Postal do Dia

Já ninguém escreve postais, mas a TSF insiste e manda bilhetes postais com destinatário. Em poucas palavras mas com ideias que fazem pensar: "Postal do Dia", com Luís Osório. De segunda a sexta-feira, depois das 18h00 e sempre em tsf.pt.

Ao Bruno Fernandes nada lhe foi oferecido de borla

1.

Bruno Fernandes não é idolatrado pelas mulheres quando sai à rua - pelas mulheres e pelos homens, já agora.

Não aparece nos tops dos mais desejados.

Os seus dentes não são perfeitos, a sua cara não é a do George Clooney e o seu corpo não é musculado como o de Cristiano Ronaldo.

Dentro de campo é irritante para os adversários, para os árbitros e até para os colegas. Barafusta, fala sozinho, é intratável.

2.

Mas o Bruno Fernandes é um magnífico paradoxo.

A sua personalidade é à prova de bala.

A sua confiança é ilimitada.

A ascendência que tem sobre os colegas nas equipas onde joga é constante - adoram-no, pedem-lhe conselhos, querem o seu abraço, a sua aprovação.

3.

O Bruno conseguiu ontem conquistar o direito a ser um semideus.

E na sua vida nada lhe foi oferecido de borla.

Quando aos 18 anos foi viver para Itália, onde começou por jogar na terceira divisão, passou-lhe pela cabeça desistir.

Não sabia ou compreendia a língua, pela primeira vez estava distante da sua zona de conforto, longe do Bessa e do seu Boavista, longe dos pais.

Os pensamentos negativos não demoraram a ser expulsos. Bruno fez da dificuldade uma oportunidade. Jurou que naquilo que pudesse controlar a vida nunca mais o apanharia de surpresa.

Aprendeu a falar italiano.
Aprendeu a falar inglês.
Quis conhecer sobre o mundo, sobre o ser humano, sobre o estar aqui.

4.

Bruno Fernandes ainda não é um Deus no Olimpo.

Mas desde ontem podemos celebrá-lo como alguém que está às portas do paraíso das divindades.

Um tipo que não é como os outros.

O único que falou abertamente sobre os direitos humanos no Catar, sobre a tristeza de jogar em estádios construídos por milhares de trabalhadores que não saberão quem será o próximo campeão do mundo.

5.

Bruno usa o número 8 por causa do pai que também usava o número 8 em equipas menores.

Juram-me que é isso, mas não tenho a certeza absoluta porque o Bruno Fernandes não fala praticamente da sua vida privada.

Sabemos da forte ligação com os pais, das lágrimas da mãe com o seu sucesso quando jogou e triunfou no Sporting, dos seus dois pequenos filhos, a Matilde e o Gonçalo, filhos de uma mulher que foi a única namorada que se lhe conheceu.

A Ana Pinho.

Que namora com o Bruno desde os tempos de Itália.

Que deve ter ouvido várias vezes as histórias da adolescência quando os professores lhe diziam para estudar, para ter um Plano B.

Até por ter especiais deveres em relação a outros miúdos - era inteligente, sabia o que desejava, era bom colega, tinha tudo.

6.

O Bruno Fernandes, que eu não tenho o prazer de conhecer, certamente que hoje dará razão a alguns dos professores.

E certamente que a Matilde e o Gonçalo serão por ele pressionados a estudar.

Mas também é verdade que as coisas são como são.

O Bruno Fernandes nunca foi o que os outros esperavam que fosse. Pensou, para o bem e para o mal, pela sua cabeça. Assumiu as responsabilidades pelas suas escolhas e seguiu em frente.

O Bruno é um português que nos prova todos os dias que ser português não nos condena a ser pequeninos, humildes, subservientes.

Podemos ser o contrário.

Enormes.
Confiantes.
Corajosos.

Até já, Bruno.
Agora já podes bater à porta de Zeus.

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