Postal do Dia

Já ninguém escreve postais, mas a TSF insiste e manda bilhetes postais com destinatário. Em poucas palavras mas com ideias que fazem pensar: "Postal do Dia", com Luís Osório. De segunda a sexta-feira, às 22h45 e sempre em tsf.pt.

A mentira da morte de Jô Soares

1.
A morte de Jô Soares fez parar o Brasil.
A malta do samba deixou de sambar,
A galera da bola travou a língua.
Os grã-finos do Leblon e de Búzios fizeram-lhe um brinde.
O povão dos morros abraçou-se.
Lula e Bolsonaro foram incapazes de más palavras.
E hoje na Globo e na Bandeirantes é bem capaz de não haver novela.

2.
Jô fez mesmo parar o Brasil, mas fez-me parar a mim também.
E a ti - talvez te tenha acontecido o mesmo.
É que Jô foi parte de nós todos estes anos.
Na minha vida, digo-te com sinceridade, nunca deixou de estar.
No quarto da avó Joaquina vi-o a sair de "dentro dela" no Viva o Gordo.
Ri até às lágrimas com o Capitão Gay.
Ou com a rábula do telefonista surdo.
Ou com a imperdível vovó Nanas que sonhava ser estrela de televisão.
Ou com o Reizinho, o meu preferido.
Tantos momentos, tantas lágrimas, tanto dele que passámos a carregar em nós.
3.
E que extraordinário entrevistador era.
As pessoas que fiquei a conhecer com as suas perguntas.
A inteligência com que respondia às que lhe faziam.
O sofrimento digno que mostrou ao mundo quando perdeu o seu único filho, um rapaz que nasceu autista, mas que ele soube proteger com todo o amor que um pai deve ao seu filho. Fê-lo até ao último dia do seu menino.
4.
Jô nasceu de famílias privilegiadas.
O pai queria que fosse diplomata.
E ele foi diplomata, uma outra espécie de diplomacia, uma outra espécie de relação com os outros, com os que comem canapés e com os que comem feijão com arroz.
O Jô era de todos.
E adorava apaixonar-se.
Perder-se de amor.
Viver na plenitude pois achava que iria morrer jovem.
Queria partir com um brilho nos olhos, não suportaria a ideia de abalar com o vinco do sofá marcado no rabo.
Queria tudo, queria o absoluto.
Por isso, casou e separou-se muitas vezes.
E eu esperava sempre pela notícia de que estava outra vez noivo.
Mas não, não foi essa a última. Acordámos hoje com a notícia de que não casará mais nenhuma vez.
Que não inventará mais nenhum personagem.
Que não fará mais perguntas.
Mas um homem como ele, sejamos justos, nunca morre.
Um homem como ele vai para dentro.
É lá que o poderemos sempre encontrar, no lugar dos que não se esquecem.

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