O Estado do Sítio

Num mundo em turbulência, as explicações para o estado do sítio, um olhar global e especializado para as histórias e protagonistas que marcam o nosso tempo. Um programa de Ricardo Alexandre e José Cutileiro.
Aos sábados, depois das 12h00, com repetição na madrugada de domingo, depois da 01h00.

"Trump pode não ter futuro mas o Trumpismo veio para ficar"

Cientista político, trabalhou com Clinton na Casa Branca. Foi convidado da associação portuguesa de alumni do Marshal Memorial Fund. A TSF esteve na conversa e regista aqui os momentos mais importantes.

William J. Antholis, cientista político greco-americano, trabalhou na Casa Branca como Diretor de Assuntos Económicos Internacionais, foi assessor sénior do Conselheiro de Segurança Nacional e Conselheiro Económico Nacional, no governo do presidente Bill Clinton. Foi igualmente Conselheiro Especial de Planeamento no Departamento de Estado dos EUA.

É diretor do Miller Center de Políticas Públicas da Universidade da Virgínia. Antes disso, foi diretor da Brookings Institution, talvez o mais prestigiado think tank de Washington. Tem como principais interesses de investigação a governança subnacional e federalismo, política energética, esforços e negociações internacionais em torno das mudanças climáticas, o papel da democracia e o desenvolvimento comunitário.

"Bill" Antholis foi o primeiro convidado das conferências online da associação portuguesa de alumni do Marshall Memorial Fund do German Marshall Fund, organização de cooperação transatlântica. Com moderação do jornalista e especialista em política norte-americana José Alberto Lemos, Bill Antholis começa por falar da agenda próxima de Joe Biden, muito condicionada por Trump e por... cinco P"s: pessoal (funcionários, colaboradores), processos, prioridades, políticas e pessoal (no sentido individual, ele próprio). Vamos então conhecer os argumentos de Antholis, cujas declarações podem ser ouvidas na TSF, este Sábado, no programa O Estado do Sítio:

"O que é que Biden vai fazer? Penso que a sua realidade inescapável é que tudo nos Estados Unidos ainda acontece no contexto de Trump. E posso explica-lo da seguinte forma: o primeiro ano do mandato tem sempre cinco P"s de poder presidencial e acontece que Biden está a enfrentar cinco crises ao mesmo tempo. É uma forma de pensar no próximo ano. Como ele avançar nos cinco P"s de poder no modo como enfrenta as cinco crises. Os cinco P"s de poder presidencial são as cinco coisas com que um presidente se preocupa: pessoal (aqueles que trabalham com ele); processo (o processo pelo qual ele gere o governo), prioridades (toda a gente quer saber o que é que o presidente vai fazer e quando o vai fazer mas eles não o podem fazer até contratarem as pessoas e estabelecer como é que essas pessoas vão trabalhar umas com as outras), então, para nós, as prioridades surgem em terceiro lugar. Depois, as políticas (como é que ele vai gerir, em particular, as relações com o Congresso), e, no fim, o pessoal, a popularidade que tem, como é que se conduz a si próprio enquanto pessoa. Não só o que se preocupam com os assuntos, mas como agem e como se relacionam com o público.

Nesse lado pessoal, todos os presidentes tentam confirmar os membros do seu governo nos primeiros cem dias. Se o discurso inaugural é a 20 de janeiro, os teus dirigentes vão ser nomeados até final de janeiro primeira semana de fevereiro. Trump teve uma muito má transição no seu primeiro ano. Não teve o seu gabinete confirmado até à primeira semana de fevereiro; Biden segue o mesmo caminho, até pelas dificuldades que o lento processo de transição teve. O processo está a decorrer razoavelmente no tempo, o governo é mais diverso do que qualquer outro antes, e é um governo mais jovem e mais experiente do que o que o antecedeu, em termos gerais.

