Ninguém disse que isto ia ser fácil

Conversas conduzidas pelo jornalista Paulo Farinha sobre dúvidas, alegrias, angústias, sentimentos e todas as emoções que temos quando falamos de educação, parentalidade e relacionamentos. As histórias do dia-a-dia dos filhos que estão a crescer, os pais que estão a envelhecer, a relação que parece à deriva ou a família que não escolhemos mas com a qual temos de lidar. Psicólogos, psiquiatras, psicoterapeutas, terapeutas de casal, educadores, enfermeiros, pediatras, juízes, professores. E todas as pessoas que nos ajudam a falar da vida como ela é, para que ela seja mais como gostaríamos que fosse. Ou só para a entendermos melhor.

"Estou há 40 anos a ouvir pessoas com problemas semelhantes aos meus"

Podia ter sido apenas psiquiatra, psicoterapeuta, sexólogo e professor. Mas, há precisamente trinta anos, começou uma aventura na rádio e, a partir daí, o comunicador de emoções nunca mais parou. Veio a televisão, os livros, as crónicas na imprensa, as conferências. Aos 69 anos, Júlio Machado Vaz continua a dar consultas e a fazer-se ouvir todos os dias na rádio. E continua a ser o nome mais conhecido em Portugal quando se fala de relações. E da relação entre razão e emoção. Uma longa entrevista de vida e carreira, da série "Ninguém Disse que Isto ia Ser Fácil", com passagem pelos primeiros tempos na rádio, como a televisão lhe mudou a vida, a depressão pouco tempo depois de se formar, a infância, a relação com a mãe cúmplice, o pai reservado e os filhos com quem fala de tudo. E, ao fim de trinta anos de consultas, como sabe quando deve dizer a um casal que está na altura de se separarem?

Há mais de trinta anos que é uma presença regular na televisão. O Sexualidades começou há trinta anos, certo? Mas antes disso teve O Sexo dos Anjos.

Foi há trinta na rádio. Foi em 1989 que começou O Sexo dos Anjos [Rádio Nova].

Tem saudades do anonimato?

Não. Em primeiro lugar porque neste momento tenho muito mais anonimato do que tinha há dez ou quinze anos porque praticamente não tenho estado na televisão. E isso é completamente diferente. Depois, porque eu tive muita sorte ao longo de trinta anos. Tive episódios desagradáveis, mas em trinta anos foram uma minoria. As pessoas trataram-me muito bem.

Nunca teve stalkers?

Tive. Tive ameaças de morte, também. Num dos casos, com razão ou sem ela, eu achei que deveria participar à polícia. Mas atendendo ao perfil da pessoa eu depois não apresentei queixa. E não me arrependo.

Recorda-se da primeira vez que recebeu uma ameaça? O que é que se sente, da primeira vez que se lê uma coisa dessas?

Posso estar enganado, mas ameaças penso que só surgiram na televisão. Mas insultos já havia n"O Sexo dos Anjos.

Não lhe pergunto se ainda é insultado hoje em dia, porque com 67 mil seguidores no Facebook, presumo que seja insultado várias vezes.

Sim. Ainda há quinze dias ou três semanas fui ameaçado. Em relação ao "O Amor É".

O que é que disseram?

Qualquer coisa do género: "Vais acabar mal se continuares a mentir e a provocar a discórdia no povo português com O Amor É.

Hoje em dia já está mais vacinado perante essas coisas?

Estou. O que não significa nada. Mas repare, é preciso ter esta noção: eu falava de sexualidade em biomédicas. Ninguém era obrigado a ir. E eu tinha os alunos de medicina, os alunos de psicologia (os vizinhos da porta ao lado) e comecei a descobrir que aparecia gente de arquitetura, de história, etc... E aquilo era muito agradável, era ao fim do dia, a malta conversava, eles punham as dúvidas que queriam, depois íamos pela rua, os que iam na mesma direção... Era um clube de amigos. Depois aconteceu O Sexo dos Anjos, que não teve grandes problemas. Agora, o que eu não estava era preparado para a televisão.

Começou na RTP com a Ivone Ferreira, certo?

Sim, mas isso eram coisas muito pontuais. Que aliás eram deliciosas. Como eu era o último, se o programa da manhã atrasava, a Ivone dizia assim: "E agora temos connosco o Dr. Júlio Machado Vaz, que nos vai falar de ejaculação prematura. Ou antes, não vai, ia, porque estamos na hora do noticiário. Então adeus e pronto." Era divertidíssimo.

Por falar em ejaculação prematura...

