Postal do Dia

Já ninguém escreve postais, mas a TSF insiste e manda bilhetes postais com destinatário. Em poucas palavras mas com ideias que fazem pensar: "Postal do Dia", com Luís Osório. De segunda a sexta-feira, depois das 18h00 e sempre em tsf.pt.

A verdadeira história do Zé Pedro não é a que contam

1.

O Zé Pedro morreu faz hoje cinco anos.

Tinha 61 anos, mas pareceu sempre, até ao último dia em que foi visto, um eterno jovem.

Quando abria o sorriso, quando abraçava, quando tratava bem qualquer pessoa que o abordasse, como se tivesse todo o tempo do mundo para ela, como se cada pessoa fosse especial aos seus olhos...

...ou quando em palco se mexia como uma estrela.

Ele era um eterno jovem e uma verdadeira estrela, talvez o único roqueiro português que poderia desafiar os monstros de palco para um mano a mano.

2.

O Zé Pedro morreu com uma Hepatite C.

Fizera um transplante uns tempos antes, infelizmente não foi possível travar a evolução da doença.

Mas ele continuou sempre com o seu mágico sorriso.
Continuou sempre com a sua capacidade de nos fazer melhores, de nos fazer acreditar que existe sempre caminho - e a sua vida lá estava para o comprovar.

No dia da sua morte percebeu que o seu tempo estava esgotado. E com todo o sofrimento que carregava continuou até ao último minuto a ser alegria, a agradecer todos os momentos e o privilégio de poder fechar os olhos de mão dada com o amor da sua vida, a Cristina que ele venerava.

Foi assim que aconteceu.

A sua mão na mão dela.
Não há final que pudesse ser melhor, não há partida que lhe pudesse ter feito mais justiça.

3.

O Zé Pedro morreu faz hoje cinco anos.

Morreu jovem, cara de miúdo coberto de futuro.

Ele era único - apesar de ter escrito uma canção em que jurou não o ser.

E repito-te por ser mesmo verdade e quase parecer mentira.

Estava sempre sorridente.
Sempre com os olhos vivos.
Sempre a querer saber mais de quem tinha à frente - quer fosse uma criança ou alguém que o abordava para lhe dizer coisas não totalmente agradáveis.

Acredita no que te digo pois é a mais pura das verdades.

O Zé Pedro era um príncipe de uma República que respeitava.

Quando alguém dizia coisas negativas, ele temperava-as.
Quando alguém criticava ou insultava, ele procurava ver os dois lados.

Ah, e o resto também.

Quando alguém lhe pedia ajuda, ele fazia o que podia.
Quando um miúdo lhe enviava uma demo de uma canção, ele tinha sempre tempo para a ouvir.

E quando o que ouvia era muito mau encontrava sempre a palavra certa para não magoar, para não desmotivar, para não deitar baixo.

4.

Foi um dos nossos melhores e até nas suas sombras mostrou ser excecional.

Nunca escondeu que fora dependente de drogas ou de álcool.

Que mergulhara no abismo, que estivera no fim da linha.

Não só não o escondeu como fez uma cruzada para jurar aos miúdos e miúdas que a droga é uma merda, que a droga é um inferno, o único inferno que conhecera em vida.

Foi a centenas de escolas, aceitava sempre ir.
Aceitava sempre com um sorriso nos lábios e nos olhos.

Faz hoje cinco anos, mas não pode ser verdade.

A verdadeira história do Zé Pedro não é a que contam.

Certamente que terá partido jovem para um lugar que desconhecemos. A única coisa que sei é que esse lugar não pode ser a morte. Qualquer outra verdade não me faz qualquer sentido.

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