Janet Yellen está entre os mais velhos, mas a maior parte destas pessoas estão entre os cinquenta e os sessenta enquanto no governo Trump estavam entre os sessenta e os setenta. Há coisas boas e más nisso, mas em termos de experiência sénior, muitas dessas pessoas têm experiência mas só Janet Yellen foi principal antes, só ela foi número 1. Foi presidente do Conselho Económico e presidente da Reserva Federal; nesse sentido, a pasta do Tesouro acaba por ser uma promoção. Mas, no geral, estas pessoas foram "números dois", eram a empregada da noiva, agora são a noiva; eram o padrinho do noivo, agora são o noivo. Treinaram-se para isto mas agora são eles que mandam. Isto leva-nos ao ponto do processo: como é que vão trabalhar uns com os outros? O pessoal da Casa Branca no essencial faz isso, gere o processo. Jake Sullivan, o Conselheiro Nacional de Segurança, foi Conselheiro Nacional Adjunto; Susan Rice foi Conselheira de Política Interna; Jan Psaki foi porta-voz da Casa Branca agora volta a ser; Symone Sanders é a pessoas nova aqui, tal como Kamala Harris. E há, claro, Ron Klein, o chefe de gabinete. Ou seja, muitas destas pessoas estiveram noutras "Casas Brancas" e estão agora a ser promovidos a posições mais seniores. Também importantes do ponto de vista processual são os adjuntos. No governo, os adjuntos são quem fala uns com os outros o tempo todo. Quando há um atentado terrorista tipo 11 de setembro ou uma pandemia, são os adjuntos quem em conjunto põe a funcionar o governo federal. E o maior falhanço da administração Trump em muitos aspetos foi que foram muito lentos a terem os seus adjuntos confirmados. Portanto, é algo a ter em conta na Administração Biden, o que estão a fazer quanto à nomeação de adjuntos. Já têm adjuntos para a quase totalidade das agências federais e agora têm de os ter confirmados pelo Congresso.

Quanto às prioridades de Biden: é aqui que falamos das cinco crises. A crise da democracia, essencialmente a crise eleitoral, o julgamento de destituição do antigo presidente Trump, as alegações de fraude e abusos eleitorais, bem como as profundas divisões políticas no país. A pandemia, a crise económica, justiça racial e crise climática. Mas aquilo que quer queria dizer sobre os cinco fatores é que estas crises não são apenas domésticas, americanas, mas sim globais.

Na crise democrática, posso recordar que o presidente Biden começou e terminou o discurso inaugural com o tema da democracia, o que é bastante impressionante. Normalmente, os presidentes falam sobre os grandes desafios políticos que querem enfrentar, mas atualmente vivemos uma crise de legitimidade democrática nos Estados Unidos. E o mais importante são as profundas divisões políticas no país;

Há pessoas para quem a eleição e o presidente Biden são legítimos. A boa notícia é que seis em cada dez, três em cada cinco pensam assim. A má notícia é que 1 em cada três não pensa assim. E, particularmente entre os republicanos, quase 75% pensa que a eleição não foi legítima. Para mim, a estatística mais importante é a que revela que entre pessoas brancas com formação universitária, uma em cada quatro não acredita que Biden seja o presidente legítimo.

Há frequentemente uma certa caracterização de ignorância nos Estados Unidos, particularmente em cidades universitárias como aquelas em que vivi, mas não deixa de ser impressionante o elevado número de brancos com educação universitária - 1 em cada 4 - pensa que Biden não foi eleito de forma legítima. E sem formação universitária, a maioria dos brancos republicanos, 53%, pensa que Biden não é um presidente eleito legitimamente. Penso que é dos dados estatísticos mais importantes que saíram da eleição".

O resultado das eleições de 3 de novembro é algo em que uma parte muito substancial dos eleitores de Trump, pura e simplesmente, não acredita:

"Basicamente falando, há muita gente nos Estados Unidos que não acredita no resultado das eleições, ainda que entre os que têm formação universitária o número seja menor, mas estão em maioria entre aqueles que não têm educação superior. E já vimos que uma minoria deles é muito violenta. 1 em cada 6 americanos acha que foi correta a invasão do Capitólio. Portanto, é esta a crise democrática que o país enfrenta e francamente penso que é a crise democrática que enfrentam países em todo o mundo. Vemos um crescendo de extremismo e populismo ao longo dos últimos dez anos, nós não somos certamente melhores que outros países e até podemos ser piores. Defino a crise política como dúvida pública sobre a legitimidade do vencedor.

