Conversas com Rastilho

A TSF e a Câmara Municipal de Oeiras acendem o rastilho à conversa. Na Fábrica da Pólvora não há temas tabu, assuntos incómodos ou perguntas sem resposta. Dois convidados, dois moderadores e todo o tempo para a atualidade ou para conversas à margem da espuma dos dias. Num espaço que começou a ganhar forma no século XVII, falamos do futuro, dos grandes temas da atualidade ou das pequenas causas que mobilizam a nossa comunidade. Duplas improváveis juntam políticos e artistas numa hora de conversa sem amarras moderada por Paulo Tavares e Renato Júnior. A produção está a cargo de Luísa Godinho. Para ouvir na antena da TSF na primeira terça-feira de cada mês, depois das 22h00.

Do streaming à 'Geringonça', a conversa entre Marisa Matias e Pregal da Cunha

Marisa Matias e Rui Pregal da Cunha estiveram no Conversas com Rastilho.

Marisa Matias, eurodeputada do Bloco de Esquerda e ex-candidata à Presidência da República, esteve à conversa com o fundador e vocalista da banda Heróis do Mar, numa Conversa com Rastilho onde a música, o streaming, o artigo 13 e a União Europeia estiveram em cima da mesa.

A bloquista, num frente a frente com um homem das artes, começa por dizer que "a relação com a música nunca se acaba", até porque se assim fosse "a vida era uma tristeza". Acompanhou os Heróis do Mar e há um ritual que mantém inalterado: "Chegar a casa e pôr música."

E é impossível falar de música hoje em dia sem falar de plataformas de streaming onde. Rui Pregal da Cunha admite de "dá imenso jeito", mas confessa que não usa o Spotify. Até paga aos filhos, diz, mas opta por não usar.

O músico acredita que é preciso transmitir aos jovens a ideia de que as artes são o trabalho de alguém e que tem de ser respeitado e pago.

"O que era mesmo importante era lembrar a estas gerações que estão com medo que a internet acabe que eles se calhar também vão fazer música, se calhar também vão fazer cinema e um dia vão viver daquilo ou gostariam de viver daquilo e o piratear não é por aí que se devia ir. Estou mais preocupado sempre com isso, com as pessoas acharem que é tudo à borla, e daí a minha coisa com o Spotify", explicou.

Marisa Matias, que votou contra a lei dos direitos de autor da União Europeia, justifica que há uma "grande confusão em relação à diretiva". "No início tinha uma intenção clara que era a de proteger os direitos de autor e na proposta inicial não havia nada em relação ao artigo 13, ao artigo 12, nem a censuras, nem a nada que se parecesse. Elas foram introduzidas depois pela pressão do lóbi. Em relação aos direitos de autor propriamente ditos, acabaram por não ficar grandemente protegidos", atira a eurodeputada.

A ex-candidata a Presidente da República reitera a existência de um "equívoco enorme, porque chamar a esta diretiva proteção de direitos de autor é um engano, não protege". "Se falarmos com representantes de autores, reconhecem o que foi o recuo nessa diretiva. Ela não serve para proteger os autores e introduz um mecanismo de censura", acrescenta.

Rui Pregal da Cunha vai mais insiste na ideia de que o facto de ser "tudo à borla" é perigoso e preocupante. "As pessoas não vão ao cinema, fazem donwload de filmes, também podem ter Netflix e pagar, mas fazem downloads de filmes. Aquela coisa do "escurinho do cinema" que a Rita Lee cantava não existe. As pessoas não curtem isso, se calhar porque vão mas... Estou mais preocupado com isso, com as pessoas acharem que é tudo à borla", afirma, lembrando que o "romantismo" pelos discos de vinil ou CDs já acabou.

"O problema não é a internet desaparecer", continua, "é dar-se a entender que tudo o que está ali é de uso público e aí é a fronteira, aí é o salário do autor que vive daquilo".

Marisa Matias defende que "esta diretiva tinha a obrigação de proteger os direitos de autor e transformou-se numa coisa completamente diferente e acho que com a implementação as pessoas vão percebendo no que é que se transformou".

"Os filtros já existem em toda a parte, o que esta diretiva faz é legitimar estes filtros. É esta diretiva que dá poder a essa grande indústria, não o contrário", acrescenta.

A eurodeputada continua pela União Europeia e critica a forma como têm sido geridos vários temas. "Na verdade, na União Europeia, do meu ponto de vista, estamos a ter um recuo democrático imenso e não é só na Hungria e na Polónia, é nos muros que se constroem, já temos metade do muro do Trump construído na UE, já temos 1200 quilómetros de muro construído por causa das questões relacionadas com os refugiados. Na UE ou em território controlado pela UE, como Ceuta, mas estamos a entrar num terreno muito perigoso, mais de desunião do que propriamente de união", alerta a eurodeputada.

Marisa Matias critica, dizendo que "a UE tem sempre muita disponibilidade para apontar o dedo às violações de direitos humanos noutras partes do mundo e fechar os olhos ao que se passa cá dentro".

" O que se faz em relação a países como Itália ou França pela forma como tratam os migrantes? Também é uma violação do estado de direito, a forma como se está a tratar e a torturar e a deixar em condições desumanas as pessoas que procuram a Europa", ressalva.

E quando a conversa chega aos populismos, regressa-se à música para se recordar que os Heróis do Mar chegaram a ser acusados de terem conotações fascistas. Marisa Matias não se recorda, já Rui Pregal da Cunha lembra bem esses tempos.

"Nós éramos outro país, a democracia era jovem, tínhamos pouco mundo... as cosias liam-se como apareciam, da forma mais rápida e simples de simplificar", explica, frisando que até o vestuário proporcionava comentários e acusações.

"Acho que se deu a volta, deu-nos uma notoriedade... Isso depois desapareceu, as pessoas entenderam que era arte", disse.

E do passado para o presente, um dedo de conversa sobre a "Geringonça", com Marisa Matias a dizer que não cabe aos partidos fazer "projeção antes que as pessoas votem". "Qualquer configuração que se faça antes da eleição é um desrespeito total por quem vai votar", acredita a eurodeputada.

A bloquista acredita que, "com todas as limitações que teve", a experiência dos últimos quatro anos foi "positiva porque permitiu quebrar com o mito de que só se podia governar dentro do chamado arco da governação e que não podia haver apoio de outras forças políticas ou parlamentares, em segundo lugar porque foi um exercício exigente de negociação permanente com muitas coisas boas e com muita frustração também".

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