Números Redondos

João Nuno Coelho traz-nos todas as sextas-feiras, os números, tendências, marcas, nomes e perspetivas para o fim de semana de futebol.
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Liga Portuguesa: o ponto da situação que ninguém queria ter que fazer

O campeonato nacional está suspenso - e sem data para o regresso - devido à pandemia do Covid-19. À falta de melhor (os jogos), esta será uma boa oportunidade para fazer um balanço das 24 jornadas até agora disputadas. Em 10 ideias fortes.

Os candidatos do costume

Desde 2009/10 (isto é, na última década), Benfica e Porto lutaram taco-a-taco por 7 títulos (2011/12, 2012/13, 2014/15, 2016/17, 2017/18, 2018/19 e 2019/20), sendo que o Sporting apenas esteve envolvido numa luta apertada (2015/16) e o Braga noutra (2009/10), em ambos os casos com o Benfica. Já os campeonatos de 2010/11 (Porto) e 2013/14 (Benfica) foram decididos relativamente cedo.

Olhando um pouco mais para trás, percebe-se facilmente que a bipolarização da liga portuguesa já não é um fenómeno recente: nos últimos 17 anos só Porto (10) e Benfica (7) foram campeões. E nos últimos 40 anos os dois clubes conquistaram 36 títulos entre si (o Porto 21, o Benfica 15) apenas deixando 3 para o Sporting e 1 para o Boavista.

Há, no entanto, uma tendência recente para o aumento do poder do Benfica em relação ao próprio Porto: o Benfica nos últimos dez anos foi 6 vezes campeão e Porto foi 4, mas só numa liga o clube da águia não foi candidato até ao fim (2010/11). Além disso, o Benfica conquistou 5 dos derradeiros 6 campeonatos.

A inversão da época passada

Na época transata a história da luta pelo título ficou marcada pela incrível recuperação do Benfica relativamente ao Porto: a diferença chegou a ser de 7 pontos favorável aos portistas, mas no fim foram os encarnados a fazer a festa.

Os maiores louros da proeza pertencerem a Bruno Lage, que chegou ao comando técnico do Benfica com os tais 7 pontos de desvantagem para o Porto mas só perdeu 2 pontos em 19 jogos, acabando com mais dois pontos do que a equipa de Sérgio Conceição.

O que ninguém esperaria é que depois de chegar à jornada 20 do presente campeonato com... 7 pontos de vantagem sobre o Porto, a equipa de Lage desatasse a perder pontos a um ritmo tal que bastaram 4 jornadas para ser ultrapassada pelos dragões.

Fazendo as contas a conclusão é quase inverosímil: o Benfica cedeu 8 pontos em 4 jogos depois de ter perdido apenas 5 pontos nos 37 jogos de campeonato anteriores - todos com Bruno Lage.

Uns candidatos "esquisitos"

Pode parecer estranho mas mesmo com 13 pontos de avanço do segundo (Benfica) sobre o terceiro (Braga), os dois candidatos ao título não têm convencido ninguém em termos de futebol praticado.

De tal forma que se olharmos para os significativos dados gerais de remates na liga, os dois primeiros, Porto e Benfica, não lideram nos números médios de remates por jogo, o que é, no mínimo, pouco usual: no que diz respeito ao total de remates lidera o Braga (16), seguido do V. Guimarães (15.6), apenas depois surgindo o Porto (15.2) e Benfica (14.8.

O mesmo se passa nos remates no alvo: Braga (6), Porto (5.4), V. Guimarães, Benfica e Famalicão (todos com 5.1 em média por encontro); e nos remates na área adversária: Braga (9.3), Benfica (9) e Porto (8.3).

O que tem valido ao Porto

Tendo em conta os números referidos no ponto anterior, há que tentar perceber o que contribuiu para que Porto e Benfica tenham ganho tanta vantagem sobre a concorrência. E não é difícil.

