Postal do Dia

Já ninguém escreve postais, mas a TSF insiste e manda bilhetes postais com destinatário. Em poucas palavras mas com ideias que fazem pensar: "Postal do Dia", com Luís Osório. De segunda a sexta-feira, às 22h45 e sempre em tsf.pt.

A caminho de Fátima, e a meio de um terço, o herói não estava na camioneta

1.

A camioneta ia a caminho de Fátima.

Na manhã do último sábado o tempo ameaçava felicidade e as pessoas estavam, também por isso, descontraídas e de farnel posto.

Comidas e bebidas para que o dia não fosse apenas de fé e orações, mas também de "mesa" farta.

Todos acordaram de madrugada.

De terras pequenas do concelho de Guimarães acomodaram-se no autocarro do senhor António. Com casa posta no Airão de Santa Maria fazia questão de ser ele a conduzir a vizinhança.

Às 9 e meia da manhã já estavam na Mealhada.

Cantaram canções da Igreja.

E seguiram as preces da Dona Emília Castro.

Todos a adoravam.

Todos a ouviam.

Todos sentiam que ela, de alguma maneira, era o passaporte para melhor serem ouvidos por Deus.

Emília era uma excelente pessoa.

Preocupada, ativa.

Ajudava na paróquia, ajudava os vizinhos, liderava o coro de Figueiredo, era catequista e o seu marido António, bombeiro há mais de 30 anos.

2.

Uns minutos antes do pneu dianteiro rebentar, Emília levantara-se, pegara no microfone e começara a rezar o terço.

Estavam a rezar as palavras mágicas quando tudo aconteceu.

Emília foi cuspida com o embate.

António, condutor da camioneta, também morreu.

Assim como um vizinho de Emília, o senhor Alberto Soares, que ia à frente por causa dos enjoos. Com quase 80 anos já não tinha cabedal para aguentar sem o mínimo de conforto.

3.

Um dia pensarei convosco sobre os que morrem a caminho de algum lugar onde julgam que tudo se iluminará. Num minuto a cabeça enevoada com o "Bem" e no outro minuto a morte a chegar trágica e fúnebre.

Mas hoje quero falar-vos do que me impressionou.

Se tiverem mais trinta segundos, eu conto-vos.

Pouco tempo após o acidente os bombeiros das Taipas foram avisados do desastre. O bombeiro António Silva, marido de Emília, meteu-se ao caminho com os seus companheiros - e a meio do percurso, a poucos quilómetros da Bairrada, recebeu a informação de que a sua mulher, mãe dos seus três filhos, tinha morrido.

António seguiu caminho e naqueles curtos minutos chorou uma parte da vida que perdera. Não sabemos se telefonou a alguém, não sabemos também por quem foi abraçado, se gritou ou não, não sabemos e pouco ou nada importa.

4.

O que sabemos, o que nos dizem os relatos, é que António ao chegar ao lugar da tragédia foi ajudar quem precisava.

A sua mulher estava morta com um lençol por cima, mas ele cumpriu a sua missão com os feridos, com os que estavam em choque, com quem precisava.

Sabem...

Eu costumo muitas e muitas vezes falar do grande mistério que é o "Bem".

Nós nunca desconfiamos do "Mal", mas do "Bem" a primeira coisa que fazemos é desconfiar.

Mas há pessoas maravilhosas.

Há pessoas de uma coragem e verticalidade a toda a prova.

Há pessoas que são heróis, mas que ninguém conhece.

Talvez no nosso prédio.

Talvez na aldeia mais recôndita.

Talvez no lugar mais escarpado.

E no lugar de Figueiredo, concelho de Guimarães, terra com pouco mais de 400 habitantes, há também um herói.

Chama-se António, é bombeiro há 30 anos e tem três filhos, um deles menor.

Era casado com Emília, a mulher que rezava o terço e liderava o coro. O homem que hoje abraçamos merece que dele não nos esqueçamos. Eu não me esquecerei que em cada lugar improvável pode existir um farol para nos iluminar.

Um farol que nos obrigue a ser todos os dias um bocadinho melhores.

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