam às pessoas. Eu até creio que mais importante do que o modo como ele abandona a entrevista (algo que, não sendo frequente, até nem é propriamente inédito) é o modo como ele encenou em seu favor uma situação que tinha tudo para lhe ser desfavorável, ao antecipar a divulgação da gravação. No fundo, foi ele que produziu a notícia sobre a sua saída do estúdio, nos termos que lhe interessavam".

Os comentadores residentes do magazine dos domingos analisam ainda a intervenção do chamado Lincoln Project - animado por um grupo de republicanos anti-Trump que têm em marcha um plano de afirmação das suas posições na sociedade norte-americana. E respondem à pergunta sobre se estaremos na antecâmara de algo parecido com o quadro que levou à criação da FOX.

O programa aborda, também, o momento histórico que se vive no Chile, depois de a maioria esmagadora da população ter enterrado de vez a Constituição de Pinochet. Quase 80 por cento dos chilenos votaram pelo fim do texto constitucional saído do golpe militar de 1973. O resultado da votação foi inequívoco e percebe-se que o presidente Sebastian Piñera tenha considerado que estamos perante um "triunfo da cidadania e da democracia". O Chile "regulariza" uma democracia que durante 3 décadas viveu debaixo de regras estabelecidas por um governo nascido de um golpe militar.

O programa revela ainda, através da reportagem de Teresa Dias Mendes, a espantosa realidade que alimenta as histórias contadas, todos os dias, através das redes sociais, por Sofia Vieira, a proprietária da livraria "Aqui há Gato", em Santarém, a livraria preferida dos portugueses, numa votação nacional realizada em Setembro.

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