Era, era... Agora, depois na televisão eu não estava preparado para mudar de registo. Nem queria. A televisão não tinha nada a ver. Eu lembro-me de o Carlos Cruz me perguntar: "você faz alguma ideia de quantas pessoas o estão a ver?" E eu: "Não". E ele dizia assim "trezentos mil" ou "duzentos mil..." Esses zeros não querem dizer nada. Porque o programa era gravado e embora houvesse muitas vezes convidados, as partes eventualmente mais complicadas, digamos assim, eu fiz sempre questão de as fazer sozinho.

Para não condicionar ninguém...

Para não meter no barco outras pessoas. Tinha três operadores de câmara, tinha a realizadora e o Carlos Cruz na régie e isso para mim era completamente pacífico.

Mas de repente, saber que trezentas mil pessoas estavam a ver aquilo...

De repente começaram a acontecer as coisas mais espantosas para alguém que não estava habituado a isso. Uma vez, eu estava em Lisboa parado num sinal de trânsito e um tipo numa moto meteu a mão pela janela aberta, bateu-me no ombro e disse: "continua que eu gosto de te ver". E arrancou. Essa ficou-me porque eu fiquei completamente alapardado, como se diz aqui no Porto. Depois foi muito curioso ver as diferenças. As pessoas vinham ter comigo muito mais vezes, com muito mais à vontade em Lisboa do que no Porto.

Porquê?

Eu acho que tem a ver com o que é o Porto. O Porto é comedido.

É mais reservado. Mais metido para si.

É. Basta dizer-lhe isto: durante anos havia muita gente no Porto que pensava que eu era de Lisboa porque fazia o programa [Sexualidades]. E como nós estamos habituados a que tudo se passa em Lisboa, havia pessoas que vinham ter comigo e diziam: "Então, está de visita?" E eu respondia que não, que sou do Bonfim. Nasci cá. "Ah sim, então como é que faz?" É muito curioso. Lembro-me de o Carlos Cruz me dizer: "Quer que ponha alguém a selecionar casas para você depois ir escolher?" E eu: "Escolher para quê?" "Então, você vai ter que alugar ou comprar uma casa em Lisboa. Está cá a fazer o programa, depois vai fazer outros..." "Não, não. Eu vivo no Porto, venho cá e acabou."

Ia todas as semanas a Lisboa gravar.

Sim, todas as semanas. Eu cheguei a vir de Lisboa às quatro da manhã para ainda vir dormir duas horas à minha cama.

Pelo palco que é a televisão, chegava a muita gente e que ajudou a mudar a vida de muitas pessoas. Na altura não tinha noção disso, pois não?

Não. Na altura não tinha.

E hoje?

Hoje o que acontece é que muita gente vem ter comigo. E ainda vem a falar dessa altura. E como passou muito tempo, já ouço outras gerações. Há pessoas que vão ao meu consultório, que nunca viram o Sexualidades, e dizem: "Os meus pais viam o seu programa quando eram namorados, eu disse que precisava de falar com alguém e eles disseram para ir falar com o tio Júlio". Lá em casa sou conhecido pelo tio Júlio.

Sente o peso dessa responsabilidade?

Sinto. E também sinto uma enorme gratidão. Quando uma pessoa me diz "o senhor ajudou-me", eu não posso aspirar a mais.

Estamos a fazer esta entrevista em Serralves. Já gravou aqui um programa de televisão com a Ana Mesquita.

Sim. No fundo, um derivado d"O Amor É.

A Ana foi justamente uma das suas cúmplices n"O Amor É. A segunda. Esteve dois anos com o António Macedo. Outros dois com a Ana Mesquita. E agora está há onze com a Inês Meneses. Era diferente falar dos temas do programa com o António, que é um homem, do que era falar com a Ana ou agora com a Inês?

Seguramente. Eu e o António somos praticamente da mesma idade. E, portanto, havia aquela sensação da mesma colheita. Depois, temos pontos de vista muito semelhantes em diversas áreas da vida - com exceção do futebol, em que eu sou benfiquista e ele é sportinguista. O tempo do programa com o António era assim uma festa de dois adolescentes.

Fala com ele com frequência?

Ao telefone. Menos do que devíamos, é verdade. Mas falo.

Tem saudades dele, quando passam muito tempo sem se verem?

Tenho. A véspera da gravação do programa era uma noite de gargalhada. Tínhamos de decidir do que é que íamos falar e era muito, muito bom. De tal maneira que nós fizemos muitas vezes o programa em direto.

E com a Ana? Dois anos com o António, dois anos depois com a Ana Mesquita. Quais eram as principais diferenças?