A consequência é que isto pode limitar a lua-de-mel do presidente Biden. Será desafiado na confirmação de membros do gabinete, o que cria risco de segurança nacional, particularmente no primeiro ano quando as pessoas chegam. O 11 de setembro aconteceu no primeiro ano e o governo Bush ainda não estava integralmente nomeado; será mais desafiante em termos de avanço com uma agenda vencedora, em ter as leis aprovadas. Tem havido ênfase na ação executiva como temos visto nos últimos quatro dias, além de divergências fundamentais sobre a realidade política: entre a realidade que Biden e os democratas veem e a realidade que é vista pela linha dura do partido republicano. E essa crise democrática afeta as outras quatro crises.

A pandémica, desde logo. Até porque muitas pessoas que duvidam do resultado das eleições também duvidam da ciência. Afeta a possibilidade de fazer retomar a economia. Se não formos rápidos a agir em relação à pandemia, será mais difícil enfrentar a crise económica. Incluindo o apoio económico que é necessário para ter a economia a funcionar enquanto a pandemia não passa. Há a crise do Black Lives Matters com a discriminação racial, étnica e religiosa. Nos Estados Unidos, pelo menos, os afro-americanos e outras minorias têm morrido mais com a pandemia do que os brancos. Também estão desempregados em números mais elevados, o que se liga com a crise económica. E há a crise climática. O Presidente Biden já apresentou o programa para a ação climática, vai ser muito amarrado à criação de emprego, também à ciência no que se liga muito à pandemia; ou seja, estas crises imbricam-se umas nas outras.

E finalmente, os assuntos globais: Biden vai tentar re-energizar a relação com a Europa. As relações com todos os nossos aliados, mas em particular com a Europa, através da NATO, através da União Europeia e outros, que, como sabem foram verdadeiramente tensas nos últimos quatro anos. Mais globalmente, terá de lidar com a dimensão global da pandemia, nomeadamente com a China".

Quais são então as prioridades para os primeiros tempos de governo?

"O foco vai ser exclusivamente no Covid com alguns impulsos de ajuda aos governos estaduais e locais, algum foco nas infraestruturas, algum tom verde suave com medidas de eficiência energética; mas não vai ser assim um grande pacto verde...

Vão tentar voltar ao Plano de Obama para a saúde e vão caminhar no sentido de uma política unificada para a Rússia e para a China e no sentido da completa restauração do plano nuclear iraniano. Através das ordens executivas vão estender o âmbito dos requerentes de asilo que sei que é um assunto crucial na Grécia e Itália, não será tanto em Portugal, mas é talvez em Espanha. Mas aqui é um grande assunto na fronteira e Biden está a mover-se cautelosamente, mas se não resultar a cooperação com os republicanos irá avançar de forma ousada através de ordens executivas.

Finalmente, o lado mais pessoal e de popularidade: atualmente o índice de aprovação do presidente Biden é superior a qualquer melhor registo do presidente Trump, 54%. E tem um índice de rejeição bastante baixo, cerca de 30%. É extraordinário, o que lhe permite uma lua de mel mais longa do que, à partida, pensaríamos. E o Congresso também está em lua-de-mel, os índices de aprovação do Congresso estão no ponto mais alto dos últimos dois anos.

Assim, as forças de Biden no seu primeiro ano são a sua experiência, entende de legislação muito mais do que Obama entendia, certamente mais do que Trump. São tabém pontos a favor o facto de ser centrista, ter caráter e ser um otimista. E para a Europa, é positivo que ele sabe e preocupa-se com a Europa, preocupa-se profundamente em reconstruir essa relação, baseado no seu tempo não só como vice-presidente mas também como presidente do comité de relações exteriores no Senado".

Este antigo funcionário da Casa Branca aponta algumas fragilidades e dificuldades no caminho do novo presidente:

"A sua fraqueza é o facto de estar a enfrentar estas crises todas ao mesmo tempo. Mesmo se olharmos para a nossa Guerra Civil ou para a Grande Depressão, nunca um presidente enfrentou tantas crises ao mesmo tempo, como o presidente Biden está a enfrentar. E lembrem-se que já morreram, no total, mais americanos com a pandemia do que morreram na Guerra Civil americana. Biden pode ser, frequentemente, lento a agir; tem pouco controlo sobreb o Congresso com o qual tem de trabalhar; o partido democrático está dividido como está o partido republicano; e tendo em conta a severidade da crise, o seu inerente otimismo pode cegá-lo. Pode tentar fazer demais. Para a Europa, o que eu acho que isso significa é: tanto uns como outros têm de manter as expetativas em perspetiva.

