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Às terças-feiras, depois das 19h00.

Carlos Neto de Carvalho, um geólogo na pista dos neandertais

Em meados de Dezembro, o jornal El Pais escrevia que, há 30 mil anos, quando a Europa era assolada por vagas de frio e a neve cobria o rio Ebro, os hominídeos procuraram um refúgio que lhes garantisse abrigo e possibilidades de sobrevivência. Os neandertais encontraram-no no que é hoje o sul de Espanha e de Portugal. O jornal espanhol escreve em título que os últimos neandertais "veranearam no sul da Península Ibérica". A expressão é usada com humor por Joaquin Rodriguez Vidal, professor catedrático de geodinâmica e paleontologia da Universidade de Huelva. Ele integra um grupo que investiga as pegadas dos últimos neandertais no sul da península. Desse grupo faz, também parte, o geólogo Carlos Neto de Carvalho, convidado de Fernando Alves na Rede Social desta semana.

Carlos Neto de Carvalho, investigador do Instituto D. Luis da Universidade de Lisboa é membro da direcção da rede de geoparques europeus da Unesco e coordenador científico do geoparque Naturtejo.

Ele explica o que andou a fazer na linha de "veraneio" dos neandertais: "Há muito que Gibraltar assume um papel de excepção no estudo deste grupo de hominídeos, no contexto euro-asiático. A verdade é que, durante mais de um século e meio, se estudaram as cavernas existentes no grande rochedo. E ali se encontraram vestígios que permitem uma ideia bastante completa e interessante destes hominídeos, de algum modo surpreendente devido às últimas datações. Hoje está demonstrado que os neandertais sobreviveram na Eurásia até ao último período glacial, depois de terem procurado um lugar junto à costa, no ponto mais a sul da Europa, onde as condições climáticas são menos agrestes."

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A chave da descoberta realizada por este grupo de investigadores, que permitiu reformular a linha do tempo no que se refere à sobrevivência dos neandertais, está nos ossos de um adolescente de um metro e trinta encontrado em Gibraltar? - pergunta o editor da Rede Social. "Sim, está. E deve-se ao facto de termos obtido boas datações. O que é interessante no registo de Gibraltar, para lá das cavernas, tem a ver com a existência de condições sedimentares que permitiram a fossilização não apenas dos animais que, porventura, eram caçados pelos neandertais mas também a permanência do que se considera ser uma pegada produzida por um hominídeo jovem.

Ele deixou a sua marca para sempre em rochas de origem dunar, numa grande rampa dunar fossilizada que se encontra datada de há 28 mil anos, trazendo para muito mais próximo de nós a sobrevivência destes hominídeos. Há, entretanto, registos surpreendentes em Portugal, na rocha de Enxarrique em Vila Velha de Rodão, de indústrias líticas realizadas pelos neandertais, datadas de há 33 mil anos. Isso significa que já havia uma ideia de que o homem de Neanderthal terá sobrevivido aqui até mais tarde do que no resto da Europa".

Estamos a falar de um tempo em que a serra da Estrela tinha "vários glaciares". O clima era mais frio mas havia o Tejo, o grande rio que amenizava o clima e configurava uma zona de convergência de animais da época que eram caçados pelos neandertais. Alguns eram animais de grande porte. Elefantes? "Até se discute a presença de mamutes, que possam ter feito incursões a partir do norte de Espanha", observa o geólogo. "De qualquer modo, as observações que fizemos em Gibraltar e outras na zona do Alentejo vêm suportar a tese de que o elefante europeu andou na Península".

E a conversa corre o fio do tempo do trabalho do geólogo Carlos Neto de Carvalho, cuja atracção pela disciplina terá começado aos 6 anos quando o actual coordenador científico do geoparque Naturtejo começou a ir com os pais para longe do asfalto. A Lagoa de Albufeira foi um dos primeiros lugares em que deu largas a uma paixão com muito caminho para andar.

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