Não Alinhados, com Adolfo Gutkin

"Não Alinhados", o espaço de opinião depois do jornal das 19h, com moderação de Nuno Domingues.
À quarta, depois das 19h00, a opinião de Adolfo Gutkin

É dia de regozijo e celebração: Estamos vivos!

Seguimos montados nos veleiros e navegando por todos os mares do mundo à procura de um «Porto Santo» que nos acolha para armar a nossa Barraca e fazer a nossa obra.

O sábado 27 de Março é o Dia Mundial do Teatro. Estamos tristes, feridos, sós. A pandemia é realmente mundial e trágica. Os mortos contam-se por milhões; os que pagaram com as suas vidas o cumprimento do seu dever humanitário e os mais frágeis e desprotegidos deixaram o seu lugar vazio, nas camas, nas mesas, nos palcos, na vida. Ficamos os que continuamos a lutar, a viver do único modo que sabemos e podemos: fazendo teatro.

Desde as suas origens o teatro contou sempre com dois pilares fundamentais para a sua existência: os criadores e o público (os co-criadores).

O teatro é a participação activa de uma comunidade numa representação. A Pandemia roubou-nos o público. Roubou-nos um dos pilares fundamentais para ser Teatro.

Os grupos de teatro, os criadores são agora como veleiros a procura de porto. Nesses veleiros, os tripulantes são as personagens imortais: Hamlet e Arlequino - Lady Macbeth e Ofélia - Ricardo Terceiro e Macbeth - Ariel e Caliban - Próspero e Titânia - Romeu e Julieta - Cleópatra e Bruto - Protagonistas, Antagonistas, Tetragonistas ... - os "alter ego" do nosso tempo navegando sob velas de diferentes cores, multiculturais e variopintos como os queria Miranda na Tempestade.

Infinitos, imortais, mais sós, sem o público que é parte (a outra parte) dos dois pilares fundamentais do Teatro.

Mas seguimos vivos e o nosso dever é navegar para vencer a pandemia.

Aquando a ciência e a consciência vençam a pandemia, temos que estar prontos para voltar aos nossos espaços, sabendo que todos os espaços da cidade e dos campos são propícios para o teatro se de um lado estiverem os criadores e do outro o público (os co-criadores).

Entretanto, a tecnologia da nossa época vai deixando testemunhos do nosso empenho em navegar e actuar e criar e dizer em voz muito alta que o teatro não pode morrer. Que a representação de uma representação e uma colaboração amiga, um colete de salvação para que não se perca tudo, mas não é o público, a respiração e o calor do público. Na semana passada, na TV, ouvi pelo "MEZZO" o extraordinário concerto Nº 1 de Violin e orquestra de Tchaikovsky em diferido e sem público. Os artistas entregaram tudo. Foi maravilhoso mas quando estávamos esperando um estrondoso aplauso, apareceu como um manto negro um mortal silêncio. O cerimonial estava ferido de morte. Aquilo foi injusto e trágico,
Ver os grandes artistas inclinar-se para agradecer aos ausentes era tomar consciência de uma mutilação. Nunca o silêncio foi tão vergonhoso, senti-me culpado mas era também a vítima.

Este Dia Mundial do Teatro, 27 de Março de 2021, é também o Dia do pranto teatral do mundo, mas também da esperança, da confiança na necessidade de expressão dos artistas e de enriquecimento e humanização espiritual do público.

*encenador e formador de teatro

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