No caso do Porto, a razão é a sua capacidade de marcar através de lances de bola parada: 22 num total de 50 obtidos no campeonato. São 5 golos de penálti (e já 4 grandes penalidades desperdiçados), 10 na sequência de cantos e 7 após livres. Não é por acaso que o melhor marcador do Porto se chama Alex Telles, com 8 golos, mais 1 do que Zé Luís e Soares (7 cada). O quarto melhor marcador da equipa é outro defesa, Marcano (5). Sendo que Manafá, Mbemba e Pepe também já faturaram. Ou seja, os defesas portistas são responsáveis por cerca de um terço do total de tentos da equipa na Liga.

Alex Telles soma ainda 5 assistências na liga e participação na construção de mais 8 golos (quase sempre em lances de bola parada), pelo que se pode afirmar que o brasileiro teve influência em 21 golos portistas no campeonato (42% do total!)

O que tem valido ao Benfica

Quanto ao Benfica, tem vivido dos golos de 2 jogadores: Carlos Vinicius e Pizzi, os dois melhores marcadores do campeonato com 15 e 14 golos respetivamente. Já desde 2011/12 que não se via dois jogadores do mesmo clube monopolizarem os dois primeiros lugares deste ranking (na altura Cardozo e Lima acabaram com 20 golos marcados cada um, com o paraguaio a ser o "Bola de Prata").

Mas a importância de Pizzi e Vinicius vai mais longe: o português já realizou 8 assistências e o brasileiro 5, pelo que são igualmente os dois futebolistas mais influentes do campeonato. Pizzi teve participação decisiva em 22 golos (43% do total do Benfica) e Vinicius em 20 (38%).

A juntar aos dois goleadores, é igualmente mais do que justo salientar a importância da ação do guarda-redes Vlachodimos, cujo valor foi questionado no defeso pelos próprios benfiquistas, mas que tem sido fundamental para evitar a perda de mais pontos pela sua equipa. Foram até agora 33 defesas decisivas (que impediram golo) em 24 jogos, sem responsabilidade em qualquer golo sofrido no campeonato.

A falta que fez Gabriel

Podem chamar-lhe coincidência e tentar arranjar outras explicações mais ou menos elaboradas para o recente desatino encarnado, mas a verdade é que desde a lesão de Gabriel tudo começou a correr mal ao Benfica: a equipa de Lage tinha 11 vitórias consecutivas em todas as provas mas logo após a lesão ocular de Gabriel os encarnados não fizeram melhor do que ganhar um jogo em 8, somando 3 derrotas e 4 empates em todas as competições.

Impressionante é ainda o facto de Gabriel contar por vitórias os 13 encontros de campeonato que disputou, não tendo, portanto, participado em qualquer dos jogos que acarretaram perda de pontos: as 2 derrotas contra o Porto, o desaire com o Braga e os empates com o Moreirense e com o Vitória de Setúbal.

O incrível Amorim e o super-Braga da segunda volta

Sem licença para exercer o cargo de treinador principal na liga (nem de treinador-adjunto...), Rúben Amorim pulou da equipa B do Braga para técnico dos bracarenses, saltando depois para o Sporting. Mas antes de voltar a Lisboa, Amorim virou a luta pela Europa (e particularmente pelo terceiro lugar) do avesso.

Quando substituiu Sá Pinto no Braga os Guerreiros do Minho eram quintos classificados com 21 pontos, a 5 do Sporting. Oito jogos depois, o Braga estava em 3º, com mais 4 pontos do que o Sporting, graças a 7 vitórias e 1 empate (incluindo vitórias na Luz e no Dragão e triunfo em casa perante os leões). No período em que esteve na Pedreira, Amorim conseguiu claramente o melhor desempenho da liga, com mais um ponto do que o Porto, pelo que deixou os minhotos com a melhor performance da segunda volta. E claro, conquistou ainda a Taça da Liga, batendo Sporting e Porto na Final Four.