Eu compreendo perfeitamente a lógica da sugestão que me foi feita. O que me foi dito foi: "Vocês divertem-se desalmadamente, mas é bom não esquecermos que a metade maior da humanidade são mulheres."

Havia temas que ficavam de fora por serem dois homens a falar deles?

Não. Mas embora eu não seja um defensor daquelas visões essencialistas ("isto é tipicamente masculino, aquilo é tipicamente feminino"), é evidente que [a diferença de género] enriquece. Eu não conhecia a Ana, mas um dia almoçamos ou jantámos juntos e, como hoje se diz, estávamos em sintonia, era uma boa onda, e começámos.

E agora, há onze anos, a Inês Meneses, a sua cúmplice mais antiga. De quem entretanto se tornou amigo...

É verdade. Como dos outros dois.

Quando está muito tempo sem falar com a Inês - quando chega o verão e vão de férias, por exemplo -, ficam com saudades um do outro?

Não posso falar por ela. Para mim, a primeira sensação é de estranheza. Temos os nossos rituais [para preparar o programa], falamos muito, sugestões para lá, sugestões para cá... Se a algum de nós não apetece muito falar de um tema, explica ao outro porquê... E depois há o ritual de fazer mesmo o programa. Todas as semanas.

Continuam a gravar à quarta-feira?

Todas as quartas-feiras. Aquilo faz parte da minha vida há 15 anos. Quer dizer, já não me lembro se com o António era também às quartas. Mas o que acontece é que em agosto nós ficamos livres para falarmos - a maior parte das vezes é por SMS ou por e-mail e de vez em quando telefonamo-nos - de coisas que não têm nada a ver com o programa.

Nunca se aborrecem um com o outro?

Bem, hoje em dia há muita gente que diz que o segredo de uma boa relação é não estarmos sistematicamente juntos. Se calhar nós os dois tiramos partido dessa teoria. Mas não. Não me lembro de algum conflito sério entre mim e a Inês.

Preparam o programa com alguns dias de antecedência, debatendo os temas, trocando mensagens... Ainda recebem muitas sugestões de ouvintes?

Agora menos. Mas a culpa é nossa. O que aconteceu é que, a determinada altura, nós já não conseguíamos controlar o e-mail que havia. Por isso acabámos por tomar muito mais as rédeas da questão.

O professor grava o programa no Porto. A Inês está em Lisboa. Sei que preferem a distância porque quando estão juntos ficam um pouco inibidos.

Eu não sei se isso ainda está atualizado. De nós os dois, quem argumentava dessa forma era a Inês. Posso-lhe perguntar, mas tenho muitas dúvidas que hoje em dia ela ainda se sinta inibida.

Para lá do programa (e sei que isso ocorre sobretudo no verão, já me disse), desabafa com a Inês quando tem algum problema, quando tem alguma questão que o preocupa?

Já aconteceu.

E ela consigo?

Ela já teve a gentileza de, de vez em quando, falar da sua vida comigo.

Além da Inês, quem é que o professor procura quando precisa de desabafar?

A tribo.

Os seus filhos e os amigos mais próximos...

Isso é complicado, porque por vezes há temas que eu não quero falar com os meus filhos (para não os preocupar) e esses são assuntos que eu abordo com amigos.

Tem um núcleo duro a quem recorre para falar?

Tenho. E - mea culpa, mea culpa - com o passar dos anos foi-se tornando difícil adicionar mais gente (mas acho que isso se passa com a maioria de nós). O núcleo duro tem estado estável nos últimos anos.

Quantas pessoas tem o seu núcleo duro?

Umas oito, dez pessoas.

Nas pessoas a quem recorre para desabafar, sente que não precisa de dizer tudo? Eles entendem as meias palavras, os silêncios...

Sim. Muitas vezes. E por duas razões principais: em primeiro lugar nós não somos tão originais como se possa pensar. Portanto, os problemas com que nos debatemos são comuns a muitos de nós. E depois há também a minha experiência profissional. Ou seja, sendo eu um psiquiatra basicamente de neuroses, estou há quase quarenta anos a ouvir gente com problemas semelhantes aos meus. Às vezes até tenho momentos de surpresa e penso: "Isto é uma extraordinária coincidência. Eu ando às voltas com coisas semelhantes."

Também já passou por um processo terapêutico. Antes dos 30 anos.

Sim. Aos 28 anos eu estive na Suíça, em estágio. Hoje, volvidos quarenta anos, pese embora o que em termos profissionais aprendi nesse quase ano, não tenho a menor dúvida que a minha decisão de ir para a Suíça foi uma fuga face à depressão. Eu estava a deprimir.

