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António Manuel Venda, escritor: O santo que fugia do altar e "um dia asselhou" e outras histórias

António Manuel Venda, 52 anos, escritor, natural de Monchique. Uma dezena de romances, novelas, livros de contos publicados desde 1996. Nesse ano surgiu o surpreendente "Quando o Presidente da República visitou Monchique por Mera Curiosidade". O seu segundo romance, "Os Abençoados Fiéis do Senhor São Romão" (cuja acção decorre em Alferce, em 1911), acaba de ser reeditado na On Y Va. Com a mesma chancela acaba de sair o primeiro livro de poemas deste autor, "O cão atravessa a cidade".

É com a leitura de um dos poemas desse livro que começa uma conversa sobre bichos e homens da serra algarvia e as estranhas histórias com ou sem mão de bruxa que por lá sucedem.

"Esse cão que atravessa a cidade", confidencia o escritor à conversa com o jornalista Fernando Alves, "é o mesmo com que me cruzo quando ando pelas montanhas do sul. Ele veio com o dono à cidade".

Nos romances de António Manuel Venda há sempre cães ladrando ao fundo dos povoados ou metidos em sarilhos. Assim os homens. Daí a pergunta do editor da "Rede Social": A homens e bichos podem acontecer as mesmas desditas? "Foi assim que aconteceu à minha vida", responde o escritor. "Isso é algo absolutamente normal, para mim. Reconheço que há muita tendência inventiva em muito do que escrevi, mas com frequência aquilo que escrevo parte do que me aconteceu. Ao contrário do que alguns possam pensar", remata António Manuel Venda, "não sou sequer muito imaginativo.

Quando a vaca de Manuel Pizão perdeu o mugir, começou Severino Castanho a mugir. Mão de bruxa, claro. Quando a bruxa desfez o feitiço, Severino recuperou a fala, mas ganhou uma cauda de cão. "Aí, apanhou-me", responde António Manuel Venda. "Eu lembro-me exactamente do momento em que escrevi isso. Eu estava em Lisboa, era um jovem universitário com dificuldade em acordar, aparecia geralmente a meio da primeira aula, mas lembro-me desse dia em que acordei às cinco da manhã e tive de escrever esse capítulo. Essa história foi inventada. Mas a maioria das histórias contadas nesse e noutros livros resultam do que me era contado pela minha avó materna. As histórias da bruxa remetiam para uma bruxa que havia no sítio da Pedra Branca. O que eu fiz foi chamar ao lugar Corte da Pomba. Só lhe mudei o sítio.". Recentemente, António Manuel Venda convidou um homem antigo do Alferce para a apresentação da reedição do romance. "Aquilo era uma realidade muito próxima para ele. E ele disse-me que ainda gostava de conhecer a família da bruxa da Corte da Pomba".

E o santo de São Romão, tantas vezes encontrado num faval, nunca mais fugiu? "Agora está na igreja da aldeia e nunca mais fugiu. Mas no tempo da minha avó, quando o traziam de volta, da Umbria ou de outros lugares, fugia logo. Até que um dia asselhou".

O verbo asselhar, tal como era usado pela avó do escritor, leva dois ésses, sim senhor. "Foi assim que a minha avó contou. O santo fugia, iam buscá-lo, fugia de novo, até que um dia asselhou".

Não é a única estranha palavra nesta conversa que se perde pelos caminhos da serra de Monchique, habitada por escalavardos e cujos pontos mais altos, a Fóia e a Picota são, tal como os descreve o escritor, dois dinossauros adormecidos.

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