A Rede Social

As conversas de olhos nos olhos alargam e enriquecem a nossa rede social. A Rede Social, a entrevista de Fernando Alves.
Às terças-feiras, depois das 19h00.

"Aos seis anos soube que aqueles acamados vinham da 'nossa' guerra. Nunca mais fui igual"

Joana Pontes realizou, na SIC e na RTP, alguns dos documentários mais importantes da televisão portuguesa nas últimas décadas.

Os sete episódios de "Portugal, um Retrato Social" ou a longa-metragem documental "As Horas do Douro", em co-autoria com António Barreto (que recebeu o prémio da Sociedade Portuguesa de Autores, em 2011), bastariam para sublinhar a sensibilidade, o rigor, a seriedade que Joana Pontes coloca no seu trabalho. Mas não podemos esquecer a série "O Valor da Liberdade". Tal como nunca esqueceremos o belíssimo documentário "O Escritor Prodigioso" que arrebatou, em 2007, o Grande Prémio da Lusofonia e no qual Joana Pontes nos leva à casa de Jorge de Sena, em Santa Bárbara, Califórnia, povoada de tantas recordações do genial autor de "Sinais de Fogo".

Joana Pontes, licenciada em Psicologia, doutorada em História, pelo ISCTE (na especialidade Impérios, Colonialismo e Pós-Colonialismo) é a convidada desta emissão d' A Rede Social, na sequência da publicação, pela editora Tinta da China, do livro "Sinais de Vida". O livro ( que reúne cartas da guerra) resulta da tese de doutoramento de Joana Pontes.

Entrevistada pelo jornalista Fernando Alves, a autora explica o que a levou a consultar 4400 cartas e aerogramas e de que modo teve acesso a este manancial único de informação: " Este manancial resultou de uma recolha de material para o Arquivo Histórico-Militar. Quando estreou a série "Século XX Português", os jornalistas do Telejornal perguntaram-me qual tinha sido o aspecto mais relevante com que me defrontara na preparação do trabalho. Respondi que era o estado em que se encontravam os arquivos, com falta de dinheiro e de pessoas. A situação, aliás, ainda se mantém. No dia seguinte, recebi uma chamada telefónica de uma agência de publicidade que queria oferecer uma campanha para recolha de património para os arquivos. E eu propus ao coronel Aniceto Afonso (na altura director do Arquivo Histórico-Militar) que aproveitasse a campanha e trouxesse para o Arquivo o que se estava a perder.".

E o processo teve o seu curso, com cartas da I Guerra e da Guerra Colonial. Joana Pontes lembra que muito deste material se foi perdendo: "Às vezes, há maços de cartas à venda na Feira da Ladra. Mas muita correspondência foi usada para aquecer as lareiras". Entretanto foi criada a Liga dos Amigos do Arquivo Histórico-Militar. "Com a campanha, começaram a aparecer acervos e espólios e alguns continham correspondência".

No texto introdutório, Joana Pontes refere as memórias que transportou durante anos, sem saber o que significavam. A primeira dessa memória remete para a infância em Luanda, quando, tinha ela 6 anos, a mãe a levou ao Hospital Militar: "Até essa altura, a minha infância era feliz", observa a autora. "O meu avô tinha um problema de asma e no dia em que a minha mãe me disse que íamos vê-lo ao hospital fiquei preocupada por ele estar acamado mas, lá chegada, nunca mais me esqueci daquele quadro: uma enfermaria, muitos soldados em camas ao lado. Ao ver aquelas pessoas, perguntei à minha mãe o que se passava. A minha mãe disse-me que eram pessoas que tinham vindo da nossa guerra . E eu fiquei a perceber que nós tínhamos uma guerra. Creio que nunca mais fui igual".

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de

Patrocinado

Apoio de