Foi uma fuga para a frente?

Sim. Foi uma fuga para a frente.

Custou-lhe perceber que estava a passar por uma depressão?

Foi muito doloroso. Desde logo porque houve uma altura em que eu não conseguia trabalhar.

O que sentia? Não queria sair de casa?

Estava fóbico. O simples pensamento de ir fazer consulta cobria-me de suores frios.

Quanto tempo passou até procurar ajuda?

Eu ainda procurei ajuda na Suíça. Se tudo tivesse corrido idealmente, se eu me tivesse aguentado, eu teria feito a minha psicanálise lá e quem sabe se não poderia ter ficado na Suíça. Em termos de condições de trabalho eu estava satisfeitíssimo. E estava a aprender desalmadamente. Não só ao nível da psicoterapia, mas estava também a descobrir a sexologia, que em Portugal não existia.

Foi na Suíça que descobriu a sexologia clínica?

Quando cheguei a Portugal fiquei a saber que havia pessoas que tinham descoberto antes de mim. Como o Chico Allen Gomes, o [António Pacheco] Palha, o Afonso Albuquerque, etc. Mas eu não aguentei. Fui-me completamente abaixo e pirei-me para Portugal.

O facto de ter passado por um processo terapêutico e o facto de ter tido uma depressão fá-lo perceber melhor quem o procura nesse contexto?

Posso garantir uma coisa: quando as pessoas me dizem, em relação à ansiedade, em relação à depressão, "o senhor não imagina o que isto é", eu respondo: "não preciso imaginar, eu sei o que isso é". Agora, nós temos é estilos diferentes. Não estamos todos ansiosos da mesma maneira, não estamos todos deprimidos da mesma maneira. Basta dizer-lhe isto: quando eu disse - com a maior das ingenuidades, se calhar - que tinha estado deprimido, houve colegas meus, com a melhor das intenções, que me telefonaram. "Tu suicidaste-te profissionalmente. Quem é que vai querer pedir a ajuda de um psiquiatra que disse, a quem o quis ouvir, que tinha estado deprimido?"

Mas não devia ser o contrário? Isso não daria a esse psiquiatra ferramentas diferentes, um know how diferente, para lidar com essas situações em terapia?

Não sei. Sei que as pessoas confiaram em mim.

O facto de ser psiquiatra fez de si um paciente diferente? Mais resistente? Mais complicado?

Um dia você vem ao Porto, vamos ter com o hoje em dia meu bom amigo Dr. Jaime Milheiro, que foi meu psicanalista, e podemos perguntar-lhe isso. Em termos gerais, e porque eu próprio já fiz psicoterapia a colegas (e aqui é preciso distinguir entre colegas de outras especialidades e psiquiatras ou psicólogos), isso pode criar dificuldades adicionais.

Porquê?

À primeira vista nós pensamos: "São da mesma máfia, tudo isto corre mais depressa". Ora, não necessariamente.

Porque eles defendem-se melhor?

Sim. Mas cuidado, não estou a dizer que é consciente. Até porque, como compreende, estar conscientemente a defender-se é uma coisa cara. Nós pagamos. Irmos para lá torpedear de propósito aquilo, ou somos muito ricos e é uma espécie de desporto, ou é burrice. Mas inconscientemente pode acontecer, sim. E não é só isso: como nós, perante uma determinada associação livre e determinada interpretação de ensaio do terapeuta (que está a tatear para ver se vai em boa direção), temos tendência para perceber o caminho que ele está a seguir, às vezes podemos entrar em competição. Ele começa a analisar e nós damos um pulo para a frente. Ora, isso em termos terapêuticos não é bom.

E não é cansativo? Desgastante? Às tantas andam ali numa espécie de braço de ferro. Quem é que está a analisar quem?

Aí está. E até lhe conto uma história: antes de eu ir para a Suíça, pedi ajuda a um homem de quem eu gostava muito e que era psiquiatra e psicoterapeuta. Ele conhecia-me, era visita da casa, e por isso nunca poderia ser meu terapeuta, mas eu sentia que não estava bem. E ele ouviu-me longamente e no fim disse-me uma coisa que eu nunca mais esqueci: "Olha Julinho, tu ainda vais ter que ir mais ao fundo do poço para poderes ser ajudado. Porque da maneira que ainda estás, se fosses para psicoterapia ias tentar mostrar que és mais esperto do que eu. E se calhar conseguias, mas não melhoravas nada."

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