O Estado do Sítio

Num mundo em turbulência, as explicações para o estado do sítio, um olhar global e especializado para as histórias e protagonistas que marcam o nosso tempo. Um programa de Ricardo Alexandre e José Cutileiro.
Aos sábados, depois das 12h00, com repetição na madrugada de domingo, depois da 01h00.

"Putin é 'dono' de toda a Rússia mas a Rússia não é Putin, é o povo"

Líder de um partido da oposição, Nikolai Ribakov defende a libertação de todos os presos políticos, como Navalny. Em entrevista à TSF diz que "o Importante é saber que políticas virão depois de Putin".

Nikolai Ribakov é líder do Partido Democrático Unificado Russo "Yabloko" há menos de dois anos. Começou a trabalhar aos 13 anos na agricultura, depois na construção civil, formou-se na Universidade de Transportes de São Petersburgo, no departamento académico de Economia da Indústria da Construção. Entrou para a política nos cargos locais e regionais... Foi Diretor Executivo do Centro de Direitos Ambientais BELLONA e diretor da revista Ambiente & Direitos. É um dos responsáveis da organização Transparência Internacional na Rússia. Em entrevista à TSF, começa por classificar a condenação de Aleksei Navalny:

"Penso que é uma situação que não é legal, em primeiro lugar. Porque tudo o que tem acontecido com Aleksei Navalny nos últimos meses, talvez ano, não é nada que seja baseado na lei. Porque é um sistema especial do presidente e do governo russo, que não se baseia na verdadeira lei ou na Constituição. Este é um sistema completamente sem lei. Quando é preciso, abrem os olhos para um determinado caso e quando precisam fecham os olhos a outros casos. E com Aleksei Navalny também é isso que acontece."

E qual é a sua visão sobre as detenções de manifestantes, só terça-feira foram 1400... enfim, aquilo que aconteceu nas duas últimas semanas?

"É absolutamente simples para mim. O país e a Constituição têm artigos que permitem aos cidadãos organizar manifestações, encontros, outras atividades, desde que não haja armas, em Moscovo e noutras cidades. Mas, na verdade, o que encontram são os serviços secretos russos e é a polícia anti-motim nas ruas das nossas cidades. E agora, muita gente tem um grande problema: nos empregos, nas universidades, na vida pessoa. Agora, verdadeiramente, não temos liberdade de reunião no nosso país. Já houve um ano em que não pudemos organizar qualquer encontro político público. É absolutamente fora da lei, desde logo em Moscovo".

Houve mudanças na legislação no ano passado que tornaram mais difícil o trabalho das organizações não-governamentais, os apoios recebidos do exterior, no fundo, a vida da sociedade civil russa...

"Ricardo, penso que a a nova parte da guerra entre as autoridades russas e a sociedade civil, entre o governo russo e as ONG"s russas, não radica na questão da liberdade de reunião e de encontros públicos. A nova lei é absolutamente sobre o apoio estrangeiro, é uma lei feita especialmente contra as boas e progressistas organizações da sociedade civil russa. Absolutamente. Mas é preciso dizer que há muita gente que participaram nos protestos m Moscovo e noutras cidades russas, nas duas últimas semanas, que não são pessoas de ONG"s. Alguns podem ser membros claro ou funcionários dessas organizações, mas a esmagadura maioria são estudantes, especialista em I&D, a verdadeira juventude russa, são o nosso futuro. E, claro, não acreditam no futuro da Rússia com o senhor Putin, não acreditam num país moderno com o mesmo presidente há vinte anos e que quer ser presidente dezasseis anos mais. Não acreditam num futuro de modernidade para o nosso país com o senhor Putin. Por isso gostariam de poder participar em manifestações, gostariam de ter liberdade de expressão nas ruas e praças russas.

Mas agora, mais uma vez, o que tiveram foi um encontro com a polícia russa nas nossas ruas. E talvez saiba que a alcunha do parlamento russo é Impressora Louca, porque não tem ideias para o futuro, daquele sítio só sai papelada e leis oficiais para as pessoas, é a lei para as ONG"s, é a lei para as relações internacionais, etc, etc. É uma verdadeiro caso de uma impressora louca. E penso que o problema mais importante do nosso país é que muita gente, especialmente os jovens, não acreditam que as eleições sejam livres no nosso país. Porque, de facto, não há eleições livres na Rússia. E vamos ter campanha para as eleições de setembro e o maior problema é que as pessoas que querem ter um futuro positivo e moderno para a Rússia, não participarão nesta campanha para as eleições parlamentares. Será um grande problema para o nosso futuro do nosso país."

Este uso da força por parte das autoridades vai encorajar mais pessoas a virem para as ruas ou, por outro lado, mostra que as autoridades controlam a situação e vai fazer com que as pessoas evitem participar em novos protestos?

