O Estado do Sítio

Num mundo em turbulência, as explicações para o estado do sítio, um olhar global e especializado para as histórias e protagonistas que marcam o nosso tempo. Um programa de Ricardo Alexandre e José Cutileiro.
Aos sábados, depois das 12h00, com repetição na madrugada de domingo, depois da 01h00.

"São precisas políticas para solucionar as alterações climáticas"

Nina Oakley, cientista do Center for Western Weather and Water Extremes, do Scripps Institution of Oceanography, explica, nesta entrevista à TSF, as consequências dos violentos incêndios que têm ocorrido nos EUA e aponta causas e algumas estratégias para enfrentar os claros sinais das alterações climáticas.

Nina, vemos três estados a arder, mais de 27 pessoas que perderam a vida, vilas inteiras e florestas desapareceram durante as últimas três semanas. Enquanto cientista, como é que explica o que está a acontecer na costa oeste?

Sim. Vemos mais de três milhões de acres ardidos na Califórnia, o que é o maior número de área ardida durante a época de incêndios na história moderna e a época de incêndios ainda não começou. Mais de um milhão de acres em Oregon e ainda temos um, dois meses, antes de termos queda de chuva suficiente. É bastante preocupante, enquanto cientista e habitante da Califórnia, ver estes incêndios e o impacto que estão a ter.

Porque é que os incêndios são piores este ano? Vemos que os números na Califórnia são 26 vezes piores do que no ano passado. Porque é que estamos a assistir a esta escalada?

Há alguns fatores. É uma situação complexa e há vários fatores que explicam porque estamos a ver incêndios tão graves este ano. Temos questões que persistem a longo prazo: as alterações climáticas, a gestão de território, o aumento da população, mas também condições atmosféricas que tornam este ano particularmente num mau ano.

As alterações climáticas criam condições favoráveis para estes incêndios grandes e destrutivos que estamos a ver acontecerem. Já estamos a sentir e veremos ainda mais aumento das temperaturas, mais ondas de calor, tempo mais seco e secas mais severas a oeste dos EUA. E estes fatores levam a que a vegetação seque e criam condições perigosas. A gestão territorial é também um dos fatores.

A supressão dos incêndios na Califórnia durante o último século permitiu o crescimento de combustíveis que podem incendiar-se e vimos também um grande crescimento populacional, especialmente com a construção a crescer nas florestas. Muitos dos incêndios da Califórnia são gerados pela atividade humana. Temos portanto todos estes fatores conjugados que, neste ano em particular, criaram um impacto prolongado, fruto da seca severa que se assistiu de 2011 a 2016. Milhares de árvores estavam secas e foram mortas por besouros. Vivemos atualmente uma seca a Norte da Califórnia e Oregan após um inverno e uma primavera secas. Tivemos tempestades com muita trovoada na Califórnia e é raro termos tempestades com trovoada, sobretudo nas zonas costeiras, e as tempestades levam a largos incêndios que requerem um grande combate. E a isso seguiu-se uma onda de calor. E após essa onda de calor tivemos ventos muito fortes, que criaram situações muito perigosas. É tudo isto, e juntam-se a estes os fatores de longo prazo, tais como o crescimento da população, alterações climáticas e gestão territorial, e, no topo disso, uma sequência de eventos atmosféricos.

Falando especificamente da população, numa entrevista recente ao NYTimes, disse que as pessoas criam, e passo a citar, um "cenário perfeitamente preparado para incêndios florestais". Pode explicar o que é que isto significa?

Temos pessoas a viver em zonas onde é provável que aconteçam incêndios e temos pessoas onde se encontram as linhas elétricas. Se as linhas elétricas estão operacionais, podem causar incêndios. E ainda as fogueiras nos acampamentos que ficam fora do controlo, fogos-de-artifício, determinadas ferramentas e a presença de veículos. Portanto, havendo mais pessoas a viver e a passar tempo em zonas que são propícias a incêndios aumenta-se a probabilidade da ocorrência de incêndios.

Tendo em conta a atual situação a oeste dos EUA, qual é a maior preocupação?

Sobretudo a vida e segurança das pessoas e a proteção das casas. E, pensando no futuro próximo, temos de focar-nos no que podemos fazer para prevenir estes incêndios e o seu impacto. Algumas recomendações prescritas são a realização de fogos controlados, limpeza da floresta reduzindo a densidade da vegetação e reduzir as condições para que incêndios perigosos aconteçam: ter um sistema para evitar a propagação de incêndios e um sistema de proteção dos terrenos, fazer limpeza da vegetação em redor das casas e ter pessoas que estão informadas sobre os incêndios e os seus perigos. Dessa forma podemos reduzir o número de incêndios.

Falando de soluções, e esta poderá ser uma pergunta mais pessoal, o Presidente negou o papel que as alterações climáticas têm nestes incêndios. É possível resolver este problema se o Governo continuar a negar o papel da ciência?

Julgo que, para solucionarmos os fatores associados às alterações climáticas, os incêndios e os restantes problemas a que estamos a assistir nos EUA e em todo o mundo precisamos de políticas que apoiem a mitigação das alterações climáticas, a redução das emissões de gases de efeito de estufa e aumentar os reservatórios de gases com efeito de estufa e ainda ter políticas que apoiem as medidas de adaptação às alterações climáticas. Isto é o que precisamos para melhorar as nossas condições.

Quer especificar o que é que precisa de mudar relativamente a políticas?

Tal como disse, pode mudar de país para país ou de estado para estado, no caso dos Estados Unidos. Portanto, enquanto climatologista, eu faço ciência de forma a informar a política, mas definir as melhores políticas para cada país ou estado ou localidade já não é da minha área de especialidade.

Falemos de um estudo que realizou em 2017. Nós temos tendência a olhar para as consequências imediatas dos incêndios, mas raramente falamos dos efeitos em termos de tempestades, erosão ou água. Pode explicar-nos o que são os fluxos de detritos pós-incêndio de que fala no seu estudo?

Após um incêndio ocorrem mudanças físicas e químicas no solo e, ao invés de a água ser absorvida pelo solo, de se infiltrar no solo, o solo fica selado e, assim sendo, a água que cai vai deslizar e pode levar consigo cinzas, pedras e detritos de vegetação morta. Em solos muito estepes, onde ocorreram incêndios muito severos e intensos, podem ocorrer fluxos de detritos pós-incêndio. Esta é uma preocupação pós-incêndios em zonas estepes que, quando começam a receber as chuvas de outubro, novembro, se essa chuva for intensa, trazem consigo os fluxos de detritos pós-incêndio. Portanto, quando os incêndios terminam, temos de começar a preparar-nos para isso. Não basta que seja uma tempestade, é necessária chuva bastante intensa. Estamos a falar de 15 minutos de chuva muito intensa que podem ser muito destrutivos. Isso aconteceu no sul da Califórnia em 2018, matando 23 pessoas e destruindo imensas casas.

Estas são consequências que, depreende-se, piorarão com o tempo.

Sim. E é expectável que, com as alterações climáticas, não só tenhamos mais incêndios mas também chuvas mais intensas, que aumentam o perigo dos fluxos de detritos pós-incêndio.

Perspetiva uma migração forcada das pessoas que vivem nas áreas afetadas?

Essa é uma pergunta difícil. Provavelmente não, mas eu não tenho uma explicação que determine se sim ou não.

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