Postal do Dia

Já ninguém escreve postais, mas a TSF insiste e manda bilhetes postais com destinatário. Em poucas palavras mas com ideias que fazem pensar: "Postal do Dia", com Luís Osório. De segunda a sexta-feira, depois das 18h00 e sempre em tsf.pt.

A menina de topless que me pôs no lugar

1. É uma das primeiras memórias da vida que julgo ser a minha - se o digo é pela profunda convicção de que, todos nós, temos várias existências dentro da que nos parece ser apenas uma única. Com o tempo caminhamos por diferentes estados, conhecemos pessoas que depois, como por magia, desaparecem para dar lugar a outras; e o mesmo sucede com os que nunca nos abandonando se transformam numa saudade do que foram.

Isto a propósito das primeiras memórias de agosto. A mãe acordava-me cedo, pelo menos o suficiente para me fazer pensar o quanto aquele dia de praia era especial. Preparava as sandes e levávamos fruta dentro de uma caixa. Nessas manhãs saíamos de casa, apanhávamos um autocarro para Alcântara e um comboio para a Parede. A "praia das rochas", como lhe chamava. Praia de calhaus medicinais e lodo que lhe fazia bem aos ossos - sofria desse mal, sobrevivera à infância num sanatório que ficava no alto daquele lugar, na Parede, onde me trazia em criança.

2. Ali passávamos o dia. Mergulhados em água parada, com algas e rochas que faziam uma piscina, a minha piscina privativa onde fui feliz por a ver feliz e, de algum modo, sei-o agora, por lhe lembrar tempos de grande sofrimento físico, mas também de uma juventude onde tudo é sempre possível. Percebo agora porque dizia tão pouco no regresso. As poucas palavras que gastarei quando pegar nos meus próprios filhos e os levar ao lugar de pedras de que também sou feito.

Agosto é um mês de inevitáveis memórias. Agosto onde, adolescente e atleta, ia com os amigos do basquetebol para a praia de São João da Caparica. Autocarro para Belém, ponto de encontro nos barcos, viagem até à Trafaria com vento e cheiro a mar, uns quilómetros a andar até à praia. O que hoje seria uma impossibilidade era, com 15 e 16 anos, um pequeno incómodo que fazia, se fosse caso disso, com as duas pernas às costas.

A praia nunca foi o meu lugar de eleição. Demasiado branco, demasiada areia, demasiado medo de me afogar, demasiada acne e timidez o que, como sabem bem os introvertidos, é o maior e mais urgente problema do mundo. Era sempre o Caeiro, o Bacalhau e o Paulinho que ficavam com elas, eu e o Rui "preferíamos" o resguardo - foi nessa altura que comecei a ler a sério, livros atrás de livros que me protegiam de justificações e fragilidades. Decidi que não ligava a "engates" de praia ou a devaneios mundanos, era um intelectual. Mas um intelectual com a particularidade de ser agressivo dentro do campo de basquetebol, implacável com os adversários a quem defendia... Sem o saber tornei-me um cliché para fugir ao cliché, o máximo da originalidade.

3. Um tema que continuo a seguir, o dos intelectuais. É tão raro encontrar um intelectual fisicamente agressivo como um branco de carapinha - o anúncio colonialista ao "restaurador olex" remetia tudo a uma questão de normalidade ou de falta dela, o que em matérias capilares seria sempre mais fácil de justificar do que nas do cérebro. Há quem leia Racine e Baudelaire e não se encolha perante grandes sessões de pancadaria, não são tão poucos quanto isso. Mas com a maioria desses "cromos" do saber basta um ameaço para se recolherem à segurança da literatura e da metafísica. Os intelectuais protegem-se nos livros e têm pavor da força bruta. Os da força bruta protegem-se com os músculos e têm pavor aos livros. Uns e outros suam em bica quando não estão na sua zona de conforto. Mas a coragem não é musculada nem a cobardia intelectual, são apenas o que são: clichés.

4. Vou então ao que me traz hoje.

Agosto, com as tias. Praia da Rainha. Decidi sair da concha e aproximar-me de uma menina de topless. Olhava-me insistentemente. Estranhei. Era bastante mais velha, talvez já dezoito, não sei.

Uma deusa, lembro-me de ter pensado.

Cristina e Teresa, cirurgicamente, subiram até às saladas, fiquei sozinho na toalha e em absoluto pânico quando a meu lado se sentou.

Falei quase nada. Tentei dizer coisas inteligentes, uma catástrofe. Foi ficando, almoçou connosco e cheguei a desabafar para dentro um

"Queres ver que..."

Ainda me deu a mão no carro, acreditam? Cheirava a mar. As tias deixaram-na em casa e eu dormi mal um par de noites. Esperei por setembro, o pretexto perfeito, o meu aniversário. Telefonei de uma cabine em frente ao café do senhor Silva, na Rua Correia Teles. Conversa que durou menos de um minuto (terá durado tanto?). Pediu-me para esquecer o que nenhuma importância tinha. Era agosto, eu não passava de um miúdo e ela precisava de uma boleia.

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