Postal do Dia

Já ninguém escreve postais, mas a TSF insiste e manda bilhetes postais com destinatário. Em poucas palavras mas com ideias que fazem pensar: "Postal do Dia", com Luís Osório. De segunda a sexta-feira, depois das 18h00 e sempre em tsf.pt.

A única filha de José Saramago deixará de ser esquecida

1. Chama-se Violante e acaba de escrever um extraordinário livro sobre o seu pai.

Imagino o que lhe deve ter custado dar esse passo, mas ainda bem que o fez.

"De Memória nos Fazemos" é um livro que só ela poderia ter escrito - um livro que apenas uma filha pode escrever sobre o seu pai.

Sobre os livros.

Sobre os ensinamentos.

Sobre os silêncios.

Sobre os ralhetes.

Sobre as dúvidas e o questionamento.

Sobre a relação com a sua mãe, a pintora Ilda Reis com quem Saramago esteve casado quase trinta anos.

Neste espantoso livro senti-me próximo de uma ideia de verdade. E próximo de José Saramago, um homem que era simplesmente isso e não uma obra, uma estante ou uma biblioteca.

2. Quando lhe falam de José, seu pai, ela baixa a cabeça e responde ainda mais baixo. Fala do orgulho de ser filha do Prémio Nobel, do amor que sente por tudo o que ele lhe deixou, a ternura das memórias, o sofrimento pelos silêncios inevitáveis.

Violante Saramago é uma pessoa rara.

Escreve livros infantis e juvenis, inventou o Quinas e deu-lhe vida. Escreve para crianças e adolescentes sem os infantilizar, escreve como se tivessem a mesma idade, ela e eles.

Pergunto-lhe: porque não escrever um romance?

Violante diz-me que não, como poderia ousá-lo? Afinal, é filha de José. Não se brinca com coisas sérias porque não está ao nível sequer de uma perna do pai.

4. Violante é bisneta do célebre avô Jerónimo e de Josefa. Sangue do mesmo sangue, mas sempre discreta no seu canto, na sua ilha, sem se fazer notar, metida nas suas coisas como se não fosse quem é.

Muitos são os que falam em nome do pai. Descrevem-no, aplaudem-no, definem-no, contam histórias, fazem questão de mostrar proximidade, mas ela não.

Até hoje, dia em que apresentou o seu livro na Bertrand do Chiado.

5. Escreve livros para pequeninos e poemas para si própria. Pinta como a mãe e guarda os quadros. Não se põe em bicos de pés nem exige atenções ou salamaleques. Num tempo como este, de tantas sombras, egoísmos e vaidades, foi um privilégio tê-la conhecido e ouvido, no seu tom de voz baixo, quase envergonhado, mas paradoxalmente afirmativo, firme, cortante.

6. Por isso, lhe escrevo esta carta.

A ela e a si.

A ela para lhe agradecer a grandeza do silêncio.

A si para lhe dizer que Violante Saramago, filha do Prémio Nobel da Literatura, tem sempre um livro do pai na cabeceira e não precisa que ninguém saiba quem é pois, aconteça o que acontecer, seja feito o que vier a ser feito, sabe bem de onde veio, o que foi dito e o que lhe interessa guardar todas as noites antes de adormecer.

Uma mesa de cabeceira que agora tem um outro livro.

Um livro em que oferece ao mundo um outro José saramago.

Sem dúvida, o que apenas a si pertence.

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