Postal do Dia

Já ninguém escreve postais, mas a TSF insiste e manda bilhetes postais com destinatário. Em poucas palavras mas com ideias que fazem pensar: "Postal do Dia", com Luís Osório. De segunda a sexta-feira, depois das 18h00 e sempre em tsf.pt.

A pintora Armanda Passos renascerá amanhã

1.

Armanda Passos foi uma das melhores pintoras portuguesas da história.

A sua pintura é mágica.

De um mundo encantado por animais...

... pássaros, anjos sem asas, criaturas entre mundos, cores vivas.

E mulheres.

As mulheres de Armanda são poderosas, distinguem-se entre a criação do mundo, estejam onde estiverem sabemos como as reconhecer.

2.

Armanda Passos morreu há um ano, tinha 77 anos.

A mulher que acreditava na natureza e que amava os animais - tanto como temia o ser humano.

A pintora das formas poderosas e das aves (quase) humanas. Um dia perguntei-lhe se eram as aves quase humanas ou as figuras quase aves.

O seu abraço foi a sua resposta.

3.

Mas a Armanda morreu triste pelo ser humano que desprezava na sua ganância de poder, na sua cegueira de domínio, no modo como martiriza o planeta e os outros seres vivos.

E morreu triste porque sendo os seus quadros dos mais valorizados no mercado de arte, foi sempre esquecida pelas duas ou três figuras que decidem o que deve ser aplaudido ou o que deve ser esquecido.

A Armanda era muito chata.

Não facilitava a vida a ninguém.

Não saía do Porto para lado nenhum.

Não frequentava almoços e jantares, não pertencia a tribos, não alimentava lobbies, dizia coisas estranhas e incómodas que deixavam desconfortável a malta emproada que sabe tudo sobre Nova Iorque e Paris, mas pouco sobre a natureza, a terra, os animais, a simplicidade.

Ela e a filha Fabíola Valença eram dois bichos raros, um prolongamento uma da outra, nunca estavam disponíveis para dar alguma coisa em troca.

4.

A Armanda Passos partiu há um ano e foi-lhe impossível entender o "esquecimento" da sua obra na exposição que celebrou na Gulbenkian 40 artistas plásticas do século XX.

Logo ela.

A pintora de mulheres poderosas.
A pintora que combateu como poucas o preconceito.
A mulher que o fez sem nunca ter estado nos lugares em que as coisas acontecem, em que as oportunidades surgem, em que as mulheres artistas podiam, ainda assim, estar mais protegidas.

Ela não, ela fez o seu caminho e fez nascer a sua obra sem qualquer empurrão, contra um mundo que desvalorizava as mulheres, contra um país que apenas beneficia quem se aproxima do poder político ou cultural.

Morreu com a amargura desse intolerável esquecimento.

5.

Tudo para te dizer que a Armanda Passos, graças a Leonor Beleza, poderá ser vista a partir de amanhã numa exposição retrospetiva.

A partir de amanhã e até ao final de dezembro, na Fundação Champalimaud, as suas mulheres poderosas, as suas aves (quase) humanas, os seus quadros mágicos estarão disponíveis para ti.

6.

A Armanda foi também uma amiga.

Posso contar-te um segredo?

Quando a visitava preparava-me sempre um farnel para a viagem. Precisava de me alimentar e comer fruta e bom pão. E eu sem palavras, sempre sem palavras.

Aceitava o farnel e ia.

E a meio da viagem de comboio, em Coimbra, abria a marmita e comia com vontade de chorar e sorrir.

Agora é a ti que cabe abrires o farnel que a Armanda preparou. Talvez não estejas no comboio, mas estás, como eu, como todos, em viagem.

Nesta viagem.

Não hesites em abrir a marmita de onde sairão fantasmas bons e um vale encantado que jamais esquecerás.

Vai e depois diz-me.

*Atualizado pelo autor às 08h15 de 16 de novembro

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