Postal do Dia

Já ninguém escreve postais, mas a TSF insiste e manda bilhetes postais com destinatário. Em poucas palavras mas com ideias que fazem pensar: "Postal do Dia", com Luís Osório. De segunda a sexta-feira, às 22h45 e sempre em tsf.pt.

A "loucura" de Pedro Nuno Santos matou-lhe o futuro

1. Pedro Nuno Santos não deixa ninguém indiferente.

Divide as águas.

É corajoso, intempestivo, absoluto.

Fala grosso, não foge das batalhas e conquistou dentro do PS um estatuto de poder, um poder forjado por militantes socialistas de norte a sul a quem formou ou deu lastro - eram eles a sua vanguarda no dia e na hora que ele desejasse avançar.

2. O ministro Pedro Nuno Santos é um líder.

O modo como olha.

O modo como fala, como anda, como mexe as mãos ou sorri.

Não é apenas um líder como se convenceu de que a liderança do partido e do país acabaria por chegar - de alguma maneira é alguém que acreditava estar predestinado a ser grande, a marcar um tempo, a ser protagonista maior.

Quando ele chega a uma sala as pessoas olham.

E ele sabe que as pessoas olham.

E quando chega ao Conselho de Ministros e se senta não é apenas ele que se senta - é ele mais a promessa de um dia não estar sentado naquele lugar, mas na cabeceira.

3. Mas ontem, quando o vi no telejornal da RTP a anunciar o futuro pensei que alguma coisa não estava bem.

Pedro Nuno assumira a solução Montijo e Alcochete quando o primeiro-ministro não estava no país? E não avisara Marcelo?

Uma das questões mais decisivas para Portugal, uma questão que se arrasta há 50 anos, e um ministro assumia sozinho uma solução?

Afinal, não tinha sido apenas Marcelo a não ser informado.

O primeiro-ministro também não fora.

Para mim as coisas tinham ficado claras.

Pedro Nuno Santos desejava sair do governo e tinha arranjado um pretexto.

5. Afinal, não.

O ministro não se quis demitir apesar da desautorização pública.

Pensei então que António Costa o demitiria.

Mas errei outra vez.

O primeiro-ministro aceitara as desculpas e manteve-o no governo.

Depois, numa terrível conferência de imprensa, o ministro pediu desculpa pelo seu erro antes de sair de fininho da sala onde os jornalistas incrédulos não conseguiram fazer-lhe uma única pergunta.

6. Entre as pessoas que conhecem Pedro Nuno Santos há quem diga que é "louco" e há quem diga que a sua "loucura" é uma estratégia que esconde uma enorme capacidade de antecipar e de ser "Maquiavel".

Percebi hoje que a sua "loucura" não é maquiavélica. É apenas ansiedade de protagonismo, pressa de marcar pontos, imprevisibilidade e excesso de ego.

E isso leva-me à última questão.

A razão para que António Costa o tenha mantido como ministro.

Talvez seja simples de responder. Pela chatice de ter de levar com Pedro Nuno Santos a fazer todos os dias oposição ao governo e a arregimentar os descontentes do PS.

Na cabeça do primeiro-ministro, mal por mal, é preferível tê-lo perto e fragilizado, do que oferecer-lhe de mão beijada a hipótese de se fortalecer longe da sua vista. E com outra vantagem: Pedro Nuno ao ficar, muito dificilmente terá hipóteses de um dia ser líder do PS ou, ainda menos, primeiro-ministro.

É que nenhum futuro líder se manteria no cargo depois de uma humilhação destas. E quando da próxima vez Pedro Nuno fizer de lobo o país recordar-se-á que no momento decisivo foi um cordeiro.

Estou a dizer que António Costa ganhou?

De maneira nenhuma.

António Costa resolveu o problema Pedro Nuno Santos, mas arriscou muito nesta decisão. Ao manter o ministro colocou o equilíbrio do governo em causa, minou capital de confiança e a sua própria liderança.

Um risco que decidiu correr.

Na minha opinião, mal.

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