Postal do Dia

Já ninguém escreve postais, mas a TSF insiste e manda bilhetes postais com destinatário. Em poucas palavras mas com ideias que fazem pensar: "Postal do Dia", com Luís Osório. De segunda a sexta-feira, às 22h45 e sempre em tsf.pt.

A "rasca" e miserável Anitta

1.

Anitta foi a estrela da última edição do Rock in Rio.

Pelo espetáculo que trouxe, pelo ruído que causou, pela polémica da bandeira que acenou, por ter partido os óculos a uma fã, por tudo o que se escreveu, por tudo o que se disse, viu e ouviu nas televisões, nos jornais e nas rádios.

Bastou um cheirinho de polémica para uma parte do país se ter revoltado.

A bandeirinha espanhola foi o detonador da indignação de muitos.

Afinal, nestas coisas só é necessário um pretexto para que a malta se revolte e mostre verdadeiramente o que pensa sobre o mundo, sobre o empoderamento feminino, sobre a liberdade de podermos ser quem quisermos ser.

Chamaram-lhe de tudo.

Rasca.

Puta.

Miserável.

Básica.

Limitada.

2.

Até alguns intelectuais se dignaram a descer até à miséria humana para comentar o chinfrim da arraia miúda.

Quantos comentários lemos nas redes sociais feitos por escritores talentosos e sem nenhum talento, cineastas com obra e sem obra, pintores, filósofos, criadores por revelar e criadores revelados, jornalistas culturais e agentes do gosto...

Um pouco por todo o lado, quantos comentários lemos que começavam assim:

"Eu nunca tinha ouvido falar de uma tal Anitta"

"Foi tanto o barulho que fui ver quem era a Anitta"

"Então a Anitta é isto?"

3.

Por um lado, a terrível tentação de ser implacável com quem vem de baixo. Com quem é atrevida, com quem rebenta com o estabelecido, com quem baralha os papéis e decide "comer" o mundo e os seus preconceitos.

Anitta é tudo isso.

Veio de uma favela e é a voz das favelas.

Veio de uma favela, mas é dona de si própria e poderosa. Já a vi responder em cinco línguas, já a ouvi falar sobre o que se sacrificou para aprender mais, saber mais, poder desejar mais.

É despudorada em excesso, mas por que o mundo condena as mulheres a ser maltratadas e a terem de se subordinar aos homens.

É imoral por que a moral que existe não lhe interessa.

Gosta de provocar por acreditar que é na provocação que existirá espaço para ser ouvida.

4.

Quanto aos que juram que nunca dela tinham ouvido falar.

Aos que a gozam.

Ou menorizam.

Acho espantoso que não reflitam sobre a sua própria ignorância.

Por que Anitta é um fenómeno mundial.

O seu último álbum foi descarregado 500 milhões de vezes.

Tem 17 milhões de seguidores no Facebook.

Tem 63 milhões de seguidores no Instagram.

18 milhões no Twitter.

30 milhões de ouvintes no Spotify.

Fundou empresas que ajudam jovens artistas.

Vai a escolas falar a meninas vítimas de maus-tratos.

E nas favelas fala a um povo que não ouve Chico, que não conhece Caetano ou Gilberto Gil, o povo que não sabe nada de política, mas que a ouve, venera e admira como se ela fosse uma deles, diz ao povo que não pode votar Bolsonaro, que Bolsonaro é uma vergonha, que o Brasil em que acredita não é o Brasil de Bolsonaro.

Nós podemos criticar o fascismo de Bolsonaro, a vergonha do que fomos vendo nestes anos, mas ela tem a chave dos milhões que vivem nos morros, dos que não sabem, dos que não conhecem, dos sobreviventes.

Vale mais politicamente a opinião da Anitta para a derrota de Bolsonaro do que a opinião de todas as figuras brasileiras que admiro cultural e intelectualmente.

Sabem o que isso quer dizer?

E a coragem que tem de ter?

E sabem quem é o seu empresário?

Sim, isso mesmo.

É ela própria que define com quem trabalha, que concertos faz, quanto paga aos músicos e dançarinos, quem produz o quê e como.

5.

O problema da Anitta é ser da favela.

É dizer que tem um namorado em cada cidade.

É ser uma mulher que ocupa o lugar dos homens.

Que instrumentaliza os homens.

Que prova todos os dias que uma mulher pode ser o que quiser, como quiser e onde quiser.

É chocante ver tantos progressistas, homens e mulheres, virarem a cara a Anitta e acusá-la de ser rasca.

Ou confessarem que nunca dela ouviram falar.

Por mim, estamos conversados.

Gostei do espetáculo, diverti-me bastante.

Mas é indiferente se gosto ou não.

Anitta é essencialmente um vírus que contamina a partir das favelas a ordem estabelecida. E disso eu gosto muito.

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