América Vinte Vinte

Parceria entre a TSF e a FLAD – Fundação Luso-americana, América Vinte Vinte aborda as eleições nos EUA a 3 de novembro nas suas variadas dimensões. Na política, na sociedade, na economia, na ciência, nos livros, na música, no cinema. Donald Trump e Joe Biden, um deles vai ser o próximo presidente dos Estados Unidos da América. No debate com especialistas, na análise da atualidade, contamos tudo.
Com Ricardo Alexandre, para ouvir às quintas-feiras, depois das 15h00 e em permanência em TSF.pt e nas redes sociais da FLAD.

"Os atores políticos estão a apostar na radicalização do discurso"

Uma eleição elevada a um patamar de confrontação excecionalmente antagonística. Julie Wronski, cientista política na Universidade do Mississippi afirma - citada no New York Times - que Donald Trump se comporta como "um presidente em tempo de guerra", defendendo a sua - dele - base de apoiantes dos liberais de esquerda - no sentido americano - que lhes querem roubar a América deles.

Thomas Edsall, colunista do New York Times, que escreve semanalmente a partir de Washington, escrevia esta semana que "os termos apocalípticos" tomaram conta desta eleição de 2020, com implicações potencialmente perigosas.

Foi este o mote para a conversa, na TSF, com dois especialistas:

Luís Nuno Rodrigues é doutorado em História Americana pela Universidade do Wisconsin e em História Moderna e Contemporânea pelo ISCTE. Atualmente é Professor Catedrático no Departamento de História do ISCTE-IUL e Diretor do Centro de Estudos Internacionais no mesmo ISCTE. Coordena o Mestrado em Estudos Internacionais na mesma instituição. Em 2006 e 2008 foi Visiting Professor na Brown University, nos Estados Unidos da América. Tem como uma das áreas de especialização a História dos Estados Unidos da América. Uma das muitas publicações, editada precisamente pela FLAD, foi "Regimes e Império: As Relações Luso-Americanas no Século XX".

Diana Soller, coautora do livro "Donald Trump - O Método no Caos" (com Tiago Moreira de Sá), é investigadora associada no IPRI-NOVA e desenvolve projetos nas áreas de ordenamento internacional, política externa dos Estados Unidos e populismos comparados. Doutorada em Ciência Política e Estudos Internacionais na Universidade de Miami, onde elaborou a tese "The Democratic West and the Democratic Rest: Searching for the New Liberal International Order". Foi bolseira Fulbright nos EUA, investigadora visitante na Fundação Getúlio Vargas (Rio de Janeiro) e na Observer Research Foundation (Nova Deli) bem como assessora de estudos no Instituto da Defesa Nacional.

Para Diana Soller, analisando a campanha na centralidade que a pandemia e a recuperação económica após o confinamento, além do racismo "como problema social profundo", a grande questão é saber "o que é que a América quer ser de 2020 para a frente"? Para a investigadora, estão em causa "dois futuros alternativos para os EUA que, por vezes, parecem quase irreconciliáveis". Que tipo de nacionalismo será adotado pelo país? "Temos uma proposta, que conhecemos bem, de Donald Trump e que é encapsulada no slogan "América primeiro", um país mais soberanista, mais nativista, mais protecionista e fechada em si própria e menos líder internacional"; ao passo que, do outro lado da contenda, há "uma proposta de América que não sabemos ainda exatamente qual é, porque Joe Biden não tem sido muito claro na sua campanha, mas que nos faz pensar que estamos a voltar um bocadinho à era Obama".

Apesar de Joe Biden estar à frente em todas as sondagens nacionais e mesmo em muitos dos chamados swing states, Luís Nuno Rodrigues lembra que "as eleições nos EUA não se decidem por uma maioria do voto popular. O que será importante perceber é como é que essa votação, estado a estado, vai depois ditar a composição do colégio eleitoral, que é quem vai depois eleger o presidente".

Na estreia do América Vinte Vinte na TSF, os investigadores coincidiram na preocupação sobre o atual momento de elevada crispação social e política nos EUA, considerando Diana Soller que o atual presidente "está a olhar para o eleitorado liberal conservador", isto é, os que são mais à direita no partido democrata, enquanto Joe Biden tenta puxar para o centro um partido com uma base "com uma agenda cada vez mais progressista, que está a tomar conta do partido". A investigadora da Universidade Nova de Lisboa, sobre o atual presidente "não digo que seja um fascista mas é um demagogo".

O site conservador O Federalista, dirigido por John Daniel Davidson, avisou esta semana que os protestos e tumultos dos últimos três meses pelos movimentos Antifa e Black Lives Matter são uma espécie de balão de ensaio para o que a esquerda está a planear se Trump vencer a eleição: "estão a preparar o palco para um golpe se Trump vencer".

À esquerda, o site "Daily Beast" vai no mesmo tom. O editor político Dam Stein afirma: "vamos lutar para proteger os Estados Unidos do que realmente vemos como um presidente que saiu dos trilhos e levou este país por um caminho fascista autoritário". JJ McNab, um membro do Programa sobre Extremismo da Universidade George Washington, disse ao Subcomité de Segurança Interna da Câmara dos Representantes numa audiência sobre Informações e Contraterrorismo: "entre questões de controlo de armas, agitação civil, tensões colocadas no país por uma pandemia mortal, teorias da conspiração, sentimentos anti-imprensa e um ciclo eleitoral altamente divisivo, a nação não está longe da violência. Soller admite que é "um país com pouca paz social neste momento".

Seth Jones, diretor do Projeto de Ameaças Transnacionais no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, disse ao articulista do New York Times "há vários fatores que tornam a violência pós-eleição provável". O mais importante desses fatores é a suposição de que há grupos extremistas de todos os lados - supremacistas brancos, milícias, anarquistas e antifascistas, para citar alguns - de que os outros estão preparados para a violência se a eleição não lhes correr bem.

O Transition Integrity Projet, que é critico do atual presidente mas que reúne gente dos dois partidos, como John Podesta, diretor da campanha de Hillary Clinton em 2016, e Michael Steele, antigo presidente do Comité Nacional Republicano, fez já em agosto um relatório intitulado "Prevenindo uma eleição e transição presidencial disruptiva" em que dizia que as duas maiores ameaças são as mentiras sobre fraude eleitoral e uma escalada da violência.

Denunciava então, segundo o artigo agora publicado por Thomas Edsall no New York Times, que a campanha Trump e comités republicanos locais podem levar a sua base bem organizada e empenhada a sair às ruas em favor do atual inquilino da Casa Branca, usando a disseminação de desinformação sobre o perigo representado por manifestantes pró-Biden, nomeadamente o grupo Antifa (antifascistas). Para Luís Nuno Rodeigues, os atores políticos norte-americanos parecem estar a "apostar na radicalização do discurso", porque acreditam que é nessa base de eleitores mais radicalizados que podem estar os votos que podem garantir a vitória.

Há alguns meses, Donald Trump admitiu que poderia estar em curso uma fraude, dando a entender que poderia não aceitar uma derrota; há poucos dias, na revista The Atlantic, um artigo de Shadi Hamid afirmava que os democratas poderão não aceitar a derrota se Trump ganhar; mesmo que, como há quatro anos, perdendo o voto popular.

A 3 de novembro, os eleitores dos Estados Unidos da América vão decidir.

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