Quanto a oportunidades, os republicanos já estavam no limite antes de ele ser eleito; o país está cansado de lutas, particularmente depois de 6 de janeiro; tem velhas amizades com uma série de líderes republicanos; os média conservadores podem querer andar para a frente e deixarem-se de guerras, embora não seja claro. Mas a comunidade empresarial, essa sim, quer seguir em frente e abraçar a agenda de Biden.

Para a Europa, há uma oportunidade de redefinir a relação e uma habilidade de ambos os lados em demonstrar o compromisso com uma defesa comum particularmente em relação à Rússia e China. É o presidente mais velho de sempre, no meio de uma pandemia, Trump continua a ser uma carta fora do baralho e pode candidatar-se em 2024 e os média conservadores ainda têm um modelo de negócio muito viável. Em relação à Europa, em primeiro lugar é preciso ver se a Europa não perdeu a paciência. E exatamente no momento em que a América pode querer voltar a engrenar, a Europa pode ser demasiado cautelosa. Os parceiros europeus podem não conseguir preencher todas as obrigações que os políticos americanos esperam e Trump foi muito bem sucedido, internamente, em identificar a inabilidade europeia em termos de financiamento e obrigações com a NATO, ainda que Trump tenha mentido sobre a forma como era suposto os europeus assumirem os seus compromissos, o certo é que criou esse ponto na agenda política".

Então e o partido republicano?

"Trump pode ter ou não ter futuro, o trumpismo veio para ficar. É incerto se Dinald Trump ele próprio tem o interesse, a energia e a sabedoria para se reabilitar. Há muita gente que tem medo dele e de que ele regresse. Pensem em Napoleão a ser metido no exílio e depois a voltar. É isso que as pessoas receiam, incluindo Mitch McConnell.

Um certo número de republicanos vai andar a tratar de mecanismos relacionados com o impeachment e com a tentativa de impedir o regresso de Trump. Há moderados republicanos que se preocupam com isso e querem travá-lo, tal como a maioria dos democratas. Se ele volta ou não, é uma boa questão em aberto.

Trump provou ao partido republicano que a tese de Paul Ryan podia ser infirmada, que foi presidente da Câmara dos Representantes; Paul Ryan achava que o partido republicano se deveria moderar numa série de assuntos. Teria de ser apelativo para as minorias, para as mulheres. E Trump desaprovou essa tese, ou pelo menos na sua cabeça e na de muitos ao nível local. O que ele essencialmente provou é que com ele no topo da lista, foi: "comigo na liderança não preciso de ganhar no voto popular. Ainda há um colégio eleitoral pelo qual posso ser eleito. E na Câmara e no Senado quando eu sou o cabeça-de-lista do partido ou alguém como eu, o partido tem bom resultado". Então, penso que o que vamos ver é as eleições intercalares em 2022 provarem se o trumpismo - ainda que sem Trump no topo da lista mas com muita gente a atuar como ele ao nível do Congresso - vai ser o futuro do partido republicano.

Atualmente, Donald Trump e as pessoas que o apoiam controlam o partido republicano. Controlam o órgão formal do partido, 70% dos republicanos entendem que a eleição foi roubada, não são 74 milhões de eleitores mas serão uns cinquenta. Os líderes do partido republicano no Congresso entendem que será muito difícil para um candidato republicano bater Joe Biden se a economia recuperar. Mas muitos deles ainda pensam que se não disserem ou fizerem nada em relação a Trump, não só serão reeleitos, como poderão recuperar não só uma mas as duas câmaras do Congresso em 2022. Portanto, o que eles estão a tentar fazer é o seguinte: "como posso evitar discutir o facto de Donald Trump ter começado uma insurreição que fisicamente me ameaçou e mesmo assim ser reeleito em 2022 e talvez controlar a minha Câmara do Congresso?" Esse é o futuro do partido republicano, alguns deles estarão a pensar que nunca mais voltam a ganhar a casa Branca, mas alguns deles também dirão: "Trump ficou mesmo perto de ganhar novamente". Ficou a onze mil votos na Geórgia, a 14 mil no Arizona, a 80 mil na Pensilvânia, a 20 mil no Wisconsin. Pensam que talvez ele possa ganhar de novo, ou talvez alguém como ele mas não tão rude. Pensam: "não me parece óbvio que isto seja uma estratégia perdedora, e por falar nisso, não é meu problema, mas sim de quem for o nomeado".

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de