Levante-se o Réu

Crónicas de justiça de Rui Cardoso Martins. São relatos de vidas que se cruzam com o poder da lei, o braço da justiça e as circunstâncias de cada um. E quando se levanta o réu, é o juiz que decide. Às sextas, depois das 18h30.

Não quero mais o meu filho

Ouvi na rádio, agora mesmo, um especialista dizer que o crime de violência doméstica contra idosos duplicou no ano passado. Está explicado o que tenho visto nos tribunais. Um caso, depois outro e ainda mais um. Os nossos velhos pais e mães batidos, insultados, roubados.

O filho estava no banco dos réus. Viveu com a mãe entre 2015 e 2022. Há seis meses saiu. O filho descolava os factos para a irrelevância e a surpresa, como contasse um filme ou o caso de outra pessoa.

- Foram-me retiradas as chaves de casa. Estava a sair e apareceram quatro agentes que me pediram as chaves.

Quase todos os insultos do calão português estavam no processo. Pensem nos mais rascas e violentos, também lá estavam.

- Não me reconheço nisso, disse o filho.

- Mas é possível ter dito?

- Não me recordo disso e não me identifico.

Em sua defesa, entregou dois relatórios psiquiátricos.

- Mas foi-lhe comunicado a si se padece de alguma doença?, perguntou a juíza.

- Até agora só me disseram... Chamam a isso um distúrbio de humor.

Um dia, trancou a porta de entrada. A mãe ficou lá fora, teve de dormir na vizinha.

- Eu nessa noite estava com a minha namorada. E eu sabia que havia outra chave na vizinha, disse o filho.

Entre 7 e 11 de Janeiro deste ano, retirou de casa várias peças da habitação da mãe.

- Eram coisas que eu usava para os meus desenhos. Além de ser distribuidor de pizas, sou artista plástico.

- Mas tinha coisas da sua mãe?

- Não.

Um dia, tirou o cartão multibanco da mãe, conhecia o código e retirou duas vezes 200 euros, o máximo diário.

- Esse dinheiro foi devolvido passados uns dias. Encontrei o cartão no chão da sala e por acaso lembrava-me do código, porque eu fazia alguns recados à minha mãe. Não me recordo porque o fiz.

Tinha mais uma explicação, aquela que um dia pertencerá à história de nós todos, ou já pertence:

- A morte do meu pai, que acompanhei nos últimos tempos de sofrimento... o covid, etc., foi duro para toda a gente... fiquei sem trabalho, tudo isso contribuiu para a degradação do meu bem estar.

O advogado tentou que o filho admitisse estar arrependido, mas foi imediatamente cortado pela juíza.

- Sotôr, o arguido não admitiu nada... só o caso do cartão e que logo devolveu o dinheiro! Nem sequer admite que tem uma má relação com a mãe! Vai ter de explicar ao tribunal do que é que está arrependido.

E virou-se para o filho:

- O senhor está arrependido de alguma coisa?

- Estou arrependido de ter chegado aqui.

- Mas arrependido... do quê?!

- Estou preocupado que a minha relação com a minha mãe tenha terminado.

Por uma vez, acertou na ferida. A juíza mandou sair o filho para a mãe falar à vontade. A mãe entrou:

- O chegar a este processo tem a ver que, a certa altura, tive medo do que o meu filho me fizesse.

E contou que a casa foi toda virada ao contrário, que o filho lhe levou a carta de condução que, até agora, não apareceu, que ele trancava a porta da rua e as de dentro, que a abanava pelos pulsos e, agora, no tribunal, a mãe lembrava "quando ele crescia para mim com aqueles olhos abertos!", e os insultos que teve de repetir saíam-lhe da boca como refluxos ácidos do estômago, queimando tudo.

- Sentiu medo?, perguntou a advogada.

- O que eu senti mais foi uma mágoa. Eu sou mãe.

- Quer o afastamento do seu filho?, perguntou a juíza.

- Sim. Eu não o quero nunca mais na minha casa.

A senhora terminou e saiu, virando as costas ao filho.

Um distúrbio de humor, disse ele. Quanto ao amor, parece que saltou do coração da mãe, e se calhar ronda, assobia pelas paredes da casa da velha senhora, como certas dores que só nos atacam à noite, na escuridão.

O autor escreve de acordo com a anterior ortografia

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