"Penso que a razão mais importante das manifestações em Moscovo e noutras cidades não é apenas o caso Navalny. Em primeiro lugar, é toda a atmosfera política na Rússia, onde não temos eleições livres, onde não temos liberdade de expressão nem liberdade de imprensa, em que temos o senhor Putin no poder há vinte anos, e talvez mais dezasseis e, em quarto lugar, o facto de as pessoas não terem podido contar com apoio do governo russo na questão da Covid no ano passado.

Agora, temos milhares de pessoas na rua e podem vir a ser mais. Eu não acredito que vá haver uma verdadeira guerra civil nas ruas das nossas cidades, mas agora as imagens nas televisões e nas câmaras dos repórteres fotográficos mostram uma verdadeira guerra civil nas ruas de Moscovo. Talvez se possa dizer que as autoridades russas têm o controlo da situação, com a polícia e serviços secretos e tudo isso, mas penso que não há controlo para o diálogo cívico, não há controlo do futuro da sociedade civil, não há espaço para o diálogo entre um campo e outro da sociedade russa.

Numa situação normal, será o parlamento russo a decidir, mas nós não temos um verdadeiro parlamento. Temos um parlamento com um partido que é o partido de Putin (Rússia Unida) e nada mais. Saberá certamente que um dos porta-vozes da Duma afirmou que o parlamento não é um espaço de discussão. E na verdade, é mesmo o que acontece com o parlamento russo. Então, o debate faz-se nas ruas".

A visita do Alto Representante e vice-presidente da Comissão Europeia, Josep Borrell, a Moscovo, já estava agendada antes da prisão de Navalny e da repressão sobre os manifestantes. Pensa que, com o que aconteceu, Bruxelas deveria ter cancelado a visita ou, por outro lado, deve a União Europeia aproveitar para reagir a este momento crítico da democracia e dos direitos humanos no seu país?

"Será sempre a posição de Bruxelas e não a minha posição, mas penso que não deveria ser cancelada porque o diálogo entre a União Europeia e a Rússia é muito importante para o futuro da democracia russa. É realmente muito importante também para os direitos humanos na Rússia, além de muito importante para o relacionamento entre a Europa e a Rússia. A Rússia não é Putin, é o povo".

O senhor é um líder político... Líder do Partido Democrático Unificado Russo "Yabloko". Vê Aleksei Navalny como um rival ou um aliado?

"Temos uma longa história com Aleksei Navalny, temos posições absolutamente diferentes. Nós não acreditamos num futuro moderno e positivo para o nosso país com nacionalismo, com dirigismo pessoal e isso é muito importante. Ele está a passar por uma situação muito difícil. Agora, Aleksei Navalny é um político com as suas ideias. As nossas são completamente diferentes, e também temos posições absolutamente diferentes das do senhor Putin. Mas agora, Navalny é um prisioneiro político e por isso deve ser libertado. O que é muito importante é que todos os prisioneiros políticos na Rússia sejam libertados, porque atualmente temos cerca de trezentos prisioneiros políticos. A liberdade para todos eles é o nosso objetivo e a nossa missão."

Os valores que o seu partido defende... economia social de mercado, concorrência leal na política e na economia, inviolabilidade da propriedade privada, igualdade de oportunidades, liberdades civis na Rússia, melhores relações com os Estados Unidos e até adesão à União Europeia... são realmente possíveis de serem alcançados na Rússia?

"Foi possível e será possível. Porque a nossa política de liberalismo social é a melhor para o futuro da Rússia e sei disso quando tenho muitas reuniões em cidades, vilas e aldeias da Rússia. A maior parte dos russos quer um futuro com liberdade de expressão, liberdade de reunião, eleições livres e justas, e claro que acredito que esse será o futuro do nosso país".

Quais são as suas ambições pessoais e as do seu partido?

"Temos de ter de novo um grupo parlamentar no parlamento federal, a Duma. Creio que é muito importante; não só para o Yabloko, mas é importante para todo o país que exista um posicionamento alternativo e uma bancada do Yabloko no parlamento nacional. Não é importante para o partido, é importante para todo o país. E acredito que um dia serei candidato presidencial e depois presidente do nosso país".

É a sua ambição; acha mesmo que é possível?

"É absolutamente possível".

Como descreveria a atual situação económica da Rússia?

"Oh, é uma situação muito má. Em primeiro lugar, porque as autoridades e o governo não acreditam numa economia moderna. Baseiam-se apenas nos recursos naturais, mas não numa cultura de liberdade empresarial, nos negócios IT. Mas é absolutamente impossível ter uma economia boa e moderna quando temos um Governo e um parlamento que pensam como pessoas soviéticas".

As pessoas falam de corrupção na Rússia... O presidente Putin negou que ele ou alguém da família fosse dono do polémico palácio no Mar Negro, que é tão popular no YouTube agora com mais de cem milhões de visualizações ... Confia nas explicações do Sr. Putin?

