Postal do Dia

Já ninguém escreve postais, mas a TSF insiste e manda bilhetes postais com destinatário. Em poucas palavras mas com ideias que fazem pensar: "Postal do Dia", com Luís Osório. De segunda a sexta-feira, depois das 18h00 e sempre em tsf.pt.

A tragédia de Manuel Maria Carrilho

1.

Manuel Maria Carrilho foi ontem entrevistado no Diário de Notícias a pretexto do lançamento do seu último livro.

O professor catedrático, ex-ministro da Cultura e condenado por violência doméstica, deu a sua opinião sobre António Costa que definiu como patrão do PS e não como líder.

Queixou-se também da indolência da Europa.

Falou sobre os extremismos de um centro que não problematiza os ditames de Bruxelas.

Diabolizou a classe politica por ser fraca e ignorante.

E teorizou sobre um futuro que, muito dificilmente, será democrático.

O filósofo Manuel Maria Carrilho já numa entrevista anterior definira o futuro de Marcelo Rebelo de Sousa: "Arrisca-se a ser lembrado como um novo Américo Tomás".

Para os mais novos que me ouvem ou leem, Tomás foi Presidente da República no Estado Novo e para a história ficará como um "capacho" de Salazar.

2.

Vamos lá a ver.

O meu ponto não são as opiniões de Carrilho.

Tem todo o direito a elas e o seu contributo, noutras circunstâncias, seria válido.

A questão é a sua lata.

A desfaçatez.

A incrível incapacidade de compreender que não há mais nada que possa ser dito, que o silêncio seria a única forma possível e justa de compensar o mal que semeou na vida pública.

3.

Mas Manuel Maria Carrilho insiste em reaparecer como se nada se tivesse passado.

Dá opiniões sobre pessoas e sobre o futuro.

Arroga-se o direito de criticar a falta de qualidade de protagonistas e critica até a sua falta de empatia e conhecimento do mundo.

Critica tudo e todos como se não tivéssemos memória sobre os processos de violência doméstica, sobre a violência psicológica que exerceu.

O país precisa que faça silêncio.

Mas sobretudo ele próprio deveria convocar esse silêncio - se estivesse no seu lugar, depois de ser condenado pelo Tribunal de Relação a uma pena suspensa de quase quatro anos por violência doméstica contra a minha mulher, eu escavaria um buraco e desapareceria da circulação.

(ser-me-ia insuportável aparecer, ser visto e comentado)

4.

As suas palavras são tóxicas.

As suas palavras atingem-no por convocarem todas as memórias que temos do que fez, do que disse, do que foi acusado.

Ele deveria sabê-lo.

Aparentemente não o sabe.

Manuel Maria Carrilho é um reconhecido professor de Filosofia.

Conhece certamente uma punição grega a que se deu o nome de "Ostracismo".

Em Atenas, pouco depois de Aristóteles, Sócrates e Platão, o democrata Clístenes decretou que os cidadãos que atentassem contra a liberdade pública (e a moral) seriam condenados a desaparecer da sociedade durante um período de dez anos.

5.

Os mais idealistas acreditaram que essa lei ateniense deixaria de ser necessária. Afinal, a consciência individual acabaria por prevalecer.

Puro idealismo.

Manuel Maria Carrilho continuará a iluminar-nos com as suas ideias, mas para mal dos seus pecados sempre que abrir a boca recordaremos o peso que carrega.

Sempre que nos agitar com o que pensa do futuro, será o passado que agitará.

Sempre que criticar pessoas, por mais razões que tenha, colocará o foco na sua própria pessoa.

Sempre que falar do apocalipse da democracia, só conseguiremos pensar na sua própria tragédia.

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