No Sporting, Amorim começou com mais uma vitória (2-0 ao Aves) estendendo a 9 os jogos sem perder como... delegado na liga principal, incluindo 8 vitórias e 1 empate. Se por acaso, o campeonato desta época for definitivamente cancelado é certo que Rúben Amorim entrará (ainda mais) para a história do futebol português.

O pior Sporting desde 2013

Depois da sangria desatada no plantel vivida no pós-Alcochete era de esperar o pior, mas Bruno Fernandes foi atenuando a queda livre do Sporting. Mesmo assim, nesta temporada os leões vão já no quarto treinador e apresentam o pior desempenho pontual no campeonato desde 2013, quando terminaram a prova no 7º lugar.

Mas o atual 4º lugar no campeonato (na zona europeia) acaba por ser um mal menor para um conjunto que tem apenas o 6º melhor ataque (37 golos, à pobre média de 1.5 por jogo) e a sexta melhor defesa (26 golos sofridos, à média superior a 1 golo por partida).

A equipa leonina pode agradecer o 4º lugar aos 8 golos e 4 assistências de Bruno Fernandes, em 17 jogos, e aos 6 golos de Luiz Phelyppe, sendo que ambos os jogadores não vão jogar mais esta época pelo Sporting (o primeiro partiu para o Manchester United e o segundo tem lesão impeditiva até final da temporada). Dos que restam o mais influente é Vietto com somente 4 golos e 1 assistência. Resta aos sportinguistas ter esperança em Vietto, Sporar e nos "jovens turcos" Plata, Cabral e Camacho, para evitarem a ausência das competições europeias da próxima época, até porque o Sporting ainda tem que ir a Guimarães, à Luz e ao Dragão.

Revelação rima com Famalicão

Quem arriscaria dizer, no início da Liga, que à 8ª jornada o Porto receberia a visita de um líder chamado Famalicão? E que líder! Tornou-se a primeira equipa vinda do 2º escalão a chegar à jornada 8 na frente do campeonato, ainda para mais sem derrotas: 6 vitórias (uma delas em Alvalade) e um empate (em Guimarães). O orçamento do "Fama" está na ordem dos 8 milhões de euros, mas o valor de mercado do plantel (acima dos 20 milhões) é o 7º do campeonato.

Entretanto, a equipa de João Pedro Sousa perdeu a embalagem: venceu apenas um jogo nos últimos 8, incluindo uma derrota caseira por 0-7 com o Vitória de Guimarães e um empate também entreportas com o último classificado. (Aves). Mas depois disso venceu o Sporting (3-1) em Famalicão e ainda não recebeu as visitas dos 2 primeiros. Os minhotos continuam a ser das equipas que melhor futebol joga, marcando muitos golos (38), mas também é verdade que são das defesas mais batidas (40 golos sofridos).

Descidas quase inevitáveis, ou talvez não...

Para terminar, a questão das despromoções. Quase se pode dizer que a única forma de Aves e Portimonense escaparam ao destino anunciado seria mesmo a anulação deste campeonato. Os avenses são últimos a 11 pontos da linha de água e o Portimonense é penúltimo a 6 pontos da referida linha.

Ainda mais preocupante do que isso é o desempenho recente das duas equipas, principalmente do Portimonense. Os algarvios são a pior formação da liga nas últimas semanas: 5 derrotas nos últimos 7 jogos; não ganham há 11 jornadas e só venceram 1 encontro nas últimas 21 rondas.

Por seu lado, os avenses até conseguiram 3 vitórias nos derradeiros 14 jogos, mas antes disso sofreram 10 derrotas consecutivas. Os comandados de Nuno Manta Santos são ainda a pior defesa do campeonato com 49 golos, a uma média superior a 2 golos concedidos por jogo. Até agora marcaram uns aceitáveis 31 golos, mas mesmo assim estão completamente dependentes de um só jogador, uma das revelações da liga: o iraniano Mehrdad, com 7 tentos e 5 assistências (participação decisiva em 52% dos golos do Aves na liga).

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