"Senhor Ricardo... o senhor Putin é dono de toda a Rússia. Qual é o interesse neste palácio? Isto não é de todo interessante para mim, porque sei que o senhor Putin pode ter todos os palácios da Rússia. Porque é que 1 único palácio se torna interessante? Apenas porque temos imagens deste palácio e depois uma conferência de imprensa, brochuras sobre uma residência de Putin que são de há dez anos. É uma história muito velha. Lamento, mas não há nada de interessante nesta história. As questões mais importantes não estão relacionadas com os palácios de Putin, mas sim quando é que Putin vai deixar de ser o presidente da Rússia; quando teremos verdadeiras eleições para a Duma e presidenciais; essas é que são as questões realmente importantes. E mais importante ainda: o que virá depois de Putin? Hoje em dia, todas as pessoas na Rússia sabem o que é o senhor Putin. Importante é saber que políticas e que sistema virão depois dele".

Pensa em alguém logo a seguir a Putin? Poderia ser o senhor ou será demasiado cedo?

"Depende. Não sei quem será a seguir, mas não vale a pena mudar o senhor Putin pelo senhor X. Precisamos de mudar todo um sistema. Para mim, não é interessante ter um presidente X mas com o sistema de Putin. Isto tem que levar uma volta completa. Precisamos de um novo sistema, com um parlamento real, devidamente controlado e escrutinado, eleições livres e justas, uma verdadeira liberdade de expressão e dos meios de comunicação social, etc.

Eu comecei a minha carreira política há 25 anos. Para mim não há qualquer interesse em ter um presidente novo, com um nome diferente, mas com as mesmas políticas de Putin".

Se os protestos continuarem, em que medida podem desempenhar um papel com impacto durante as próximas eleições parlamentares marcadas para setembro? Ou é muito cedo para prever? Como acha que toda a situação pode evoluir?

"Penso que a campanha para as eleições de setembro será muito importante, porque será uma janela aberta na nossa sala chamado Rússia. Porque, por agora, todas as janelas e portas estão fechadas e sem um bom futuro pela frente. Por isso, é muito importante que as pessoas que agora se manifestam nas ruas participem nas eleições, porque precisam de ter uma voz não apenas nas eleições, para que tenham uma verdadeira voz e representantes no parlamento nacional. Porque é uma coisa completamente diferente ter uma voz nas ruas e ter uma voz na tribuna do parlamento. Depois disso, eu ou algum dos meus colegas será presidente da Rússia. E aí será um presidente com posições diferentes e um futuro diferente para o nosso país".

Quantos deputados precisaria para mudar essa imagem de impressora louca que diz caracterizar a Duma?

"Na primeira vez, dez por cento (são 450 no total). Dez por cento traria uma situação absolutamente diferente ao parlamento e ao país. Sou realista, sei que agora não conseguiríamos ter 25 ou 30 por cento. Mas dez por cento é realista".

Quais são suas expectativas profundas e sinceras em relação à nova administração dos Estados Unidos e também no que diz respeito às relações com a Rússia?

"Penso que Joe Biden será o presidente americano que pode ser muito importante na arena internacional em relação às alterações climáticas, cultura, OMS, problemas no Ártico. Entre a Rússia e os EUA a relação é agora muito difícil. Mas é uma missão muito importante para todo o mundo: para a segurança, para a segurança na saúde, e para o futuro da Rússia e dos Estados Unidos".

Num futuro próximo, a Rússia e a China não criarão uma espécie de frente anti-ocidente e anti democracias liberais?

"Penso que a China, em primeiro lugar, só se interessa por si própria, pela China. Não pensam no liberalismo ou no interesse do mundo, é uma cultura muito especial da China. Pensam neles e não no futuro do mundo. E claro que não pensam em social-democracia, outras ideologias; pensam apenas no seu próprio futuro. É uma posição muito forte, porque têm uma população enorme, uma economia muito forte, relações muito fortes com uma série de países. É muito importante compreender também que a Europa não ganhará a competição com a China sem a Rússia".

Como é que define a imagem internacional da Rússia hoje?

"A Rússia hoje tem um forte problema sistémico. Somos um país com uma relação progressivamente inculta com outros países, mas o que é importante é que não é a imagem da Rússia, é a imagem do senhor Putin e da sua equipa. Penso que na Europa a Rússia tem a imagem de um país com a melhor cultura, ballet, literatura, artes. Em absoluto, claro que temos um grande problema com o senhor Putin, mas um dia haverá um novo presidente e um novo parlamento e acredito em excelentes relações entre a Rússia e os países europeus. Portugal também teve problemas na história com o seu líder e agora é um dos melhores países da Europa".

O partido Yabloko perdeu os lugares que chegou a ter no parlamento nacional há mais de dez anos. Hoje em dia, tem 111 lugares municipais em todo o país, 81 deles em São Petersburgo. 4 de 45 na Duma da cidade de Moscovo. Agora, com Nikolai Ribakov na liderança, quer voltar ao parlamento estatal após as eleições em setembro.

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