Postal do Dia

Já ninguém escreve postais, mas a TSF insiste e manda bilhetes postais com destinatário. Em poucas palavras mas com ideias que fazem pensar: "Postal do Dia", com Luís Osório. De segunda a sexta-feira, às 22h45 e sempre em tsf.pt.

A trágica morte da mãe de Cancelo tornou-o um gigante

1.

Nestes dias de espanto, loucura e maldade, dias em que nos perguntamos da razão de certas coisas acontecerem, prefiro falar do que em nós é também grandioso.

Escrevi sobre Judite de Sousa, sobre palavras que não existem quando nos morre um filho. Sobre aquilo que ela fez e que a definiu.

Hoje escrevo sobre João Cancelo, um dos melhores futebolistas do mundo. Menos mediático do que Cristiano Ronaldo, Bernardo Silva ou João Félix, mas consensualmente visto como um dos mais extraordinários e decisivos jogadores da atualidade.

Quero hoje falar-vos de uma história que o fez maior - por que um homem ou uma mulher só são maiores quando nos obrigam a pensar sobre nós próprios.

2.

A história que vos quero dizer não é a da morte da sua mãe, Filomena. Mas tenho de a contar pois só assim será compreensível.

Filomena era o amor da sua vida.
O marido, e pai do João, saíra do país para trabalhar na Suíça, para trabalhar no que aparecesse. E ela, mulher forte e sacrificada, fazia tudo para que nada faltasse aos seus três filhos.

Houve alturas em que o João só a via quando voltava dos treinos no Benfica. Jogou em todos os escalões, iniciados, juvenis, juniores. E dava tudo em cada um dos treinos para um dia poder livrar a sua mãe do carrego de uma vida que a obrigava a ter dois e três empregos ao mesmo tempo.

Tantas vezes que conversavam.
Tantas promessas que o João fez à mãe.
E ela, tantas vezes de lágrimas nos olhos, saía antes de o Sol nascer para que os seus rapazes um dia pudessem descolar.

O João era mesmo louco pela mãe.
Em cada jogo olhava para as bancadas para saber onde Filomena estava.
Em cada golo ou assistência fazia a festa, mas a mãe sabia que antes de o jogo recomeçar o filho pródigo trocaria um sorriso consigo.

3.

No dia 5 de janeiro de 2013, Filomena voltava para casa com os seus dois filhos rapazes quando passavam poucos minutos da uma da manhã.

Não sei se chovia ou se a mãe estava demasiadamente cansada. Sei que regressavam de um jogo do João e que o carro se despistou numa estrada nas margens de Almada.

Filomena chegou morta ao hospital.

E os seus dois filhos, apesar de feridos, tiveram alta na manhã seguinte.

João Cancelo jogava na equipa B do Benfica. Tinha 18 anos.

E achou que o seu mundo era bem capaz de terminar ali.
O que fazer a seguir?
Como treinar?
Como acreditar que valia a pena continuar?

Quis desistir do futebol.
O pai regressou a Portugal e um dia, numa conversa decisiva, falou-lhe dos enormes sacrifícios que tinham feito. Falou-lhe do quanto se orgulhavam do seu talento, do quanto Filomena sofria e se comovia com cada passe, cada corrida, cada golo, cada sorriso.

E o João renasceu.

Voltou aos treinos

E em cada jogo que fez a partir daí continuou a olhar para a bancada à espera de a ver. E em cada golo ou assistência faz a sua oração, ergue os braços ao céu e dedica-lhe a sua felicidade, o seu coração.

4.

Passaram nove anos desde o acidente.

João está agora de férias.
Dentro de poucos dias regressará aos treinos no Manchester City.

Ainda hoje se fala na cidade dos festejos, da alegria pelo último título. Ainda hoje se fala da felicidade de Pep Guardiola, treinador de João Cancelo e também de Bernardo Silva.

E ainda hoje se fala da invasão de campo por parte dos adeptos.
Loucos de alegria galgaram bancadas para festejar com os jogadores.
João Cancelo era dos mais eufóricos.

No meio dos festejos, com toda a gente a saltar e gritar, uma criança de 10 anos chorava.

Só João deu por ela.
Correu para a criança e protegeu-a no seu abraço.
Saiu da confusão e foi para um lugar onde pudesse ser visto.

A criança era autista, chamava-se Ollie Gordon e perdera-se do pai.

João amparou-a como gostaria de ter sido amparado na madrugada em que chovia ou a mãe estava demasiadamente cansada.

Ficaram assim, juntos e abraçados, até que o pai os encontrou.

João entregou-lhe o pequeno Ollie e eu nunca mais esquecerei esta história que vale por todos os golos do mundo.

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