Mês das Hepatites na TSF

A Hepatite C continua a ser um problema de saúde pública. Este mês em que se assinala o Dia Mundial das Hepatites, a TSF sai à rua para contar as diferentes perspetivas de quem trabalha e vive com a doença. Para ouvir todas as sextas-feiras de manhã e à tarde, retratos da hepatite C em Portugal. Uma iniciativa da TSF, DN e JN, com o apoio da Gilead Sciences.

Tratar a hepatite C é fácil, mas são muitos os entraves para os médicos

Os médicos chamam-lhe uma "doença silenciosa": a hepatite C afeta o fígado, mas este não se manifesta de imediato. Quando surgem os primeiros sintomas já é tarde demais, ou só possível de resolver as complicações com um transplante hepático.

O rastreio ou teste de diagnóstico é, por isso, uma peça fundamental no processo de tratamento. O sangue é a principal via de infeção e uma simples análise é suficiente para detetar a doença.

A taxa de casos graves na infeção não tratada ronda os 30 a 40%, mas quanto mais cedo se detetar o vírus menos probabilidades existem da doença avançar para cirrose ou cancro do fígado.

O vírus da hepatite C só foi descoberto em 1989 e ainda não há vacina, mas a cura é possível graças às novas terapêuticas, introduzidas no mercado nos últimos anos.

Os clínicos de medicina geral e familiar podem ter um papel fundamental no combate à eliminação da doença, uma vez que estão na primeira linha dos cuidados básicos de saúde. A formação destes profissionais é uma etapa que a Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia, entre outras entidades, já está a desenvolver.

Atualmente, só os médicos especialistas podem disponibilizar os novos antirretrovirais, mas alargar essa valência aos médicos de clínica geral é também aumentar a base de tratamento.

Podia ser feito mais para "aproximar" os especialistas dos médicos de medicina geral e familiar, defende o presidente da Sociedade Portuguesa de Gastroenterologia, Rui Tato Marinho.

O hepatopatologista defende que é preciso "criar pontes", mas também "desfazer mitos" que persistem até entre profissionais de saúde: "Que os medicamentos são muito caros, que têm efeitos secundários, que os consumidores de drogas se infetam sempre novamente. Muitos nem têm ideia que em mil pessoas só uma não se cura."

Na mesma linha, Ricardo Batista Leite, médico e deputado, coordenador do PSD na Comissão Parlamentar de Saúde, destaca a necessidade de reforçar a formação dos profissionais.

Usando os sistemas informáticos da medicina geral e familiar podiam ser criados "sistemas de alerta para todos os doentes que encaixam um determinado perfil para se fazer de imediato o teste".

Ricardo Batista Leite defende ainda que a prescrição do tratamento devia ser alargada aos profissionais de medicina geral, à semelhança do que se faz em países como a Austrália.

"Hoje em dia medicação é de tal forma segura, sem efeitos adversos, que se o doente não tiver complicações, se não estiver em fase de doença hepática avançada, se não tiver cirrose não há nenhuma razão para ter de esperar por uma consulta de especialidade. E assim os médicos especialistas, infeciologistas, gastrenterologistas, possam reservar-se para os casos mais complexos, que infelizmente foram diagnosticados tardiamente."

Por outro lado, ressalva, esta é uma doença simples, mas não simplista, até porque "é uma doença que lida com cancro" - o trabalho dos especialistas não pode ser descartado.

Todas as pessoas que em algum momento estiveram expostas ao risco, quem quem fez intervenções cirúrgicas ou transfusões de sangue antes de 1992 e os próprios profissionais de saúde devem fazer o teste. É rápido e pode ser feito em qualquer centro de saúde, numa organização não-governamental ou numa farmácia.

No entanto, a adesão é muito pequena a nível hospitalar, lamenta Fátima Cerejo, professora da faculdade de Medicina de Lisboa, e formadora há vários anos de médicos de clínica geral. A solução passa por fazer chegar o local do tratamento às pessoas - "os médicos têm de ir ao local onde estão os doentes e não o contrário", considera.

Outro entrave ao tratamento da hepatite C em Portugal é o acesso à medicação, admite Rui Tato Marinho. Há hospitais que funcionam "a várias velocidades": no hospital de Santa Maria, em Lisboa, por exemplo, a medicação chega num mês ou dois meses, mas há hospitais "onde as dificuldades são maiores e as barreiras burocráticas ainda funcionam".

Emília Rodrigues, presidente da Associação SOS Hepatites não compreende os tempos de espera entre ses meses e um ano, diz. O tratamento da hepatite C custa quatro mil euros por doente e falta orçamento para compra dos medicamentos. "Quanto mais pequeno é o hospital, mais dificuldade os dentes têm ", lamenta.

Rui Tato Marinho concorda. O problema surge quando a aquisição do tratamento deixa de estar centralizada. "Temos mais de cem hospitais públicos e cada um pensa pela sua cabeça e gere a sua microeconomia."

"Todos os portugueses devem ser iguais, era mais justo", desabafa o presidente da Sociedade Portuguesa de Gastroenterologia.

Ao contrário de alguns especialistas, a Direção-geral de Saúde acredita que é possível erradicar a hepatite C em Portugal antes de 2030. O Infarmed contabiliza até ao momento quase 11 doentes curados.

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