Levante-se o Réu

Crónicas de justiça de Rui Cardoso Martins. São relatos de vidas que se cruzam com o poder da lei, o braço da justiça e as circunstâncias de cada um. E quando se levanta o réu, é o juiz que decide. Às sextas, depois das 18h30.

Um espeto nas costas

Espetar uma faca nas costas é imagem de traição, mas o que é que acontece quando o que se espeta nas costas é uma "coisa aparentada a um espeto"? Ainda serve de exemplo? Enfim, também existe a expressão "casa de ferreiro, espeto de pau" e parece que foi isso que se passou com um guarda prisional entre Lisboa e o Porto. Como um peixinho de aquário, o guarda esqueceu-se de todos os pormenores da rixa e do crime a que assistiu no estabelecimento prisional de Lisboa.

Um preso enfiou um espeto nas costas de outro preso, e logo a seguir na cara deste. Mas, no dia do julgamento, nem o preso que é réu, Olívio, nem o preso que é vítima, Rui, nem o preso que era testemunha, Nelson, aparecem no tribunal porque há greve, precisamente, dos guardas prisionais, que começou há semanas e ameaça durar, com sucessivos prolongamentos, até ao Mundial de 2026. O caso é sério, o acusado Olívio cumpre uma pena de 13 anos. E ao guarda, testemunha fundamental do processo, parece que uma borracha lhe borrou as meninges. Não se lembra de nada, nada, enquanto fala com a juíza e a procuradora, por videoconferência desde o Porto, onde está agora colocado. Vou eu lembrar conversas que a procuradora tentou ter com o guarda.

Sobre o nome do arguido, o homem que espetou, disse o guarda:

- Assim, pelo nome, não. Se é um recluso, nós costumamos tratá-los por números, ou assim. Ou se calhar por... Pelo nome, não. Se me explicar a situação, talvez eu me lembre.

Sobre o nome do homem que foi espetado, o guarda, lá dos confins da Internet, largou um ruído de motoreta num atalho do campo.

- Ahhhhhhhh... Sim, sim... Não, não me recordo! Sei que... pelos nomes não me recordo.

Sobre o dia em que o espeto espetou:

- Recorda-se de uma situação de agressão a um recluso, por outro?

- Eu lembro-me de uma situação qualquer, mas sinceramente são tantas coisas assim que...

- Na Ala B.

- Sim, na ala B era onde nós trabalhávamos.

- E recorda-se de algum tipo de agressão, designadamente com um objecto...?

- Não sei. Vidros, seria?

- Não, não. Será qualquer coisa aparentada a um espeto artesanal?, adiantou a procuradora, a ajudar.

- Ah sim, sim, mas acho que essa coisa foi apanhada.

- Sim, mas diga-nos lá alguma coisa desse caso.

- Ah, sinceramente, muito vago. Já lá vai muito tempo, lembro-me muito vagamente.

- Foi o senhor que fez o auto?

- Não me recordo. Se fosse ver a cara deles, se calhar ia-me lembrando da situação.

Então, a procuradora perdeu a paciência e disse:

- Sendo assim, vou requerer que o senhor esteja presente em audiência de julgamento. Também é preciso confrontá-lo com documentos.

- Sim, mas eu trabalho... eu não estou em Lisboa.

- Pois, mas terá que vir cá. É o seguinte, o arguido não veio, nem a testemunha, por causa da greve, precisamente, dos senhores. Os senhores estão em greve há não sei quanto tempo... apesar de ser um direito vosso... e, se não fosse a vossa greve, tanto o ofendido como o arguido teriam vindo. Pode haver desistência de queixa, pode ser que o arguido confesse e então já não preciso do seu depoimento, agora poderá acontecer que eu venha a precisar. Ora se o senhor guarda me diz que não se lembra de nada e eu tenho aqui um auto que eu quero que o senhor veja...

- Sim, está bem... Mas eu aí teria de fazer 800 quilómetros, como deve compreender também é um bocadinho...

- Eu compreendo, mas o senhor vem para um julgamento e não sabe ao que vem, isso aí eu não compreendo!

- Como deve compreender, só este ano tive uns 20 julgamentos, terminou o guarda. Não tenho culpa de não ter as coisas porque estão aí!

Isto está muito bem organizado, não está? Enquanto o espeto vai e vem, folgam as costas.

O autor escreve de acordo com a anterior ortografia

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